28.2.08

Questões laterais de identidade

Antes de escrever sobre um jogo do SLB, a estratégia do OSP passa normalmente por ver os 90 minutos com concentração máxima (uma tarefa que esta época tem um teor de S&M impossível de menosprezar), à espera de um pormenor, qualquer coisa à margem, que seja motivador e sobre o qual se possa arrazoar. Quando algo assim acontece, para o OSP é sempre mais interessante do que as grandes tendências da temporada ou do que aquilo de que todos os jornais falam. À laia de exemplo – perfeitamente aleatório, claro –, um passe mal feito pelo Luís Filipe ou uma perda de bola do Luís Filipe não seriam relevantes para o OSP, visto que não podem exactamente ser descritos como marginais, antes sendo mainstream na carreira deste jogador; já se ele, correndo da direita para o meio, fintasse o lateral-esquerdo adversário, os dois centrais e um dos trincos, que viriam todos à dobra, simulasse que ia chutar para sentar o guarda-redes (o que faria por duas vezes) e depois marcasse, tal mereceria um ensaio de pelo menos 6000 palavras, cerca de 38 000 caracteres, no OSP.

Em relação ao jogo com o Braga, contudo, o OSP há muito que sabia qual o tema que iria abordar, se bem que na semana passada, como fosse um sonho, lhe tenha assomado à ideia a possibilidade de abordar o potencial choque de titãs entre o Miguelito e o Luís Filipe que iria ocorrer nas faixas laterais do relvado da Luz. Contudo, se o Manuel Machado cumpriu, já o Camacho não fez a vontade ao OSP e não pôs o Luís Filipe a jogar. Porquê, não se sabe, mas não é de descartar a possibilidade de o Camacho ter acordado com uma cabeça de cavalo na cama. O OSP, aguerrido defensor dos direitos dos animais, não o recomendaria, mas também sabe que a paciência dos benfiquistas tem limites.

Em virtude desse episódio de razoabilidade camachiana, vingou a ideia original do OSP: fazer uma homenagem a um jogador de que aprendeu a gostar desde que ele começou a jogar no SLB – a correr ao abandono, como uma flecha loira (por fazer madeixas), a pressionar todos os jogadores adversários, incluindo o guarda-redes, quando eles tinham a bola, ou a dar tudo por tudo, tudo o que tinha, enquanto espumava baba e ranho, na defesa não só da sua grande área, mas também de uma mística que o SLB em tempos teve –, que com muita pena viu sair e cuja carreira, sobretudo este ano, tem seguido com atenção. Principalmente por causa do jogador actualmente no SLB para cujo lugar ele foi contratado este ano pelo Braga.

No jogo de domingo, o João Pereira demorou dez minutos até tocar na bola pela primeira vez (o OSP, mercê de uma adolescência com demasiado tempo livre e marcada pelo seu pouco talento para a sociabilidade, dedica de facto a sua atenção a este tipo de coisas), mas foram, até ao momento, e no contexto desta época do SLB, os minutos que o OSP viveu com maior expectativa e intensidade.* Ao primo toque, porém, deu logo para ver quais as virtudes do João Pereira: simplicidade e – o que tanta falta faz ao SLB actual – vontade.

Quando ele começou a jogar no SLB, como um extremo-direito improvisado lançado pelo próprio Camacho – que no Real Madrid era também, e sobretudo, um jogador de vontade inquebrantável –, o OSP nunca deixou de se entusiasmar com aquele miúdo que, sendo de recursos físicos e futebolísticos limitados, simplesmente se recusava a que alguém trabalhasse mais que ele, se esforçasse mais, quisesse mais a bola. Em tempos, quem assim jogava, compensando a falta de talento com querença, podia mesmo chegar a figura do SLB (a linhagem vai pelo menos do Ângelo ao Veloso); hoje, com o clube perdido entre as obscuras vontades de dirigentes não benfiquistas, empresários com vontade de fazer negócio e treinadores umbiguistas, o João Pereira foi visto primeiro como um tapa-buracos (pelo Camacho), depois como dispensável (Koeman) e por fim como trocável pelo Luís Filipe (Luís Filipe Vieira). Novamente, só a infinita sabedoria do Trapattoni o soube aproveitar, pondo-a a jogar na sua posição, lateral-direito, onde ele é agora o jogador mais regular do Braga e não deixa nenhum extremo ou lateral-esquerdo passar por ele, com falta ou sem falta, como o Léo e o Di María podem atestar.

Que contraste com o Luís Filipe, esse grande Midas de extremos-esquerdos, ou não transformasse ele todo e qualquer um deles que apanha pela frente automaticamente no melhor jogador da sua equipa. Uma simples coincidência, sem dúvida, mas oh se verificável. Não é nada de se deitar fora, pois, este talento do Luís Filipe, e ele tem outros, nomeadamente o de ser um talentoso provocador instantâneo de olhólhólhólhólhólhós e o de ter sido capaz de fazer com que o OSP sentisse compaixão pelo Fernando Santos, que dispensou o Luís Filipe no Sporting apenas para ver o Luís Filipe Vieira comprá-lo para o seu plantel três anos depois. Esta terá sido mesmo a maior proeza do Luís Filipe.

Sempre se falou, se bem que seja uma afirmação que vem perdendo actualidade nos últimos anos (foram demasiados anos de Kings, Paredões, Rojas, Uribes, etc.), que há jogadores que não são para o SLB. Em relação ao Luís Filipe, o OSP assume que para si é doloroso vê-lo a jogar com aquela camisola, e já o era antes daquela falha de jogador do Inatel no segundo golo do Nuremberga. Aliás, para o OSP, o momento mais escandalosamente vulgar e vexaminosamente revelador do Luís Filipe este ano não foi este na Alemanha, foi antes aos 22 minutos do jogo em Setúbal para o campeonato (o OSP também os contou então), quando o Luís Filipe, com um adversário à frente, tentou driblá-lo para o lado direito com plena convicção, sem se aperceber de que estava somente a um metro da linha lateral. O OSP não brinca com coisas desta seriedade: na cara do Luís Filipe, na sua comprometida linguagem corporal, quando ouviu os apupos dos vitorianos, viu-se nitidamente que ele não sabia que a linha estava ali tão perto, e foi isso que o levou a fazer algo que não se costuma ver senão em jogos de escolas (até aos 10 anos de idade, portanto). Depois desta demonstração de sentido de orientação absolutamente chocante num tipo que não faz senão jogar futebol há pelo menos duas décadas, o facto de o Luís Filipe não ter feito puto de ideia de que o Saenko ia a correr atrás dele só pode pasmar os mais desatentos.

Perante tudo isto, o OSP ficou a saber que só a amizade entre o presidente do Benfica e o do Braga, um qualquer favor antigo por pagar ou a mistura empresários+comissões podiam ter permitido que o Luís Filipe não só viesse para o SLB, mas também que custasse 750 mil euros. E mais: que um jogador que faz tudo o que ele faz, mas bem, e que ainda por cima é benfiquista, não esteja hoje no SLB. Se dessem, ao OSP, o poder de decidir, aliás, ele trocava um pelo outro e deixava, grato, o Braga ficar com os 750 mil euros como gorjeta.

