16.1.08

Tesourinho não deprimente

O Obrigadosápinto não alinha, por enquanto, no Camacho-bashing que vai por essa blogosfera. Prefere esperar para ver se o Camacho consegue redescobrir o viço pastoril que marcou tanto a sua carreira de jogador, como a sua primeira encarnação no SLB. (O Obrigadosápinto atribui o hodierno maior recato camachiano, bem como as suas até agora desconhecidas afectação táctica e substituições pernósticas, às más influências e aos tiques metrossexuais do Pepe Carcelén. Patenteando a natural rejeição da idade de um homem já com 53 anos, o Camacho, de tanto querer mostrar que está in touch, acabou por ceder ao Pepe. Com que melancolia o Obrigadosápinto recorda, suspirante, a ocasião em que se publicaram, na imprensa desportiva, fotografias das férias em conjunto do Camacho e do Luís Filipe Vieira, ambos de calções, na praia, em masculina galhofa no Sul de Espanha. Pareciam tempos mais felizes, menos complicados, veranos azules.)

Quer as coisas acabem por correr mal ao Camacho, quer lhe corram bem, o Obrigadosápinto saudará sempre, porém, a memória que ele deixará em Portugal, sobretudo agora.

Como mudou o padrão: os Gato Fedorento fizeram, há bem pouco, uma canção para o Fim de Ano onde se repetia ad nauseam a palavra “merda”, por isso nada disto é sequer chocante. Por outro lado, tal como no Norte, dizer palavrões em Espanha é normal e considerado parte da identidade cultural do pueblo (sendo amiúde considerado um sinal de espontaneidade rousseauniana, amiúde por parte de alarves).

Não é isso, todavia, que torna este momento único, elevador. Há mais:

Camacho: “E los jugadores tienen que estar fodidos, porque empatámos em casa.”

Legenda: “E é natural que os jogadores estejam chateados, porque empatámos em casa.”

A semântica nunca foi o forte do Obrigadosápinto no que toca aos estudos linguísticos (sempre preferiu ler o alfabeto fonético em voz alta), e a má tradução e legendagem na televisão é um facto da vida portuguesa do princípio deste século e uma prova da falência das instituições de ensino do país, mas parece-lhe que “fodido” é algo mais do que “ficar aborrecido”. Usando a sinonímia para o auxiliar, não parece ao Obrigadosápinto que os jogadores tenham ficado “amolados”, “contrariados”, “enfadados”, “importunados”, “irritados” ou “maçados”; talvez “arrenegados”, “assanhados”, “coléricos”, “danados”, “enraivecidos”, “enxofrados”, “infensos, “puavas”, “rábidos”, “sanhudos” ou “torvos”. As possibilidades são muitas.

No mínimo, teria de se dizer que ficaram “muito, mas mesmo muito, chateados”, até porque o Obrigadosápinto compreende que o espectador médio, mesmo da SIC Notícias, poderia encalhar em “estejam puavas”.

Que a tradução seja eufemística, o Obrigadosápinto consegue entender, mas, se não queriam escrever “fodidos”, porque é que permitiram que a palavra fosse ouvida? Porque não editar a conferência de imprensa pondo o Camacho a falar sobre o Katsouranis? Ele também o fez. Uma análise desconstrucionista apontaria para isto como sendo mais um sinal da prevalência do fonocentrismo na análise textual-filosófica moderna, no que terá sido a assunção pública do legendador de que finalmente compreende as leituras de Derrida feitas na sua esfera pessoal.

O editor dos noticiários da SIC, esse, comportou-se de forma magana, e o Obrigadosápinto está certo de que o fez propositada e conscientemente. A deliberação na escolha desta resposta específica do Camacho ofereceu-lhe um prazer proibido magnificado por acontecer ao ouvido, que não à vista, de toda a gente; um momento de escape numa vida controlada pela obrigação de conseguir audiências e pela necessidade de ser politicamente correcto (menos se tiver sido o Mário Crespo, que esse faz o que quer, até enobrecer o 60 Minutes passando-o na SIC Notícias); um estremecimento gelado na espinha de qualidade quase erótica. O Obrigadosápinto até aposta que, nessa noite, ele foi para casa, sentou-se no sofá e, de cuecas, passou a noite na companhia da sua colecção de Playboys antigas e com uma caixa de Tulicreme ao alcance da mão.

3 comentários:

rui guerra disse...

fodidos estamos todos nós, adeptos do SLB, por termos uma equipa tão desgraçadamente incompetente. nada se salva, nem a vontade posta em campo, nem os nomes das individualidades, nem o passado glorioso de alguns jogadores.
resta apenas o nome do clube, o seu historial e a esperança, que as palavras de José Veiga (esse homem horroso que circulou por vários corredores, incluindo os da Catedral) façam o presidente da instituição acordar para os problemas do clube e de uma vez por todas deixe de "brincar" à gestão do futebol...
(se não for competente que se retire e dê o lugar a outros.)

Cosme disse...

Isso implicava negar a portugalidade do Benfica, ou o benfiquismo de Portugal, que é a ordem natural das coisas. Estamos cá para sofrer, de tal modo que nem sei o que apareceu primeiro, se o fado, se o benfiquismo.

rui guerra disse...

sem querer entrar em dialogos, o sofrimento dos outros é ainda superior ao nosso. Primeiro pela opção, segundo pela sucessão de anos dos nossos sucessos. Isso não torna lagartos e tripeiros mais portugueses do que eu.