28.2.08

Questões laterais de identidade

Antes de escrever sobre um jogo do SLB, a estratégia do OSP passa normalmente por ver os 90 minutos com concentração máxima (uma tarefa que esta época tem um teor de S&M impossível de menosprezar), à espera de um pormenor, qualquer coisa à margem, que seja motivador e sobre o qual se possa arrazoar. Quando algo assim acontece, para o OSP é sempre mais interessante do que as grandes tendências da temporada ou do que aquilo de que todos os jornais falam. À laia de exemplo – perfeitamente aleatório, claro –, um passe mal feito pelo Luís Filipe ou uma perda de bola do Luís Filipe não seriam relevantes para o OSP, visto que não podem exactamente ser descritos como marginais, antes sendo mainstream na carreira deste jogador; já se ele, correndo da direita para o meio, fintasse o lateral-esquerdo adversário, os dois centrais e um dos trincos, que viriam todos à dobra, simulasse que ia chutar para sentar o guarda-redes (o que faria por duas vezes) e depois marcasse, tal mereceria um ensaio de pelo menos 6000 palavras, cerca de 38 000 caracteres, no OSP.

Em relação ao jogo com o Braga, contudo, o OSP há muito que sabia qual o tema que iria abordar, se bem que na semana passada, como fosse um sonho, lhe tenha assomado à ideia a possibilidade de abordar o potencial choque de titãs entre o Miguelito e o Luís Filipe que iria ocorrer nas faixas laterais do relvado da Luz. Contudo, se o Manuel Machado cumpriu, já o Camacho não fez a vontade ao OSP e não pôs o Luís Filipe a jogar. Porquê, não se sabe, mas não é de descartar a possibilidade de o Camacho ter acordado com uma cabeça de cavalo na cama. O OSP, aguerrido defensor dos direitos dos animais, não o recomendaria, mas também sabe que a paciência dos benfiquistas tem limites.

Em virtude desse episódio de razoabilidade camachiana, vingou a ideia original do OSP: fazer uma homenagem a um jogador de que aprendeu a gostar desde que ele começou a jogar no SLB – a correr ao abandono, como uma flecha loira (por fazer madeixas), a pressionar todos os jogadores adversários, incluindo o guarda-redes, quando eles tinham a bola, ou a dar tudo por tudo, tudo o que tinha, enquanto espumava baba e ranho, na defesa não só da sua grande área, mas também de uma mística que o SLB em tempos teve –, que com muita pena viu sair e cuja carreira, sobretudo este ano, tem seguido com atenção. Principalmente por causa do jogador actualmente no SLB para cujo lugar ele foi contratado este ano pelo Braga.

No jogo de domingo, o João Pereira demorou dez minutos até tocar na bola pela primeira vez (o OSP, mercê de uma adolescência com demasiado tempo livre e marcada pelo seu pouco talento para a sociabilidade, dedica de facto a sua atenção a este tipo de coisas), mas foram, até ao momento, e no contexto desta época do SLB, os minutos que o OSP viveu com maior expectativa e intensidade.* Ao primo toque, porém, deu logo para ver quais as virtudes do João Pereira: simplicidade e – o que tanta falta faz ao SLB actual – vontade.

Quando ele começou a jogar no SLB, como um extremo-direito improvisado lançado pelo próprio Camacho – que no Real Madrid era também, e sobretudo, um jogador de vontade inquebrantável –, o OSP nunca deixou de se entusiasmar com aquele miúdo que, sendo de recursos físicos e futebolísticos limitados, simplesmente se recusava a que alguém trabalhasse mais que ele, se esforçasse mais, quisesse mais a bola. Em tempos, quem assim jogava, compensando a falta de talento com querença, podia mesmo chegar a figura do SLB (a linhagem vai pelo menos do Ângelo ao Veloso); hoje, com o clube perdido entre as obscuras vontades de dirigentes não benfiquistas, empresários com vontade de fazer negócio e treinadores umbiguistas, o João Pereira foi visto primeiro como um tapa-buracos (pelo Camacho), depois como dispensável (Koeman) e por fim como trocável pelo Luís Filipe (Luís Filipe Vieira). Novamente, só a infinita sabedoria do Trapattoni o soube aproveitar, pondo-a a jogar na sua posição, lateral-direito, onde ele é agora o jogador mais regular do Braga e não deixa nenhum extremo ou lateral-esquerdo passar por ele, com falta ou sem falta, como o Léo e o Di María podem atestar.

