31.12.07

O Senhor Ferreira Queimado

Talvez já com os pés no novo século, preparava-se uma nova e aparentemente decisiva Assembleia Geral do Benfica. Nela, Vale e Azevedo iria propor a possibilidade de alienar a maioria do capital da SAD benfiquista.
Até lá, a ascensão dessa personagem tão terrífica, como burlesca, era encarada, por quem ainda mantinha uma réstia de bom senso, como um visitante indesejado para jantar, que, finda a refeição, sairia para sempre da nossa vista. Caso a sua proposta vingasse, ele, mais do que passar a viver na nossa casa, passaria a assumi-la como sua.

Nas vésperas desse acontecimento, chegavam-nos notícias de que rufias faziam fila no escritório de Vale e Azevedo, para serem contratados para um determinado papel na Assembleia.
“Vis atoardas de inimigos do Benfica” (como era comum da linguagem utilizada nesses tristes tempos) ou não, o que é certo é que no Pavilhão da Luz se assistiu às novas invasões bárbaras, com personagens com as mesmas barbas, mas com armaduras trocadas por fatos de treino da feira.

E urravam, e insultavam e ameaçavam quem simplesmente parecesse que não apoiava os ideais do seu Messias.
Um dos Vândalos dirigiu-se a um idoso, pequeno, atarracado, que tinha tentado, sem êxito, dirigir-se à enraivecida plateia. Entre a chuva de perdigotos, desfiou insultos e ameaças a um homem que teria pelo menos o triplo da sua idade.
O senhor, amparado num homem bastante mais novo que o tentava arrastar para fora daquele cenário dantesco, encheu o peito encolhido, cresceu 20 centímetros, acendeu os olhos e perguntou ao rufia: “Você é mais benfiquista que eu?” Perante o linguajar estéril, mas com convicção em perda, do outro, insistiu: “Você é mais benfiquista que eu?” O silêncio furioso deu-lhe espaço para o remate final: “Então cale-se!”
E o senhor saiu, agora parecendo que era ele que amparava o homem mais novo.

A sua atitude mostrou que o benfiquismo é bastante mais do que colocar cachecóis ao pescoço e entoar cânticos importados. Benfiquismo é um conjunto de valores centenários que passam pela honra, integridade e liberdade, e cuja defesa não dispensa coragem moral e, por vezes, física.

Aquele Senhor que relembrou (e a alguns ensinou) o que é o Benfiquismo era o Senhor Ferreira Queimado.
Que descanse em paz.

24.12.07

Golpes de pancrácio obrigadosápínticos (MCMIV)

"E sem Quaresma, o FCP é quase tão mau como o Benfica com o Nuno Assis."

FNV in Mar Salgado

22.12.07

Leonardo Lourenço Bastos

Qualquer adepto de um clube de futebol está sujeito a emoções extremas. Esperança, raiva, paixão, ódio, desilusão, saudade, euforia, são-nos injectadas à vez em curtas, mas intensas doses, durante aquela volta e meia de relógio que gastamos semanalmente a admirar milionários em calções.
Para os adeptos do Benfica, tempos houve em que a dose teve um único e contínuo fármaco: o desespero.

A Idade das Trevas benfiquista teve início em 1994 e durou 10 curtos anos de história, mas 10 intermináveis épocas futebolísticas. Primeiro, e de forma marcada, Artur Jorge, mas depois Wilson, Manuel José, Autuori, Heynckes, empurraram o fundo para profundezas inimagináveis até para fantasistas como Tolkien, de tal forma que o Benfica prosseguia em queda livre sem encontrar em que bater.
Os nossos olhos, toldados pela desgraça, até já conseguiam ver potencial em almas futebolisticamente perdidas como Paredão, King, Nelo, Tavares ou Marcelo.
E foi com este Marcelo que, para simplificação de linguagem, vamos classificar como “jogador”, que o Obrigadosápinto se apercebeu da situação desesperante da então moribunda águia.
Recordemos: em Abril de 96, o Benfica jogou em casa a meia-final da Taça de Portugal com um União de Leiria pré-Mourinho (ou seja, banal). O jogo estendeu-se para prolongamento e foi então que o tal “jogador” marcou dois golos. Um deles um hino ao ridículo, com um remate a um linear metro da baliza que ainda acertou na trave antes de se transformar em dado estatístico.
À saída, adeptos houve que foram apitando pela cidade. Já se comemorava uma presença numa final da Taça de Portugal, após bater uma equipa medíocre, devido aos esforços de um “jogador” que só por militante sadomasoquismo se deixava vestir de encarnado.
Mas a humilhação subsistia: no final da época, uns já doentes terminais de desespero abriram uma conta para recolher donativos para um movimento “Fica Marcelo”.