Como se sabe, o pouco apreço e a pouca atenção dados a quem é formado no SLB não são de agora, mas encontram expressão completa na dicotomia João Pereira-Luís Filipe: podendo ter um lateral-direito feito em casa, que sentia – e como sentia – a camisola, que jogava com a raça do Domingos Sávio, que nunca se preocuparia se jogava ou se era suplente, estando apenas interessado em contribuir para a causa encarnada, o SLB preferiu emprestá-lo e mais tarde vendê-lo, e trazer para o seu lugar um jogador que não oferece, à equipa, metade do que ele oferecia, um jogador com mais talento, talvez, mas com muito menos nervo e coração. E, se derem ao OSP a escolha entre talento e coração num defesa, ele escolherá sempre o segundo. Sobretudo se for num jogador que gostava do SLB como o João Pereira, alguém que, até pelas suas limitações, é a verdadeira representação dos benfiquistas em campo, a materialização da vontade de jogar pelo SLB, alguém com quem todos aqueles que queriam jogar no clube, mas não tinham o engenho, se podiam identificar. Além do mais, depois daquilo com o Hugo Viana, os sportinguistas passaram a odiar de morte o João Pereira, e isso, para o OSP, é quanto baste.

A dicotomia supramencionada revela ainda, e de forma pornográfica, duas coisas: a péssima política do futebol do SLB e a diluição da identidade e da mística do clube – em relação a esta última premissa, aliás, há homens bem melhores que o OSP a dizerem isso mesmo. Para o João Pereira, para quem o SLB significava alguma coisa – porque ele cresceu lá, apanhava o autocarro em Campo de Ourique para ir treinar a Benfica, jogou derbys com o Sporting desde os 12 anos –, o amargor de ter sido tratado como foi é bem visível, mas acreditem que ele não jogou com a garra com que jogou no domingo por causa dessa sensação – não, ele joga sempre assim.

O Porto tem uma identidade, sobretudo baseada em jogadores com coração (os feios, porcos e maus identificados pelo Padinha) rodeados por três ou quatro craques, e como que roubou a mística ao SLB; o Sporting também tem identidade, só que neste caso assente em jogadores jovens formados no clube (o problema aqui é que os dirigentes do SCP têm sido tão inacreditavelmente maus ao longo dos anos que não sabem o que hão-de fazer com os áureos produtos de um sistema sobretudo criado pelos treinadores da formação e pela rede de olheiros do clube). O SLB, hoje em dia, o que tem? À primeira vista, além do exemplo vivo do que resta da mística que é o Rui Costa (que perdeu a época passada quase toda para ajudar a equipa a ganhar um jogo em casa com o Aves, no qual jogou lesionado), tem um capitão e um treinador que não se coíbem de elogiar o Porto e uma série de jogadores tantas vezes comprados em série que pouco sabem da história do clube. Sim, é mais ou menos isto. Só que aquilo de que o Nuno Gomes e o Camacho se esquecem é de que não têm de olhar para norte para verem como se faz: falem com o Humberto, com o Veloso, com o Álvaro. Melhor ainda: vejam-nos.

À luz do fastidioso facto de o Luís Filipe se estar ultimamente a transformar num dos seus objectos predilectos, o OSP promete que tudo fará para ignorar o jogador em questão daqui em diante, até porque já está enjoado dele… mas às vezes, claro, vai ser difícil, muito difícil… ignorar esse cepo, alguém que de forma tão óbvia mete o “anal” em “banal”.

* Na verdade, o OSP só se conseguiu interessar pelo jogo a partir dos 11 minutos porque passou os primeiros dez em choque, limitando-se a repetir, balbuciante de incredulidade e a balançar o corpo para trás e para diante: “O Camacho deixou o Maxi Pereira no banco, o Camacho deixou o Maxi Pereira no banco…” Escapou à maioria das pessoas que se tratou, em 2008, da possível abertura de um dos selos do Apocalipse.

(SLB, 1 - Braga, 1)

26.2.08

Homo Budisticus


No Porto o Lucho ou o Quaresma fazem falta, no Benfica é o Binya. O Benfica do Camacho é o Benfica que sente a falta do Binya. O do «aquele cujo nome não pode ser pronunciado» sentia a do Tavares. As melhorias existem, mas são um pouco para o residuais, não fosse o Binya ter braços à Diamantino. O Benfica do Camacho é o que dá nove minutos ao Di María e três ao Adu. E acha muito. O raio dos putos jogam bem à bola e isso é chato quando o que se quer é ver futevólei.

Ao contrário do que corre por aí Camacho, não está desmotivado, não revela a apatia de uma amiba, nem sequer a cobardia do cão da pradaria ante o coiote. O Camacho está a fazer um belo trabalho para ir para a selecção espanhola. Ele está sempre a ver o que há em Espanha para se escapulir da Luz, onde vem ganhar uns cobres quando está entre empregos. Lançamos um esquizofrénico alerta para o desespero do pobre Camacho. Consta que ele não entende, que se esforça tanto para que as coisas corram mal e o libertem de futuros compromissos, e ninguém lhe dá a carta de alforria.

O osp está a ter déjà vus. E o osp é particularmente sensíveis a déjà vus que envolvem criaturas que andam aos caídos pelo mundo em busca de biscates, tendo no rosto um carro-vassoura incorporado. Nos tempos de «aquele cujo nome não pode ser pronunciado» jogávamos à Camacho: três trincos, jogadores de posições trocadas, à defesa contra equipas do nível do Carcavelhinhos, amantes no campo (ninguém me tira da cabeça que entre o Nelo e ele havia qualquer coisinha), etc.

Mas nem tudo é banal. Camacho é um homem de milagres, de grandes milagres. Só um milagreiro faria os benfiquistas terem saudades do Fernando Santos. Bem, talvez saudades seja um pouco forte, menos pena talvez, um pouco mais de compreensão. O Camacho está empenhado em fazer de todos os benfiquistas budistas, que em vez do «om» que antecipa o nirvana murmuram um «epá, afinal o gajo não era assim tão mau». O Camacho fez mais pelo budismo em Portugal do que o Amado ao não receber o Dalai Lama.


[ Nuremberga 2 - Benfica 2 ]

22.2.08

Kick and Stroll

A globalização rodeou-nos de janelas com vistas privilegiadas do que antigamente só descobríamos em bibliotecas ou em memórias de gente viajada.
E as janelas ganharam trincos fáceis de desbloquear, com o levantamento gradual de barreiras – legais e financeiras – que permite a milhões misturarem-se com as diferenças.
No futebol a globalização foi galopante. A outrora rigidez nacionalista, com uma limitação aos toques na bola por jogadores de outros países, foi arrasada por um jogador belga, de quem ninguém recorda um golo que seja, mas cuja teimosia deu nome a uma lei.
Bosman deu, então, início à mistura. A palete de cores, outrora de cores tão distintas, viu-se escorrida e misturou as cores vivas da América do Sul e de África com os cinzentos do Norte da Europa.
Perdeu-se a diversidade, desarrumaram-se os estilos. A frieza alemã, a racionalidade holandesa, a esperteza belga e o kick and rush britânico, e o seu sucesso, morreram nos braços da globalização. Corrijo: o sucesso nunca se aplicou ao kick and rush.
Esta forma de empurrar a bola para a baliza, a mais próxima da génese do futebol, proporcionava batalhas gloriosas, mas escassos sucessos.
Na Europa, uma ou outra taça secundária, a última das quais do fabuloso exército do Everton de Southall, Reid e Gray. Convém não se deixarem confundir com o domínio absoluto do futebol inglês entre o final da década de 70 e a tragédia de Heysel Park. Tanto o Nottingham Forest, como, principalmente, o Liverpool, colocaram de forma bem vincada o pass e o dribble antes do kick, mantendo o rush, e apresentando, como natural consequência ou, melhor, motivo, um lote de fabulosos jogadores (Keegan, Dalglish, Souness, entre muitos mais), que inventaram vários dos movimentos hoje em dia tão banais, como as tão frequentemente referidas pelos comentadores diagonais.
O kick and rush só se encontra hoje nas divisões secundárias inglesas e nas fraquinhas divisões dos restantes países britânicos. E, inesperadamente, em Portugal. Sim, e no Benfica.