Que contraste com o Luís Filipe, esse grande Midas de extremos-esquerdos, ou não transformasse ele todo e qualquer um deles que apanha pela frente automaticamente no melhor jogador da sua equipa. Uma simples coincidência, sem dúvida, mas oh se verificável. Não é nada de se deitar fora, pois, este talento do Luís Filipe, e ele tem outros, nomeadamente o de ser um talentoso provocador instantâneo de olhólhólhólhólhólhós e o de ter sido capaz de fazer com que o OSP sentisse compaixão pelo Fernando Santos, que dispensou o Luís Filipe no Sporting apenas para ver o Luís Filipe Vieira comprá-lo para o seu plantel três anos depois. Esta terá sido mesmo a maior proeza do Luís Filipe.

Sempre se falou, se bem que seja uma afirmação que vem perdendo actualidade nos últimos anos (foram demasiados anos de Kings, Paredões, Rojas, Uribes, etc.), que há jogadores que não são para o SLB. Em relação ao Luís Filipe, o OSP assume que para si é doloroso vê-lo a jogar com aquela camisola, e já o era antes daquela falha de jogador do Inatel no segundo golo do Nuremberga. Aliás, para o OSP, o momento mais escandalosamente vulgar e vexaminosamente revelador do Luís Filipe este ano não foi este na Alemanha, foi antes aos 22 minutos do jogo em Setúbal para o campeonato (o OSP também os contou então), quando o Luís Filipe, com um adversário à frente, tentou driblá-lo para o lado direito com plena convicção, sem se aperceber de que estava somente a um metro da linha lateral. O OSP não brinca com coisas desta seriedade: na cara do Luís Filipe, na sua comprometida linguagem corporal, quando ouviu os apupos dos vitorianos, viu-se nitidamente que ele não sabia que a linha estava ali tão perto, e foi isso que o levou a fazer algo que não se costuma ver senão em jogos de escolas (até aos 10 anos de idade, portanto). Depois desta demonstração de sentido de orientação absolutamente chocante num tipo que não faz senão jogar futebol há pelo menos duas décadas, o facto de o Luís Filipe não ter feito puto de ideia de que o Saenko ia a correr atrás dele só pode pasmar os mais desatentos.

Perante tudo isto, o OSP ficou a saber que só a amizade entre o presidente do Benfica e o do Braga, um qualquer favor antigo por pagar ou a mistura empresários+comissões podiam ter permitido que o Luís Filipe não só viesse para o SLB, mas também que custasse 750 mil euros. E mais: que um jogador que faz tudo o que ele faz, mas bem, e que ainda por cima é benfiquista, não esteja hoje no SLB. Se dessem, ao OSP, o poder de decidir, aliás, ele trocava um pelo outro e deixava, grato, o Braga ficar com os 750 mil euros como gorjeta.

Como se sabe, o pouco apreço e a pouca atenção dados a quem é formado no SLB não são de agora, mas encontram expressão completa na dicotomia João Pereira-Luís Filipe: podendo ter um lateral-direito feito em casa, que sentia – e como sentia a camisola, que jogava com a raça do Domingos Sávio, que nunca se preocuparia se jogava ou se era suplente, estando apenas interessado em contribuir para a causa encarnada, o SLB preferiu emprestá-lo e mais tarde vendê-lo, e trazer para o seu lugar um jogador que não oferece, à equipa, metade do que ele oferecia, um jogador com mais talento, talvez, mas com muito menos nervo e coração. E, se derem ao OSP a escolha entre talento e coração num defesa, ele escolherá sempre o segundo. Sobretudo se for num jogador que gostava do SLB como o João Pereira, alguém que, até pelas suas limitações, é a verdadeira representação dos benfiquistas em campo, a materialização da vontade de jogar pelo SLB, alguém com quem todos aqueles que queriam jogar no clube, mas não tinham o engenho, se podiam identificar. Além do mais, depois daquilo com o Hugo Viana, os sportinguistas passaram a odiar de morte o João Pereira, e isso, para o OSP, é quanto baste.