Dificilmente se encontraria personagem menos indicado que Marcelo para uma causa desse tipo. Mas fosse o Obrigadosápinto adepto de outras cadernetas que não de cromos da bola e até iria à Caixa Geral de Depósitos abrir uma poupança para investir na permanência daquele a quem apelidaram de Léo.

Há quem, erradamente, classifique Léo como um jogador “à Benfica”. Jogadores “à Benfica” são os Ângelos, Álvaros e Petits desta vida, que, à falta de um pingo de talento para tocar com os pés em objectos esféricos, se dedicam a produzir suor com intensidade fabril. E, no meio de toda a pele (deles e dos adversários) que deixam em campo, lá aprendem a fazer um ou outro passe em condições. Mas, não nos interpretem mal, são eles os baluartes da cultura benfiquista, os “self made men”, símbolos da superação humana, os Davids que uma vez por outra lá derrubam um Golias.
Léo não é, como dissemos, um jogador “à Benfica”. É também um jogador “à Benfica”. Porque além do suor que ele não regateia, exala aromas perfumados com as mais sublimes fragrâncias do saber jogar à bola. Léo sabe quando correr ou parar, passar curto, sempre rasteiro, ou longo, sempre certeiro, driblar, com qualquer pé, ou cruzar, para a área ou para trás.

Perante a certeza da imprensa da saída de Léo, confessamos que o Benfica-Amadora não nos mereceu grande atenção. 3-0 num jogo cuja importância, por uma vez, foi largamente ultrapassada pela flash-interview em que Léo nos disse que falou com o Presidente e que, afinal, há hipóteses de ficar.

No Obrigadosápinto esperamos que assim seja. Até porque, hoje em dia, abrir conta num banco é uma grande maçada.

(SLB, 3 - Estrela da Amadora, 0)

16.12.07

La mala educación

Os resultados de uma sondagem indicaram que os pais contemporâneos incluíram “jogador de futebol” entre as profissões que queriam que os seus filhos adoptassem. É fácil de compreender: os clássicos “médico” ou “advogado” implicam muito estudo, inteligência q.b. e, acima de tudo, demasiado tempo até se ver a cor do dinheiro. Com sorte, um futebolista tem o primeiro ordenado aos 16 anos e a independência financeira (dele e da restante família) aos 20.
Um filho no futebol e todos os sonhos familiares se cumprem: a carreira de empresário do pai, a casa à beira-mar da mãe e a loja de roupa (perdão, de moda) da irmã.
É, por isso, cada vez mais fácil aos clubes de futebol “raptarem” adolescentes habilidosos à sua família, integrando-os nas suas auto-denominadas escolas.
Os clubes passam a tratar da saúde, higiene, alimentação e educação dos petizes. Se pensarmos bem, trata-se de algo que as conservadoras famílias britânicas praticam há séculos: o envio dos seus filhos para colégios internos, só para rapazes, com disciplina rígida, campos de relva com fartura e visitas à família apenas nas épocas festivas. Troquemos Ascot por Alcochete ou Oxford pelo Seixal e ficamos com uma analogia completa.

Não havendo rankings publicados deste tipo de escolas, há, contudo, resultados que poderemos analisar, nomeadamente as carreiras dos antigos alunos.

O Sporting criou o segundo melhor jogador português de sempre (Futre), o mais regularmente competitivo da época de 90 e princípio deste século (Figo) e o segundo melhor jogador actual (Ronaldo). Mas todos eles saíram do seu clube de nascimento antes da consagração. Ou, numa versão mais cínica, todos eles tiveram que sair para alcançar a consagração. O que isto nos diz sobre o tipo de educação da Academia Sportinguista? Educação escandinava, claramente. Cedo são “atirados às feras”, para aprenderem a viver longe da asa materna. Futre, Figo e Ronaldo estrearam-se cedo, todos por volta dos 18 anos na equipa sénior. Depois, são motivados pelos pais a sair de casa e ir à vida deles. Ou ameaçando-os com castigos (empréstimo à Académica), cortando-lhes na mesada (baixo salário) ou por outro pretexto qualquer (primeira proposta de 7 dígitos).
Como qualquer descendente de uma família escandinava, os jogadores de matriz sportinguista guardam pouco afecto à sua casa, não se coibindo de comemorar os seus desaires, ou de se aliarem a famílias rivais.