Não há memória recente de uma contratação tão necessária a um estilo de jogo como a de Makukula. O distribuidor de jogo do Benfica, Quim, encontrava em Cardozo um receptor insuficiente para os seus lançamentos constantes. Makukula dá, sem quaisquer ironias, consistência ao Benfica de Camacho.

Sendo rigoroso, no Benfica não se verifica um verdadeiro kick and rush, porque falta um rush mais global, alguém que acompanhe o Binya e o Rodriguez. Com as passadas mais calmas de Assis, Maxi, Katsouranis e Petit, temos, na verdade, uma versão mais calma, um kick and stroll.

Tal está esta relíquia britânica já enraizada no Benfica 2008 que o golo nasceu de um típico lance de televisão a preto e branco da década de 70: lançamento longo de linha lateral, cabeceamento para trás para novo cabeceamento para a baliza.
E a simetria continuou com o Benfica Football Club com imensas dificuldades perante uma equipa que jogava à latina, trocando a bola de pé para pé.
Mas lá veio o homem que pura e simplesmente estraga tudo, que destrói em meia dúzia de minutos um esquema de jogo coerente. Rui Costa, com aquela sua mania de andar com a bola no pé e de passar – imaginem! – bolas rasteiras por entre os defesas adversários já habituados a ter sempre os olhos no ar, quebrou a lógica do jogo, e o Benfica, por um brevíssimo momento, voltou a ser o SLB e a marcar um golo com base numa jogada com vários passes e apenas um kick (o do golo).

Urge, assim, encostar Rui Costa no banco e deixar o Quim com os seus Makukula e Cardozo. The Kick and Stroll must go on.


(Naval 0, - SLB, 2)

17.2.08

A verdade é que ver um jogo inteiro do SLB é mais chato do que uma retrospectiva do Manoel de Oliveira na Cinemateca

Não é fácil vir aqui ao Estádio da Luz e colocar o Benfica a fazer antijogo e com medo do Feirense. Luís Miguel, treinador do Feirense, 19.01.2008

Na primeira parte, jogámos como em casa. Thomas von Heesen, treinador do Nuremberga, 14.02.2008

Uma das locuções, não!, uma das instituições do futebol que o Obrigadosápinto mais aprecia é o “olhólhólhólhólhólhó”. Toda a gente a conhece, aquela consoante palatal lateral repetida vezes sem conta (no mínimo seis), quando uma jogada perigosa ou mesmo de potencial desastre para uma equipa se desenrola pouco a pouco perante os olhos dos seus adeptos. Para prover esta afirmação com exemplos práticos, aqui ficam dois, adaptados à realidade do SLB e perfeitamente aleatórios: “Olhólhólhólhólhólhó, que o Luisão passou a bola ao Luís Filipe” e “Olhólhólhólhólhólhó, que o extremo-esquerdo dos gajos está a ir para cima do Luís Filipe”.

O olhólhólhólhólhólhó, pelo menos no espírito do Obrigadosápinto, é, pelo seu carácter institucional, algo de precioso, faz, tal como uma entrevista-relâmpago do Jorge Jesus, parte da cultura seminal do futebol e, como todas as coisas preciosas e seminais, não deve ser desperdiçado, não é para ser derramado on the dusty ground. Hoje em dia, contudo, assiste-se a uma verdadeira praga de olhólhólhólhólhólhós no Estádio da Luz, olhólhólhólhólhólhós esses que, nos últimos 15 minutos de jogo, são exclusivamente estribilhados por adeptos do SLB.

Como é que isto aconteceu? Desde quando é que o SLB tem de acabar os jogos aflitinho a defender o 1-0? Desde quando é que o SLB tem de acabar os jogos aflitinho a defender o 1-0 contra o Feirense e o Nuremberga? E o problema maior disto tudo é que se perdeu completamente o carácter, a exclusividade do olhólhólhólhólhólhó: ele costumava estar reservado para jogos com grandes equipas com grandes jogadores (o Kostadinov continua a ser provavelmente o maior olhólhólhólhólhólhó que o Obrigadosápinto já viu na Luz: bastava ele relancear a bola ou o Fernando Mendes para um murmurinho temeroso nascer nas bancadas), mas agora quaisquer badamecos chegam à Luz e induzem-no. Pior, depois de verem o SLB a jogar na televisão, e num sinal de enorme falta de respeito, começam mesmo a pensar em induzir os olhólhólhólhólhólhós vários dias antes do jogo, apesar de, por uma questão de pundonor, dizerem o contrário nas conferências de imprensa. Como as coisas mudaram: neste momento, já todos sabem que o SLB vai nu.

Muito, claro, é culpa própria: seja na Taça de Portugal com o 12.º classificado da II Liga, seja na Taça UEFA com o antepenúltimo da Bundesliga, o SLB faz com que qualquer equipazeca (com ofensa) entre no seu estádio e, qual convidado abusador, de imediato comece a mexer em tudo como se fosse seu: desarrumam-se livros, vai-se ao frigorífico sem pedir, fazem-se perguntas sobre as fotografias de família, não se descalçam os sapatos enlameados. E o que é que a equipa do SLB faz? Rigorosamente nada: porta-se como uma excelente anfitriã, sempre com um sorriso, recusa-se a impor as regras da sua casa, e no fim os treinadores das outras equipas ainda dizem mal da comida. É a indignidade. É o mesmo que o Pedro Paixão sair de casa do Hemingway a dizer que a escrita dele é estereotipada.

Em tempos, todo o jogo na Luz começava com 15 minutos à SLB™, mas a equipa actual já se mostrou incapaz até de pôr o Celtic em sentido; o que interessa é que os adversários estejam confortáveis. Como a totalidade dos benfiquistas, contudo, o Obrigadosápinto está farto de que a equipa do SLB se comporte como uma sr.ª Dalloway cuja sanidade depende de os convidados se sentirem bem em sua casa, está farto de que o último quarto de hora de jogos com Feirenses e Nurembergas consista em sucessivos olhólhólhólhólhólhós. Há que acabar com este complexo dos 15 minutos à Feirense™.

Sendo progressista, o Obrigadosápinto confessa-se, não obstante, conservador em alguns aspectos, por isso lembra-se do velho Estádio da Luz com algum saudosismo. Sobretudo, e de olhos embaciados, lembra-se das equipas do SLB que lá jogavam. Até porque ainda não era nascido, o Obrigadosápinto não está a falar da década de 1960, e nem é preciso: basta lembrar o princípio da de 1990, quando o SLB ainda era a segunda equipa com maior número de pontos na história da Taça dos Campeões Europeus e o Michael Laudrup veio jogar à Luz pelo Barcelona e disse que o SLB era a melhor equipa que alguma vez tinha visto. As equipas adversárias respeitavam a “Catedral”, mas o SLB deixou de exigir esse respeito. Já nem o Luís Miguel o oferece agora.