A dicotomia supramencionada revela ainda, e de forma pornográfica, duas coisas: a péssima política do futebol do SLB e a diluição da identidade e da mística do clube – em relação a esta última premissa, aliás, há homens bem melhores que o OSP a dizerem isso mesmo. Para o João Pereira, para quem o SLB significava alguma coisa – porque ele cresceu lá, apanhava o autocarro em Campo de Ourique para ir treinar a Benfica, jogou derbys com o Sporting desde os 12 anos –, o amargor de ter sido tratado como foi é bem visível, mas acreditem que ele não jogou com a garra com que jogou no domingo por causa dessa sensação – não, ele joga sempre assim.

O Porto tem uma identidade, sobretudo baseada em jogadores com coração (os feios, porcos e maus identificados pelo Padinha) rodeados por três ou quatro craques, e como que roubou a mística ao SLB; o Sporting também tem identidade, só que neste caso assente em jogadores jovens formados no clube (o problema aqui é que os dirigentes do SCP têm sido tão inacreditavelmente maus ao longo dos anos que não sabem o que hão-de fazer com os áureos produtos de um sistema sobretudo criado pelos treinadores da formação e pela rede de olheiros do clube). O SLB, hoje em dia, o que tem? À primeira vista, além do exemplo vivo do que resta da mística que é o Rui Costa (que perdeu a época passada quase toda para ajudar a equipa a ganhar um jogo em casa com o Aves, no qual jogou lesionado), tem um capitão e um treinador que não se coíbem de elogiar o Porto e uma série de jogadores tantas vezes comprados em série que pouco sabem da história do clube. Sim, é mais ou menos isto. Só que aquilo de que o Nuno Gomes e o Camacho se esquecem é de que não têm de olhar para norte para verem como se faz: falem com o Humberto, com o Veloso, com o Álvaro. Melhor ainda: vejam-nos.

À luz do fastidioso facto de o Luís Filipe se estar ultimamente a transformar num dos seus objectos predilectos, o OSP promete que tudo fará para ignorar o jogador em questão daqui em diante, até porque já está enjoado dele… mas às vezes, claro, vai ser difícil, muito difícil… ignorar esse cepo, alguém que de forma tão óbvia mete o “anal” em “banal”.

* Na verdade, o OSP só se conseguiu interessar pelo jogo a partir dos 11 minutos porque passou os primeiros dez em choque, limitando-se a repetir, balbuciante de incredulidade e a balançar o corpo para trás e para diante: “O Camacho deixou o Maxi Pereira no banco, o Camacho deixou o Maxi Pereira no banco…” Escapou à maioria das pessoas que se tratou, em 2008, da possível abertura de um dos selos do Apocalipse.

(SLB, 1 - Braga, 1)

3 comentários:

rui guerra disse...

com o baixo rendimento da maioria dos jogadores, qualquer dia o OSP passa o jogo todo a balançar-se dizendo não o nome de um mas, de 8 jogadores que estão no banco, ou não foram convocados.
uma tristeza este SLB. não esquecer que o João Pereira foi dispensado, devido à forte entrada de Nélson.

Cosme disse...

Ainda assim parece-me elementar que dois jogadores por posição é o mínimo que se espera de um "grande"...

rui guerra disse...

isso é sempre conseguido, com jogadores polivalentes como Maxi Pereira, Nuno Assis e até o Nélson.