No Porto a educação é diferente. É educação à “bairro da lata”, onde os miúdos não vão à escola porque têm que ajudar a sustentar a família. Aprendem a contar com o avô diabético, a escrever meia dúzia de palavras com o tio, quando este está em liberdade condicional, e aprendem, sobretudo, a sobreviver, durante o dia enquanto fogem dos putos mais velhos e à noite do pai alcoólico. Naturalmente, são personagens de Ettore Scola. Tipos raivosos que devolvem na idade adulta as agressões sofridas na infância, especialmente aos afortunados “betinhos” (Bruno Alves a agredir o Nuno Gomes o ano passado, ring a bell?).
João Pinto, Fernando Couto, Jorge Costa, Paulinho Santos, Ricardo Costa, Bruno Alves… um pelotão impressionante de Feios, Porcos e Maus. E Vítor Baia, poderão perguntar, onde é que encaixa nisto? Simples. É o puto esperto, o caso de sucesso do bairro da lata que todas as mães apontam aos filhos que acabam de se iniciar na droga, a excepção que confirma a regra.

Para tristeza do Obrigadosápinto, é no Benfica que se encontra a pior educação. É a do pai frustrado, que estoirou a fortuna dos avós em negócios inviáveis, que descarrega toda a sua fúria no seu filho primogénito. Quer que o seu filho seja tudo aquilo que ele não foi mas, para isso, coloca-lhe todos os obstáculos possíveis e tenta humilhá-lo sempre que pode, porque é assim que ele se fará homem. Quando lhe dá uma hipótese e o filho se safa, lá vai ele para o banco, para ganhar humildade (como o Moreira). E se ele, apesar disso, continua a querer jogar, vamos castigá-lo, enviando-o para a equipa B (como o Maniche). A maior parte dos filhos do Benfica tornam-se nuns indigentes futebolísticos, perdidos nas ruelas das divisões secundárias. Bizarro, Abel, Valido, Resende, Edgar, Bruno Caíres… nem esperanças os deixaram ser. Casos de sucesso, nos últimos 20 anos, apenas dois: o Rui e o fdp.
Mas apenas tiveram sucesso porque, quando meninos e moços, no Benfica estava Eriksson. Um escandinavo, lá está.

Promessa ou ameaça?

"Não vamos ficar por aqui"

Luis Filipe Vieira, in Mística

O cosme é dantas

Basta pum basta!!!

Baste de escrever quando o Glorioso perde, que é só o que o Cosme faz!

Um blogue que consente deixar-se representar por um Cosme não é benfiquista

Abaixo o Cosme!

Morra o Cosme, morra! Pim! (epá, morrer não, que se aleije, pronto)

Um blogue com um Cosme a cavalo é um burro impotente!

Um blogue com um Cosme ao leme é uma canoa em seco!

O Cosme é um cigano! (mas se fosse o Quaresma não havia problema, até para lhe partir aquele pézinho de merda, que marca golos ao Glorioso)

O Cosme saberá gramática, saberá sintaxe, saberá de futebol, saberá de hóquei em patins, saberá tudo menos escrever quando o Glorioso ganha que o único que ele faz!

O Cosme pesca tanto de vitórias que até faz posts quando o Glorioso não ganha, o que é contra-natura!

O Cosme é um habilidoso! (mais de 300 toques!)

O Cosme usa ceroulas de malha! (mas só quando faz frio)

O Cosme especula e inocula os concubinos! (concubinas, "nas"!)

O Cosme é Cosme!

O Cosme é Cosme!

Aleije-se o Cosme, aleije-se! Pim!



P.S. O Homem-Aranha agarrava aquela!