Costumava ser, até, que os jogos da UEFA fossem, para os benfiquistas, um refrigério de desilusões internas. Estimulado pelo seu sangue azul e aproveitando uma recente efeméride relativa à realeza, ao Obrigadosápinto até apetece dizer que, para o SLB, sair de Portugal era a oportunidade de, pelo menos por momentos, ir para longe da piolheira. Na verdade, tirando alguns jogos com o Liverpool na década de 1980, o SLB fazia sempre boa figura na Europa, estava entre pares. Era verdadeiramente parte da aristocracia europeia.

No Estádio da Luz, então, era tão bom como as grandes equipas estrangeiras que lá iam jogar: Arsenal, Juventus, Parma, Barcelona, ninguém vinha cá e parecia ser de outra galáctica.

Até que um dia, num previsível repente, tudo mudou, e o Obrigadosápinto estava lá, inclusive, quando a viragem se deu. Foi em 1999/2000, numa noite de chuva: num jogo com o Dínamo de Bucareste, o SLB perdia por 1-0, e o jogador que saiu do banco para inculcar o medo de Deus no coração dos romenos foi o Tote. Como é que, a partir daqui, o SLB podia aspirar à respeitabilidade europeia? (Dois meses depois, como que a confirmar essa ideia, o Obrigadosápinto ouviu dizer que aconteceu qualquer coisa em Vigo.)

A sofisticação aristocrática que o SLB tinha na Europa já não passa, assim, de uma memória, mas condicionou de tal maneira o jovem Obrigadosápinto que o adulto Obrigadosápinto ainda espera que ela surja a qualquer momento. Contudo, os valores são agora outros, o mundo é diferente, e as certezas estruturalistas já de nada valem a um benfiquista como o Obrigadosápinto. Chegou talvez a altura, pois, de ele abraçar o pós-modernismo.

Sem recorrer a metanarrativas, há que aceitar as coisas como elas são e ver que, presentemente, o SLB da UEFA joga mais ou menos o que joga o de Portugal: pouco, sem qualquer estro e, ao que parece a um observador exterior como o Obrigadosápinto, com muito pouca vontade. Mais que perdidos, os jogadores parecem francamente aborrecidos em campo, e, por muitas voltas que se dê, não se podem fazer somente dois remates à baliza num jogo em casa com o Nuremberga, uma equipa cujo Angst actual é de tal ordem que a sua esperança de salvação da época foi depositada na contratação de um ponta-de-lança com 34 anos, os joelhos de um membro da gerúsia e a mobilidade de uma arca de mogno. A marcá-lo, o Luisão até parecia o Mozer, e ao menos esse flashback foi consolador para o Obrigadosápinto.

(SLB, 1 – Nuremberga, 0)

Quase tão feio quanto o jogo do Benfica

11.2.08

Amancebados e tácticas

O ilustre táctico que orienta o Benfica deu finalmente a mão à palmatória. Jogos atrás de jogos optou por colocar em campo uma estratégia brilhante, que apenas toda a gente não entendia:

dez jogadores atrás da linha do meio campo e o primeiro a recuperar a bola (necessariamente fruto de um erro adversário) pontapeava-a para a frente na esperança que o Cardozo a recebesse entre 7 adversários, aguentasse os pontapés à Bruce Lee (não assinalados) de 4 deles, um puxão na camisola de 2 e uma festinha no rabo do outro; depois de aguentar as sevícias por 2m e 33s aparecia um segundo jogador (quase sempre o Rui Costa, na sua passada larga) para dar o necessário apoio. Camacho provou que é um táctico lúcido e avesso a teimosias. Logo ao 34º jogo percebeu que talvez não fosse a melhor forma de Salir a ganar, e inovou!

A inédita táctica passava agora por ter dez jogadores atrás da linha do meio campo e o primeiro a recuperar a bola (necessariamente fruto de um erro adversário) pontapeava-a para a frente na esperança que o Makukula a recebesse entre 7 adversários, aguentasse os pontapés à Bruce Lee (não assinalados) de 4 deles, um puxão na camisola de 2 e uma festinha no rabo do outro; depois de aguentar as sevícias por 2m e 33s aparecia um segundo jogador (quase sempre o Rui Costa, na sua passada larga) para dar o necessário apoio. Brilhante!

A capacidade de adaptação deste nosso estratega é quase tão boa quanto a de Nuno Assis, um jogador talhado para jogar em qualquer posição, excepto naquela em que as suas características teriam melhor uso. Parece destinado, aliás, a ser um brilhante médio-direito. A sua capacidade de aceleração não engana!

Contudo, o seu brilhantismo não fica por aí, não pensem! O Zé Tó, depois de uma noite de galdeirice com seu amante, optou por pô-lo a jogar a médio defensivo. Aí sim, fez toda a diferença! Principalmente porque não deixou o lado direito do Benfica coxo.

O que seguramente o Zé Tó não quer é pô-lo a jogar a ponta-de-lança (e o Maxi até já lho pediu); ter-lhe-á respondido: «del miodo que yo piongo el equipa a jogar jamás jugariás a delantero. Hasta puedes juguiar a portero pero a delantero jamás, que iesse rabinho es solo mío!


[ Benfica 4 - Paços de Ferreira 1 ]

Bruto pé esquerdo

Quando o Cardozo marca um penalty, a bola só vai àquela velocidade porque está a fugir com medo de levar outro pontapé dele.

7.2.08

El Cid

Já se sabia que o Maxi Pereira, sem dúvida um bom lateral-direito, era o jogador preferido do Camacho no plantel (talvez em todos os plantéis do mundo) e que só não joga se um dia rasgar totalmente o ligamento poplíteo arqueado, mesmo aí não havendo certezas. O que se tornou agora claro é que, depois de ele ter tido permissão para fazer de Rui Costa na segunda parte do jogo com o Nacional – i.e. jogando com liberdade para aparecer onde queria –, há aqui outros factores em jogo, na forma de uma man crush absolutamente indissimulável.


Os pensamentos e as preces do Obrigadosápinto estão, neste momento, com a sra. de José Antonio Camacho e com as provas documentais que ela descobrirá no portátil do marido um dia destes.

6.2.08

Golpes de pancrácio obrigadosápínticos (MCMV)

"Trabalhei com Camacho durante um ano e meio e, na minha opinião, há algum défice de qualidade de treino. Camacho é mais um treinador intuitivo do que académico. E julgo que é perceptível que, no futebol do Benfica, há um défice de organização e de modelo de jogo. A equipa joga em função da inspiração de cada jogador e não de um modelo concreto. Parece que a equipa não sabe o que fazer com a bola quando a tem", António Simões in Público

O nosso Quaresma

Quaresma definido em três linhas:
- É imprevisível
- Muitos golos nascem pelo seu flanco
- É assobiado pelos adeptos da sua equipa
.
.
.
.
......
.
Luís Filipe definido em três linhas:
- É imprevisível
- Muitos golos nascem pelo seu flanco
- É assobiado pelos adeptos da sua equipa

Já só nos falta um Lucho Gonzalez.

3.2.08

A simplicidade de Camacho

Uma das virtudes apontadas a Camacho é o seu discurso simples. No Obrigadosápinto, navegam almas que integram gerações traumatizadas pelos “se quiser”, “coisas bonitas”, “jogadores escondidos” e outras expressões de Artur Jorge, que ainda hoje nos irritam a pele, pelo que um discurso simples é, se não estimulante, pelo menos reconfortante.
Mas a simplicidade de qualquer discurso só encontra verdadeiro mérito se a realidade a que ele se refere for complexa.
Carlos Lopes, após vencer uma maratona, apontou como motivo para a vitória correr mais do que os outros. Mas nós sabíamos que o caminho até a meta estava cheio de táctica, de contenção em determinados momentos e aceleração noutros.
No caso de Camacho, quando ele aponta invariavelmente a não marcação de golos como motivo exclusivo de não somar mais três pontos, ele retrata fielmente a forma como aborda os jogos. Escolhe 11 e a bola entra (como em Guimarães) ou não entra (como ontem, ou contra o Leixões ou contra o Porto ou nos outros jogos que a nossa memória já começa a repelir).

Um jogo com 22 jogadores aos pontapés numa bola, num terreno de 100 por 60 metros, gera um sem número de variáveis. O papel de um treinador é o de aproximar várias dessas variáveis a constantes. E isso começa com a escolha dos jogadores.

Quando se faz alinhar um Luís Filipe, a aleatoriedade do jogo dispara. Quando, por infortúnio, Luís Filipe agarra na bola, ninguém sabe onde a bola vai parar, a começar por ele próprio. “Vou passar a bola ao Maxi”, pensa ele, e lá vai a bola para o Petit (na melhor das hipóteses) ou para um adversário (na maior parte das vezes).
Outro aspecto também estranho a Camacho, é o das saídas para o ataque. Rui Costa, ainda na Fiorentina, retratava as horas semanais que passavam só a treinar este aspecto. Com Camacho, este aspecto é despachado de forma simples (lá está novamente o “simples”): dá-se a bola ao Quim e a transição para o ataque fica feita com um charuto para o outro lado.

O problema não está na meta (nos golos) mas no que (não) se faz durante a corrida. O facto é que, como se comprovou ontem, o futebol da equipa de Camacho é tão imprevisível como uma eleição para secretário-geral do PCP.E na Luz já se vota de braço no ar. Só que agitando lenços brancos.


(Benfica 0 – Nacional 0)

O triste regresso do OQEQOAJFNS

Aos 68 minutos, o SLB está ainda empatado em casa (0-0) com o nono classificado, de um campeonato de 16 equipas. OQEQOAJFNS? Tirava o lateral-direito adaptado a lateral-esquerdo para meter um lateral-esquerdo. Além disso (para esfregar sal na ferida), deixava em campo um lateral-direito que faz qualquer extremo-esquerdo parecer o Rivelino e cujos cruzamentos de merda atraem repetidamente os cortes dos defesas adversários, como se fossem moscas.

2.2.08

"O Silvino não tem de provar nada a ninguém" / "Toda a gente conhece o Silvino" / "Toda a gente sabe do que o Silvino é capaz"

Esta é, nos últimos oito dias, a segunda referência aqui feita a um jogador do Sporting, pelo que o Obrigadosápinto está a ficar com comichões e a sentir necessidade de tomar um prolongado duche.

Antes, contudo, não pode senão confessar-se nostálgico depois de ler esta muito curta entrevista do novo Ronaldinh do Celsinho, na qual ele se refere a si próprio na terceira pessoa por cinco vezes. Extraordinário. Talvez quase-histórico.

É que o Obrigadosápinto tem uma predilecção por atletas que falam de si próprios na terceira pessoa – no que é uma espécie de singular majestático –, e desde os tempos de Silvino Louro que não via alguém fazê-lo com tamanha convicção.

Agora o Obrigadosápinto pôs-se a pensar que se calhar é essa ausência de transpessoalidade no plantel que tem andado a lixar o SLB na última dúzia de anos. Isto enquanto o Silvino andou a ser campeão no Porto, a chutar bolas na direcção do a treinar o Petr Cech e a ser visita da casa londrina do Baltemar Brito, que por sua vez era no prédio da Monica Bellucci. A verdade, então, é que o Silvino é um vencedor, e o SLB devia ter sempre um jogador que seja capaz de ser actor e espectador de si mesmo em campo. O Luisão, em média, só fala de si na terceira pessoa duas vezes por conferência de imprensa completa. Não chega.

O Obrigadosápinto vai agora pôr a água do duche a correr.

1.2.08

Tomas o comprimido vermelho e ficas no País das Maravilhas

O amor à primeira vista não é mais que uma fantasia a que homens e mulheres se agarram ao fim de décadas de casamento, a recordação já desfocada do/a amigo/a da meninez, da paixão de Verão, do/a colega de faculdade, que surge como um consolo em meio ao gris da prática conjugal diária. O Obrigadosápinto não acredita em grandes começos.

Um exemplo: quando, ainda um jovem, viu o Matrix no cinema, o Obrigadosápinto pensou que estava a testemunhar em primeira mão um dos maiores filmes jamais feitos, que juntava de forma culta, mas não pedante, as tendências nerds do Obrigadosápinto e a sua fascinação por filmes de porrada. Era, ao mesmo tempo, um grande filme e um ganda filme. Ao ver aquela mistura de Baudrillard e Capitão Marvel, de angústia do capitalismo tardio e kung fu, o Obrigadosápinto deu por bem empregues aquelas tardes passadas a ler gibis da Editora Abril. Foi um grande começo.

O Reloaded e o Revolutions, contudo, meteram as coisas no devido lugar: os Wachowskis eram sobretudo tipos com problemas de sociabilidade que, quando a ideia boa que tiveram se esgotou, foram aumentando as explosões e as cenas de pancadaria à medida que as especulações pseudofilosóficas das personagens acerca da natureza da realidade se iam tornando mais caricatas e dolorosas de ouvir. A rave gigantesca em Zion, uma discoteca de escala citadina onde toda a gente dança num uníssono suado, só podia ter saído da cabeça de dois homens que, na adolescência, se entregaram de forma consistente, metódica e dedicada à quiromania.

No futebol, é a mesma coisa (no que diz respeito aos começos, não à quiromania). O que são, afinal, o Padinha e o Tó Portela, para usar dois românticos exemplos bem próximos, senão bons começos que nunca tiveram continuidade? Parece, ao Obrigadosápinto, que pode haver nisto uma lição de vida. Às vezes, talvez seja melhor começar devagar, ir mostrando um pouco e depois tirar finalmente as vestes, mas com decoro. É possível que o mostrar demasiado demasiado depressa extinga rapidamente a chama. Há aqui, de facto, uma moral.

Para o Obrigadosápinto, o Di María é, quer no SLB, quer em qualquer outra equipa cujos jogos sejam regularmente transmitidos pela Sport TV, o jogador com mais potencial, o mais excitante, o mais impossível de classificar, aquele no qual a bola mais parece, não uma extensão do próprio corpo, não um objecto de trabalho, mas sim um brinquedo. O Di María não é um Quaresma, que, ao contrário do que parece, é um produto de mecanização, alguém que treinou milhares de vezes a trivela e a finta com o calcanhar para o interior do campo, quando parece que vai para a linha final; só após um cuidado programa de dopagem poderia ser uma maravilha física como o Cristiano Ronaldo, e nunca terá a sua altura ou ossatura; não é um decalque como o Messi, alguém cujo futuro já existiu no passado; não é um gingão já espartilhado num sistema e numa táctica europeus como o Robinho.

O Di María é diferente de todos eles, porque, em qualquer jogo, parece que acabou de sair do seu primeiro treino organizado nos iniciados, no qual passou metade do tempo a recrear-se com a bola, sem ouvir o que o treinador dizia; é diferente porque nunca se faz a mínima ideia (ele próprio certamente não fará) do que sairá daqueles pés, quando eles pegam na bola. Em 75% dos casos, o Di María perde-a de maneira tão estupidamente infantil que dá vontade de espancá-lo num beco escuro (como, na escola, o Obrigadosápinto gostava de ter feito, mas nunca fez, àqueles miúdos que não passavam a bola a ninguém), mas há tanta recompensa naqueles 25%, tanto potencial, que a seguir dá vontade de cobri-lo de beijos. Gordos. O que ele tem não se treina – aliás, é bem possível que o treino dê cabo daquilo que ele tem. Aquilo só se brinca.