(Belenenses, 1 – SLB, 0)

10.12.07

Causas primeiras

O segundo golo do SLB contra a Académica agitou e emocionou o Obrigadosápinto, fazendo-o, inclusive, saltar do sofá de forma ligeira. (No que diz respeito à sua vida interior, porém, foi o tumulto.) Léo, Binya, Petit, Léo, Nuno Gomes, Léo, Cardozo – sete passes, tudo ao primeiro toque (aliás, quase; diabos te carreguem, Petit, por precisares quase sempre de ajeitar antes de passar), golo.

A jogada ao primeiro toque é quando é mais belo ver futebol: não há tempo para pensar no que pode acontecer a seguir, a informação visual, não filtrada, entra como uma bala no córtex de quem vê, a reflexão é coisa de milissegundos e não chega a tornar-se consciente, o desfrute do prazer é imediato. Na jogada ao primeiro toque, os jogadores envolvidos provam a viabilidade da telepatia, estão a ajudar a materializar um devir que os transcende, no seu harmonioso trabalho em conjunto realizam a utopia socialista, ultrapassam a dualidade corpo-alma, são todos eles instinto. (E como o Obrigadosápinto aprecia voltar à megahipérbole, como se sente confortável no seu regaço.)

Por muito que se queira negá-lo, as preocupações da humanidade relacionam-se sobretudo com as causas primeiras, com o ur, e daí o fascínio pela jogada ao primeiro toque.

Que é, também, como a resposta pronta que se dá a quem nos manda uma boca: nada nos faz sentir melhor connosco próprios, pouco nos faz sentir pior do que quando não nos lembramos do que dizer e somos forçados a retirar-nos, com o orgulho ferido, sentindo os olhares de todos sobre nós e levando o desaforo para casa. O Obrigadosápinto, por exemplo, é um verdadeiro especialista em saber qual a resposta perfeita a dar em todas as situações possíveis; infelizmente, só a imagina seis horas depois de lhe mandarem a boca, e normalmente já aninhado nos lençóis, no conforto e segurança da sua própria casa.

A jogada ao primeiro toque, porém, é não só a reificação instantânea da possibilidade da espontaneidade, a boca mandada na altura certa, como também é tão criativa que quase não se acredita que não seja ensaiada. No fundo, aponta para uma realidade a priori fundamentalmente sadia, para a bondade instintiva que nos ficou do Pays de Cocagne. Contudo, é precisamente o seu desrespeito pela intermediação racional que faz o Obrigadosápinto preferir, quando joga à bola, dar dois ou três ou quatro toques na bola antes de a passar a um companheiro. A bola nem sempre lhe sai com boa conta.

O terno retorno

Durante muito anos, pelo menos parte do Obrigadosápinto perdia tempo, volta e meia, a defender o Nuno Gomes, um dos maiores jogadores amor-ódio que se lembra de ver passar pelo SLB. Maria Alice, Maria Amélia e muitos outros nomes reveladores da imaginação do homem português já foram chamados ao Nuno Gomes, mas há muito quem o considere um símbolo do SLB moderno. O que, de facto, terá o seu quê de responsabilidade no estado do SLB moderno.

Em 2005, parte do Obrigadosápinto viu a final da Taça na bancada central (consequência do conhecido sangue azul do Obrigadosápinto), tendo assistido, por isso, à subida de uma equipa para receber as medalhas (o SLB, que fez, nesse dia, uma exibição patética, igual a tantas outras desse ano em que ganhou o campeonato) e de outra para levantar a taça (o Setúbal de Rachão, camisa aberta a revelar o fio de ouro com crucifixo pendente que decerto lhe foi oferecido pelo padrinho, a pior equipa que o Obrigadosápinto já viu ganhar a Taça, que, inclusive, levaria cinco ou seis do Estrela de 1990).

Quando a equipa do SLB descia para o relvado, o Nuno Gomes envolveu-se numa discussão com um espectador, ficando furioso e tendo mesmo de ser levado para longe dali pelos companheiros de equipa. A parte do Obrigadosápinto que foi ao Jamor estava longe demais para perceber o que se passou, mas consegue especular, mesmo assim, sobre qual a bottom line que levou ao desaguisado: o espectador que (sem dúvida) ofendeu o Nuno Gomes fê-lo questionando a sua masculinidade (de certeza).