O futebol dele é excitante também por ser perigoso, sobremaneira por isso, se calhar. É uma certeza que ele vai perder uma ou outra bola à entrada da área que até pode (vai) dar golo à equipa adversária, e não faltará quem apareça então a falar da imaturidade do Di María, do quando é que ele se tornará finalmente um jogador de equipa. Por cada vez que isso suceda, porém, há sempre a possibilidade, por remota que seja, de que aconteça algo como o que aconteceu no sábado.

O miúdo é imprevisível, e o seu ar desconjuntado, aquela maneira de correr eléctrica, os pés para o lado, o ele não saber jogar em affetuoso (vê-se que quer ir para a baliza assim que recebe a bola, nem que seja à saída da sua própria grande área), só aumentam o encantamento de o ver com a bola nos pés. Todos os defesas do mundo hão-de saber, um dia, que o Di María pára apenas por milissegundos antes de, ao melhor estilo matrixiano, acelerar para a baliza, porque ele só sabe jogar para a frente. Ao seu lado, atrás de si, biting his dust, como agentes Smith, todos os adversários e companheiros parecem estar parados. O Di María pode ser o Neo não só do SLB, mas de todo o futebol, o escolhido para derrubar um desporto-rei (há muito que o Obrigadosápinto queria escrever “desporto-rei”) cada vez mais sistematizado, mais robotizado e mais artificialmente glossy. (Durante a sua passagem por Portugal, talvez o Di María até consiga derrubar o totalitarismo socrático, ou inspirar uma geração de portugueses, futebolistas e não só, a fazê-lo.)

É sempre esta, no fundo, a tensão que existe no futebol, que aqui se realiza, num daqueles momentos de clareza, como maravilhosa metáfora da existência: a tensão entre o instinto e a razão, entre o improvisado e o mil vezes treinado, entre a individualidade e o colectivo, entre o liberalismo e o comunismo. Se o Maradona tivesse sido treinado pelo Mourinho, tinha gramado muito banco e muita conferência de imprensa do treinador a acusá-lo de ser um mau profissional por passar os treinos a dar toques malabares na bola (em vez de treinar a 80% da intensidade de um jogo, é claro) e por não correr atrás dos adversários depois de a perder; pelo Obrigadosápinto, o Di María bem pode não fazer a compensação às subidas do lateral-esquerdo umas quantas vezes por jogo. Quanto pode o indivíduo ousar sem comprometer a ordem social à sua volta? Questões interessantes, o Di María põe-nos.

A expectativa que houve, ao princípio, em redor do Di María não se deveu necessariamente ao facto de os benfiquistas saberem que era ele quem vinha para o SLB; foi mais por vir para cá um jogador canhoto argentino de 19 anos. Esta premissa já arquetípica tem tantas conotações que nem vale a pena aprofundá-la. Contudo, passada aquela expectativa do novo, depressa os benfiquistas se começaram a irritar com o individualismo, as perdas de bola, as fintas sem sentido, a irregularidade. Ao vivo, na Luz, aquele entusiasmo inaugural (de quem estica os lábios e aspira ar pela boca) pelo Di María começou a dar lugar a um burburinho de desaprovação (de quem sussurra para o espectador do lado) sempre que ele perdia uma bola ou falhava um passe. De maneira que, para o Di María, não foi chegar e conquistar, como aconteceu ao Rodríguez, que tem tanto de criativo como de objectivo. O começo do Di María no SLB foi, desta forma, e tomando em consideração tudo o que o rodeou desde que chegou, um mau começo, mas com aquele ocasional levantar do véu que vale o preço de 25 bilhetes para a bancada central.

E ainda bem que o Di María começou mal no SLB; não só porque pode (vai) acabar bem, mas também porque, enquanto isso não acontece, vai fazendo o Obrigadosápinto devanear com o que poderá ser. O futebol, afinal, ainda é sobretudo projecção, sobretudo promessa, é ver seis jogos num só fim-de-semana e arriscar a felicidade conjugal na expectativa de ver um golo ou uma finta que nunca mais se esquecerá. Para um benfiquista, nestes últimos anos, ver futebol é, mais do que expectativa, pura esperança, e, para quem ainda gosta do futebol primordial, do prazer de ver alguém tentar que os seus pés façam alguma coisa de insólito com a bola, por estes dias felizmente há o Di María e a Taça das Nações Africanas.

28.1.08

We're not worthy!

"Sporting?"

Para todos os que, de forma visceralmente antiobrigadosápíntica, todos os anos dizem: “Eh pá, eu sou do SLB/Porto/Sporting [riscar o que não interessa], mas na UEFA gosto que ganhem as equipas portuguesas.”

Não quero ser azul nem verde nem cinzento

Falando de arrancar os cabelos por causa da arbitragem, e à luz daquele arremedo de imparcialidade de sábado à noite, será finalmente possível que a profissão militar deixe de ser emparelhada com tudo o que é qualidade moral e ética? (O objectivo dos militares é matar e aleijar gente, pessoal.) O João Ferreira é oficial do exército, e nem por isso o desempenho dele em Guimarães deixou de ser uma merda que de tão merdosa já parecia premeditada. O Obrigadosápinto tem, contudo, certeza de que não o foi, foi tão-somente mais uma prova de que este árbitro não é lá grande espingarda.* O João Ferreira pode ser sério, o.k., mas isso não se deverá ao facto de ser militar.

O Pedro Henriques, por exemplo, só marca 31,33% das faltas que acontecem nos jogos dele e, bem de acordo com a tradição marcial, só expulsa um jogador se a falta cometida, invariavelmente a pés juntos, envolver arrancamento, mas por ser major é o maior para a comunicação social.** Se ele fosse um mecânico mentireiro ou um merceeiro matarruano em vez de major,*** seria visto como uma espécie de Jacinto Paixão, se bem que de poderoso caparro.

O Hitler também foi soldado, pessoal, e por cada Elias Grodin há sempre 3,7 Bob Barnes, por isso o Obrigadosápinto aconselha calma a quem diz que os militares fazem bons árbitros por deles emanar uma aura de autoridade natural.

* Ah, o regresso da pavorosa metáfora obrigadosápíntica.
** Péssima, esta aliteração, até para o Obrigadosápinto.
*** Melhores, estas.

La furia

Falando de espanhóis, a vitória do SLB em Guimarães, como fosse plena de virtudes camachianas, transverteu esta, sem dúvida, numa semana muy fuerte para a periodização táctica, o treino integrado e as transições ofensivas feitas na Hispânia.

Boa noite, eu sou a Manuela Moura Guedes

Falando de repetições, o Obrigadosápinto quer também saudar a TVI, que, ou em contenção de custos, ou para não danificar o produto que promove, ou em cruzada moralizadora (se ainda fosse a televisão da Igreja, era esta), deixou de mostrar, como acontece na Liga dos Campeões e na Premier League, até à exaustão as repetições de “lances polémicos”. Quem não viu à primeira, não viu, e antigos-árbitros-hoje-comentadores poderão ver-se condenados a um desemprego alcoolizado se não puderem recorrer àquela 6.ª repetição, de ângulo inverso, que prova de forma inequívoca que, com o pé direito, o jogador adversário derrubou Quaresma à margem das leis, quando este já se esgueirava para a área, sendo esta acção passível de admoestação com a mostragem da cartolina amarela.