E é este, no fundo, o problema do Nuno Gomes: é demasiado bonito para alguma vez ser consensual ou sequer aceite pela maioria dos benfiquistas. A pele dele é demasiado esfoliada, e os traços do seu rosto, que até podem ser descritos como ligeiramente femininos, são tudo aquilo de que o benfiquista médio se lembra, quando chega a hora de atribuir culpas depois de uma derrota ou empate.

Este axioma está metaforicamente contido no facto de o Nuno Gomes ser, juntamente com a Sandra Cóias, “embaixador” do perfume Unum, a fragrância do SLB. Parte do Obrigadosápinto não usa perfume, mas consegue adivinhar que o Unum terá um odor moderno, leve, fresco – e é por coisas deste género que o Nuno Gomes também não se ajuda a si próprio: usasse ele Old Spice depois de fazer a barba ou espalhasse um Brut, talvez até um Jovan Musk Oil, no peito e nos punhos, os benfiquistas perdoar-lhe-iam tudo mais facilmente.

“O futebol não é para meninas”, gritavam, no báratro asfaltado do recreio ou no terrulento de um pelado, a parte do Obrigadosápinto (enquanto esta se contorcia com dores após sofrer uma entrada com o pé à altura do pente), e é precisamente a feminilidade aparente do Nuno Gomes que é o problema, não o facto de ele jogar melhor com outro ponta-de-lança, mais à frente ou mais atrás, com flanqueadores ou sem flanqueadores, de ter ou não saudades do Brian Deane. Que benfiquista – talvez sem o prazer com que o fazem sportinguistas e portistas – não fez já, afinal, uma imitação do Nuno Gomes a pôr o cabelo atrás das orelhas?

Um homem de 1,81 metros e 76 quilos que foge do contacto, um avançado que pensa como um médio de ataque, que tabela melhor do que chuta, que usa a cabeça sobretudo para pensar futebol e não para cabecear – como é que o benfiquista médio o poderia aceitar como um dos seus avançados míticos? Ao Obrigadosápinto, apetece-lhe invocar, por momentos, o espírito futebolístico do Nené, que sofria da mesma falta de agressão masculina e, sendo muito melhor do que o Nuno Gomes, o mesmo abuso por parte dos adeptos.

O futebol não é para meninas, relembra parte do Obrigadosápinto com alguma tristeza, não só esperando que o SLB um dia abrace o futebol feminino, mas também que os benfiquistas evoluam o suficiente para perceberem que a ulterioridade dos motivos que os levam a falar mal do Nuno Gomes diz mais sobre eles do que sobre o Nuno Gomes. A afirmação da masculinidade é, bem vistas as coisas, tão importante para o adepto médio do futebol como o não-tão-ocasional comentário racista, e a maledicência e o boato em Portugal, vejam-se os casos do Mourinho, do Calado ou do Sócrates, são sempre feitos pondo em causa a assumida orientação sexual do visado.

No SLB, a competência ou o mérito acabam por ser relativos, com algumas excepções, se o jogador não é um exemplo de virilidade a jogar, não faz carrinhos capazes de fracturarem os ossos de vários jogadores da equipa contrária em simultâneo e não corre atrás de bolas que, 20 metros à sua frente, estão a um metro de saírem de campo pela linha lateral. (Isto não é de somenos: o Petit, por exemplo, tem crédito ilimitado à conta disto, mesmo se, quando chegou ao SLB, desequilibrava constantemente a equipa com correrias sem sentido.) Se, além de não fazer isto, tiver uma carinha laroca, soam as trombetas.

Na Luz, então, é como uma doença – o que mais uma vez se provou esta época: o Cardozo, apesar de alto, é macio como algodão doce, e não o avançado grande, bruto e desdentado por que sempre anseiam os adeptos do SLB, esperançados em verem no relvado o tal avançado que ganha todas as bolas de cabeça, que obriga todas as equipas a terem de jogar com três centrais só para o pararem (o que nunca acontece), que se limita a sacudir o pó dos ombros após cada entrada assassina, que, se encontra o Pedro Emanuel perto de si na marcação de um canto, o faz desandar com a mera frieza metálica do seu olhar.

Que me lembre, aliás, ele nunca existiu no SLB ou em qualquer sítio que não nas divisões inferiores do País de Gales.

Já o adepto que quer um homem-homem para o ataque do SLB povoa Portugal: pode ser visto a cuspir para o chão nas ruas de Gondomar; a chamar nomes no trânsito na rotunda de Algés; a fumar com um bebé ao colo em Santarém; a comover-se, no recato da sua casa em Peso da Régua, com um filme em que o Chuck Norris salva uma criança que perdeu os pais; a voltar bêbado para casa em Valongo; ou a dizer “um homem é um homem, um bicho é um bicho”, em Canas de Senhorim, enquanto vê o José Castelo Branco na televisão de canto no café. Na verdade, o Obrigadosápinto crê que, para muitos homens assim, o Nuno Gomes inspira medo por ser uma sublimação de desejos profundos, uma ameaça de que algo latente saia do armário.

No jogo com a Académica, o Nuno Gomes esteve nos três golos: obstruiu o guarda-redes no primeiro, criou o espaço para a jogada do Léo no segundo (mercê de uma tabela, arte na qual é o melhor avançado português dos últimos 25 anos) e fez um cruzamento para o terceiro que o Luís Filipe apenas consegue ver em fantasias que terminam com a correcção do seu estrabismo por um oftalmologista renomado.

Como tantas vezes, claro, o Nuno Gomes não marcou, demonstrando sempre mais vontade de passar a bola do que de falhar mais um golo (como, de forma indigna, fez logo no primeiro minuto do jogo com o Porto). E é por isso que ele nunca chegará lá, é por isso que tudo o que ele faça nunca será o suficiente, é por isso que nunca será o tal. Será como sempre foi: médio, às vezes médio-alto, não o símbolo que dele os dirigentes querem fazer, mas longe de ser a razão de todos os males do SLB.

Apesar de apreciar as suas qualidades de futebolista – e menos as suas de avançado –, esta parte do Obrigadosápinto tem de admitir que já não defende o Nuno Gomes como dantes. O facto indesmentível, afinal, é que ele joga futebol de forma cada vez mais amaricada e cada época foge mais da mera possibilidade de encontro físico com um qualquer rude central adversário. Esta parte do Obrigadosápinto atribui a culpa ao seu segundo casamento: agora matrimoniado com uma advogada de boas famílias que decerto lhe contra-indica que meta o pé, o Nuno Gomes terá decerto perdido a bravura que nascia do temor do que lhe aconteceria se não marcasse um golo para dedicar, beijando a aliança, à Isméria. Esta parte do Obrigadosápinto compreende esse temor.

(SLB, 3 – Académica, 1)

9.12.07

"Luís Filipe foi noticiado como estando referenciado no Vélodrome"

Na Luz, Luís Filipe já está completamente "referenciado".


6.12.07

É preciso ter laca

Octávio Machado inundou os nossos indefesos ouvidos com denúncias de um sistema Matrixiano que dominava o futebol. E nós, insistia ele, sabíamos do que ele estava a falar.

Na verdade não sabíamos, não sabemos e, no Obrigadosápinto, não queremos saber.

Para nós o futebol é a actividade que consiste em alinhar 11 jogadores em cada metade de um grande rectângulo relvado, tentando-se acertar com uma bola numa rede segura por uns paus.

Tudo o que se passe em balneários vaporosos, escritórios escuros, hotéis movimentados e restaurantes à beira-mar é tema para quem não utiliza o tempo para desfrutar do futebol.
Não nos interessa, por isso, o grau de veracidade do que José Veiga veio agora afirmar. O que poderemos adiantar é que José Veiga continua a ter falta de lata e excesso de laca.

Vocês sabem do que estamos a falar.

4.12.07

Uma vitória infantil

O lado infantil dos adultos merece aclamações, sonetos, refrões, prosas, pinturas quando não hossanas. Desde a rebeldia infantil de James Dean até à visão de criança de Spielberg, passando pelo erotismo lactente de Dali, ser miúdo é uma bênção em qualquer actividade que possa merecer o epíteto de arte.
Mas não no futebol. No futebol ser criança é pecado. "Infantil" é insulto e precede sempre o "erro". A intensidade desta forma socialmente aceite de pedofobia é de tal ordem, que os jogadores mais jovens são apenas dignos de elogios quando lhes são reconhecidos sinais de maturidade.
O que é considerado como uma bênção para qualquer arte, não pode encontrar excepção no futebol. E, obviamente, não encontra.
O abençoado Benfica 2007 é um conjunto de crianças que poderiam trocar um campo de futebol por um parque infantil sem qualquer esforço de adaptação. As correrias frenéticas de Nélson, os dribles excessivos de Di María, a desfaçatez das finalizações de Cardozo ou o egoísmo de Rui Costa, podem ver-se em qualquer brincadeira de qualquer pátio de qualquer escola primária.