Sim, o SLB tem razões para arrancar os cabelos por causa da arbitragem do jogo de Guimarães, mas o Derby County também é muitas vezes prejudicado em tardes frias no Nordeste de Inglaterra, e a vida continua. O Obrigadosápinto arriscaria dizer que também foi por esta ausência de necropsias arbitrais que o Guimarães-SLB foi um ganda jogo.

Ou então é mais uma prova de que os homens de negócios espanhóis são mais espertos do que os portugueses.

Coração, nervo e tomates

Foi de facto um ganda jogo em Guimarães, com garra, empenho e sofrimento, e o Obrigadosápinto sente-se um felizardo por gostar de futebol depois de ver um jogo desta intensidade. Ainda se sente cheio de energia só de pensar no que se passou em campo.

Rapaziada, podem jogar assim mais vezes? Não tem de ser com arte, os benfiquistas ficam satisfeitos com vontade. Permitam, pois, que o Obrigadosápinto reformule o seu pedido: podem suar assim mais vezes?

24

Dois prolegómenos, hoje: 1.º qualquer benfiquista que, como o Obrigadosápinto, tenha aprendido a ler com “A Bola” de antanho sabe que, em 1968, o Eusébio marcou um (célebre) golo à Juventus, em Turim, num livre pouco depois da linha de meio-campo, pelo menos a uns 40 metros da baliza, e antes do qual, ao aperceber-se de que ele tomava balanço para ir rematar à baliza, o público se começou a rir; 2.º a televisão está a matar o futebol.

Muitos dizem que o livre contra a Juventus é talvez o melhor golo da carreira do Eusébio, e o Obrigadosápinto tem como verdade absoluta que, se for esse o caso, então trata-se do melhor golo já marcado desde que os chineses começaram a jogar cuju. Se consegue ser melhor que qualquer um dos três que o Eusébio marcou ao Santos em Paris, em 1961, então o segundo golo da Argentina contra a Inglaterra em 1986 passa a nota de rodapé, escrita por um Rui Barros vitaminado e sem ar de bimbo.

O que é curioso é que o Obrigadosápinto nunca viu o golo do Eusébio à Juventus, não sabe de ninguém que tenha visto o golo do Eusébio à Juventus (pelo menos o verdadeiro). O Obrigadosápinto é, há que confessá-lo, algo misantropo, apesar de galhofeiro no balneário, mas decerto alguém de entre as pessoas que ele conhece já devia ter visto o livre. Nisto, porém, o Obrigadosápinto não está sozinho.

Já a televisão mata o futebol, e não é porque tire pessoas dos estádios. O jogo de Guimarães é disso um bom exemplo, com 25 000 nas bancadas e uma atmosfera à futebol inglês da década de 1980, pancada entre os adeptos incluída, como um bónus sangrento. Nem sempre se jogou bem em Guimarães, mas a dedicação e a intensão das equipas foram de tal modo britânicas que, se se jogasse futebol sempre assim em Portugal, mais gente iria vê-lo ao vivo. Menos em Leiria, claro, onde nem uma sessão de bondage da Soraia Chaves ao intervalo com ingressos gratuitos e oferta de um vale de compras do Lidl no valor de 25 euros seria capaz de fazer com que o União de Leiria-Estrela da Amadora tivesse mais de 887 espectadores (dos quais apenas 512 pagantes).

Por falar em bondage, vários estádios do Euro’2004 deviam ser implodidos com os políticos que trouxeram a organização do Euro para Portugal lá dentro algemados às vedações e vestidos como o Gimp… mas o Obrigadosápinto devaneia, e não se quer poluir falando de política. Nem desviar-se do tema.

Já a televisão mata o futebol, então, porque lhe acaba com o folclore, não deixa espaço para a lenda. Só a terrível tendência actual para o voyeurismo explica que, qual S. Tomé, seja preciso que as coisas apareçam num ecrã para terem realidade (o que é tão verdade para o One Night in Paris como para o tsunami no Índico), mas o facto é que, se calhar, o golo do Eusébio não foi a 40 metros da baliza, se calhar foi só a 32, ou a 28, se calhar o guarda-redes da Juventus deu um frango vítima de hormonoterapia, se calhar a barreira estava mal feita, se calhar ninguém se estava a rir. Qualquer uma destas coisas, se não mesmo uma combinação delas, é muito provável; nenhuma delas, porém, interessa. O importante é que o livre do Eusébio sobrepujou a sua mera concretização física numa tarde em Turim, e, porventura à custa do passa-palavra, à custa da lenda, da tradição oral, a distância para a baliza foi aumentando um nanómetro de cada vez que alguém dela falava.

O golo do Cardozo em Guimarães foi um ganda golo, magnificado pelo facto de o Obrigadosápinto sinceramente não acreditar que o SLB pós-Simão conseguisse marcar golos de livre. Tal como Deus, essa hipótese não era até ontem verificável. Em directo, pareceu, ao Obrigadosápinto, um pontapé ao ângulo que quase furava a rede, o maior livre marcado por um jogador do SLB desde aquela tarde em Turim, do qual, se não houvesse repetição, os benfiquistas ainda falariam como um momento mágico daqui por 50 anos. A repetição mostra, contudo, que a bola entrou a meia altura, a cerca de meio metro do poste, que o guarda-redes do Guimarães não teve asinhas para chegar perto dela e que tentou ir lá com as duas mãos.


Atenção, defender aquele remate era quase impossível (talvez só o Preud’homme… sim, sem dúvida o Preud’homme), e foi de facto um ganda golo. Não foi foi tão bom como pareceu em tempo real, em velocidade real. Se a única repetição mostrada fosse aquele aparente frame a frame da década de 1970/80, com um “R” a piscar e a aumentar e a diminuir no canto superior direito da televisão, este golo seria objecto de estudo por parte da demologia; assim, foi só um ganda golo, a ser consumido – e sublimado – em velocidade real.

(Guimarães, 1 - SLB, 3)

26.1.08

Para quando?

O Cosme gosta do Cajuda.

Um dos desejos mais húmidos e perversos do Cosme é ter o Cajuda como treinador do Benfica.

O Cosme gosta de treinadores que gostam de treinar.

O Cosme gosta de treinadores que realmente fazem o que podem para ganhar.

O Cosme gosta de treinadores que sabem mais de táctica do que um miúdo de dez anos.

A quente

Na primeira parte do Guimarães-SLB, para além dos dois petardos que furaram a rede – o de Cardozo e o da claque do Benfica –, o mais impressionante foi o novo penteado de Nélson.

Garantiria entrada imediata nos Boney M.


25.1.08

Me engana que eu gosto

Há uns anos, um documentário sobre os jovens jogadores de um clube qualquer mostrava o treinador a explicar vigorosamente a putos de 14 anos a importância de cair na área. “Sentem um toque”, dizia ele, “e caiem para ganhar o penalty”.
Atentado pedagógico ou atestado de pragmatismo?

No Obrigadosápinto, encaramos o futebol como o resto da vida. Encontramos na ética simultaneamente missão e sustento, um dar e receber que implica esforço, devoção e ausência de glória. Perante aquele ultrajante vociferador vestido de fato de treino Marsil, as nossas mãos ardiam de vontade de lhe acertar nas partes contíguas ao farfalhudo bigode. Pelo vazio dramático de ética e pelo pseudopragmatismo saloio.