E foi com correrias frenéticas, dribles excessivos e finalizações com desfaçatez que o Benfica ganhou em Donetsk (ou "Dounéte", na versão Pedro Gomes da TSF).

Ao ver os jogos deste Benfica, o Obrigadosápinto sente-se como um pai da Opus Dei, vendo os seus 11 filhos a brincar num qualquer jardim. "Não corras para longe, Nelson!"; "Empresta a bola aos outros meninos, Rui"; "Não empurres a menina, David."
E, apesar do cansaço provocado pelos constantes alertas, aflora um sorriso paternal na nossa face. Porque ser pai, mesmo de miúdos tão mal comportados, acaba sempre por ser recompensador.

(Shakhtar Donetsk, 1 – SLB, 2)

3.12.07

O Homem-Aranha para guarda-redes do Benfica

Não se passou nada.

Sábado foi um não dia marcado por um não jogo, que não foi jogado por ninguém de encarnado. Triste sina do Cosme de começar em tão nefasta não data.

Sábado, o Cosme andou a ver elefantes cor-de-rosa a voar e uma equipa à nandinho no relvado.

Se realmente tivesse existido um jogo, teria sido palco da habitual segurança do Joaquim Silva que defende o alvo dos adversários do glorioso. Tem aquele costume irritante de estar sempre no caminho da bola, sinal de que sabe do seu mester. Outros dizem que se limitou a ter sorte nos últimos 20 anos, mas que qualquer dia isso desaparece. Os mesmos que dizem: “Epá, outro guarda-redes qualquer tem uma impulsão de 3,5m. E em repouso!”

Deve ser o único gajo que é criticado por não ter poderes sobrenaturais.

O Cosme vai iniciar uma petição:
O Homem-Aranha para guarda-redes do Benfica!


(SLB, 0 – Porto, 1)

2.12.07

A necessidade de o Camacho ser 99% perspiração

O Obrigadosápinto pôde confirmar duas coisas durante o jogo de ontem: a) o facto de o Porto ser a única equipa no universo capaz de o fazer ficar indisposto; b) o seu desejo ardente de que o treinador do SLB deixe de-uma-vez-por-todas-por-amor-de-Deus-coño de se armar em Almodóvar e volte a ser Manolo.

O Obrigadosápinto está bem ciente de que elaborar esta visão redutora, tipo yin-yang, de todo um país apenas para fazer uma graçola é algo de fundamentalmente errado e pode até ser visto como ligeiramente xenófobo, mas quer afirmar, em sua defesa, que o Camacho podia perfeitamente ser um taberneiro beirão. Ou transmontano. Ou ribatejano.

Porque é que não ponho o Jesus a jogar? Para ponta-de-lança, acho-o muito defensivo.

O Obrigadosápinto admira os jogadores que são diferentes dos outros (mesmo quando não são melhores do que os outros) e é tão apreciador dos grandes craques como qualquer pessoa. Porém, nos tempos em que seguia o Milan, já depois de ter seguido a Fiorentina, sempre nutriu um ódio secreto pelo Kaká por ele ter tirado a indiscutibilidade ao Rui Costa (e por ser um fundamentalista religioso, também). Depois do jogo de quarta-feira, porém, o Obrigadosápinto confessa que ficou chocado com a capacidade de acelerar com a bola no pé do Kaká (já conhecia a sua inteligência a passar e a mover-se em campo e a sua capacidade de remate) e percebe que foi essa a razão por que ele passou a ser titular em vez do Rui Costa. Por enquanto, o Obrigadosápinto consola-se em imaginar como será o Kaká quando tiver 35 anos, e a sua velocidade o abandonar. Aí, o Obrigadosápinto verá se Jesus o salva.


Psicologia metaforense (questões de sexo e não de sexismo fazem com que este ensaio aborde a relação pai-filho e não pai-filha)

Carregando o lastro de ser agora, ao mesmo tempo, uno e trino, o Obrigadosápinto, também por causa deste peso extra, só hoje conseguiu escrever sobre o jogo com o Milan. Sendo três pessoas distintas que, afinal, são uma só e uma pessoa que se divide em três, a confusão ontológica que lhe foi criada por esse facto ajudou, também, à morosidade do Obrigadosápinto.