O futebol padece de insuficiência estatística. Assumimos, arrogantemente, que o futebol é um jogo diferente. A explicação de um resultado passa, invariavelmente, pelo “futebol é isto”. Mas fosse o jogo mais dissecado e conclusões apareceriam. Uma delas, de certeza certa, é que os mergulhos na área impedem mais golos do que os que provocam. A cena do avançado isolado que ao invés de continuar a corrida e estremecer as redes, encena receber um balázio de uma caçadeira, mais do que estafada é estafante.
E sim, o mergulho de Eusébio arrumou com o Real Madrid e sim, o alongamento de Chalana deu a Portugal o seu primeiro Europeu. Mas por cada dois mergulhos em cheio, 20 golos ficam no chão. E a tristeza não provém apenas da ineficácia mas também da beleza que um golo corrido tem e que um penalty, Panenka à parte, nunca terá.

Calhou na roleta do zapping o visionamento de uns minutos do Sporting-Paços de Ferreira. O inegavelmente miúdo Pereirinha entrou na área e foi vitima de um empurrão que não envergonharia nenhuma vedeta de wrestling. O miúdo, provavelmente pelos muitos jogos passados em pelados, esforçou-se por se aguentar nas pernas e conseguiu. O árbitro manteve-se quedo e mudos os jogadores lagartos. Marcar um penalty por uma falta que não provoca a queda de um jogador não faz, pelos vistos, parte da legislação futebolística.

O árbitro assumiu que gosta de ser enganado. O Pereirinha, depois de o Paulo Bento o esganar, vai passar a fazer-lhe a vontade.

23.1.08

Deve ser...

Ontem, num jogo do Arsenal Emmanuel Adebayor e Nicklas Bendtner andaram à batatada (discreta, mas até houve sangue).

Deve ser porque:
a) O ambiente no balneário é de cortar à faca (embora seja considerado o melhor da Premier).

b) Estão mal classificados (vão à frente, por isso deve ser de estarem em igualdade pontual).

c) O Wenger não tem director desportivo (HAHAHAHAHAHA).

21.1.08

The horror, the horror

O Benfica "diz que é uma espécie de equipa de futebol" continua a aterrorizar os seus seguidores. Confesso que se o Sertanense nos sai na rifa eu borro-me por aí abaixo...


É que parece que os tipos têm...uma equipa. O Benfica não sei, confesso que não sei. O grande Luís Miguel (faz lembrar o Campos...) diz que não é qualquer equipa que põe o Benfica a fazer anti-jogo na luz. O que só atesta uma de duas coisas (ou as duas): ou há muito tempo que não vê o slb a jogar ou então é mentiroso.
Sei que o que se pede ao Benfica é que jogue para ganhar, que seja uma fera, um predador (e, já agora, que faça três passes seguidos), coisa que há muito tempo não vejo por terras gloriosas. Em vez disso, vejo um animal fragilizado, que só mostra ganas para morder nos colegas de galinheiro, uma equipa mariquinhas e que joga como o Charlot andava. A diferença é que não lhe acho piadinha nenhuma.


(SLB, 1 - Feirense, 0)

16.1.08

Tesourinho não deprimente

O Obrigadosápinto não alinha, por enquanto, no Camacho-bashing que vai por essa blogosfera. Prefere esperar para ver se o Camacho consegue redescobrir o viço pastoril que marcou tanto a sua carreira de jogador, como a sua primeira encarnação no SLB. (O Obrigadosápinto atribui o hodierno maior recato camachiano, bem como as suas até agora desconhecidas afectação táctica e substituições pernósticas, às más influências e aos tiques metrossexuais do Pepe Carcelén. Patenteando a natural rejeição da idade de um homem já com 53 anos, o Camacho, de tanto querer mostrar que está in touch, acabou por ceder ao Pepe. Com que melancolia o Obrigadosápinto recorda, suspirante, a ocasião em que se publicaram, na imprensa desportiva, fotografias das férias em conjunto do Camacho e do Luís Filipe Vieira, ambos de calções, na praia, em masculina galhofa no Sul de Espanha. Pareciam tempos mais felizes, menos complicados, veranos azules.)

Quer as coisas acabem por correr mal ao Camacho, quer lhe corram bem, o Obrigadosápinto saudará sempre, porém, a memória que ele deixará em Portugal, sobretudo agora.

Como mudou o padrão: os Gato Fedorento fizeram, há bem pouco, uma canção para o Fim de Ano onde se repetia ad nauseam a palavra “merda”, por isso nada disto é sequer chocante. Por outro lado, tal como no Norte, dizer palavrões em Espanha é normal e considerado parte da identidade cultural do pueblo (sendo amiúde considerado um sinal de espontaneidade rousseauniana, amiúde por parte de alarves).

Não é isso, todavia, que torna este momento único, elevador. Há mais:

Camacho: “E los jugadores tienen que estar fodidos, porque empatámos em casa.”

Legenda: “E é natural que os jogadores estejam chateados, porque empatámos em casa.”

A semântica nunca foi o forte do Obrigadosápinto no que toca aos estudos linguísticos (sempre preferiu ler o alfabeto fonético em voz alta), e a má tradução e legendagem na televisão é um facto da vida portuguesa do princípio deste século e uma prova da falência das instituições de ensino do país, mas parece-lhe que “fodido” é algo mais do que “ficar aborrecido”. Usando a sinonímia para o auxiliar, não parece ao Obrigadosápinto que os jogadores tenham ficado “amolados”, “contrariados”, “enfadados”, “importunados”, “irritados” ou “maçados”; talvez “arrenegados”, “assanhados”, “coléricos”, “danados”, “enraivecidos”, “enxofrados”, “infensos, “puavas”, “rábidos”, “sanhudos” ou “torvos”. As possibilidades são muitas.

No mínimo, teria de se dizer que ficaram “muito, mas mesmo muito, chateados”, até porque o Obrigadosápinto compreende que o espectador médio, mesmo da SIC Notícias, poderia encalhar em “estejam puavas”.

Que a tradução seja eufemística, o Obrigadosápinto consegue entender, mas, se não queriam escrever “fodidos”, porque é que permitiram que a palavra fosse ouvida? Porque não editar a conferência de imprensa pondo o Camacho a falar sobre o Katsouranis? Ele também o fez. Uma análise desconstrucionista apontaria para isto como sendo mais um sinal da prevalência do fonocentrismo na análise textual-filosófica moderna, no que terá sido a assunção pública do legendador de que finalmente compreende as leituras de Derrida feitas na sua esfera pessoal.

O editor dos noticiários da SIC, esse, comportou-se de forma magana, e o Obrigadosápinto está certo de que o fez propositada e conscientemente. A deliberação na escolha desta resposta específica do Camacho ofereceu-lhe um prazer proibido magnificado por acontecer ao ouvido, que não à vista, de toda a gente; um momento de escape numa vida controlada pela obrigação de conseguir audiências e pela necessidade de ser politicamente correcto (menos se tiver sido o Mário Crespo, que esse faz o que quer, até enobrecer o 60 Minutes passando-o na SIC Notícias); um estremecimento gelado na espinha de qualidade quase erótica. O Obrigadosápinto até aposta que, nessa noite, ele foi para casa, sentou-se no sofá e, de cuecas, passou a noite na companhia da sua colecção de Playboys antigas e com uma caixa de Tulicreme ao alcance da mão.