Pegando neste seu novo estatuto, o Obrigadosápinto poderia, inclusive, fundar uma seita, mas o jogo com o Milan fez antes os seus pensamentos encalharem por completo noutro tipo de sacerdócio. Não sendo, naturalmente, um freudiano (até porque aceita o Rui Costa como fazendo parte de estruturas da psique que são partilhadas por toda a humanidade e encontra a figura dele, por exemplo, em diversos mitos e lendas, formadores ou não), o Obrigadosápinto não deixou de ver o jogo do SLB com o Milan pensando na interpretação psicanalítica do Oδίπoυς τύραννoς.

O Obrigadosápinto, a quem incomodam as manifestações forçadas de fair play, confessa que não gosta de ver as equipas entrarem juntas em campo. Sendo uma pessoa pacífica, embora com garra, de alguma forma sente falta do elemento tribal do futebol do passado, quando as equipas entravam em campo sozinhas e se ouvia o tipo de assobiadela que hoje desapareceu dos estádios. É compreensível, uma vez que, naquele momento em que se subiam as escadas ou se saía do túnel, as atenções de toda a gente estavam viradas para um único objecto, ou a equipa da casa ou a equipa de fora, e não havia cá ambiguidades. (Os árbitros, esses, esses sempre sofreram.)

Com o Milan, não foi tanto que o SLB tivesse entrado em campo lado a lado com o adversário – foi mais tê-lo feito de mão dada, como um filho que passeia com o pai. E é aqui que se vai basear o regresso do Obrigadosápinto a geniais, mas entediantes, metáforas.

Nos primeiros 15 minutos do jogo, aquilo a que se assistiu foi, na verdade, à completa infantilização do SLB, que, como um filho demasiado respeitoso, foi incapaz de dizer ao pai que quer viver a vida (jogar o jogo) nos seus próprios termos. Imagens de incontinência SLBiana causada por temor ao pai entravam e saíam da mente do Obrigadosápinto.

O desenrolar do jogo até ao golo do Pirlo foi espinhoso para o Obrigadosápinto, que via o SLB assumir-se de forma voluntária como uma equipa da II Divisão, talvez mesmo da II B, europeia, tal era a quantidade de éter que parecia separá-la da do Milan. Voltando ao mote, era como quando uma criança joga à bola com o pai e lhe tenta tirar a bola, e ele nunca deixa, fazendo a criança – que, por sê-lo, só tem olhos para a bola – correr atrás dela em círculos fracassados. (O que o pai não sabe, claro, é que a raiva e a frustração, que tantas vezes acabam em lágrimas e ranho, sentidas pelo filho se acumulam, se misturam com o medo e dão origem a uma vontade de poder, ao desejo de suplantar o pai – de lhe tirar aquela bola. O pai é, afinal, um obstáculo à concretização do desejo do filho.)

A naturalidade com que surgiu o 0-1 foi uma ofensa a tudo o que o Obrigadosápinto representa, já que o Milan estava a tratar o SLB como uma equipa de juvenis trata uma de infantis. Um momento, porém, serviu para mudar o jogo todo, o momento em que o SLB matou o pai. Metaforicamente, claro.

Claro que todos os jornais o identificaram como sendo o do golo do Maxi Pereira, mas faltou-lhes subtileza analítica; o momento em que o SLB ultrapassou o medo da castração pelo Milan foi um choque do Gattuso com o Petit em que quem ficou no chão foi o Gattuso. Na colisão, tão arrepiante como o nanosegundo de silêncio que se segue a uma travagem brusca de um carro, mesmo antes do impacto, quem teve de cerrar os dentes para se pôr de pé não foi o filho, mas sim o pai.

O Petit e o Gattuso são, claro, dois duros do futebol moderno (a ênfase, aqui, deve ser colocada em “moderno”, pois aqueles que acusam o Petit de ser açougueiro não se lembram do André, do Rui Filipe, do Paulinho Santos ou, no SLB, do Nunes), mas o facto de o primeiro ter sido mais duro que o segundo empolgou toda a equipa do SLB, fê-la concretizar a aspiração de infância de mandar o pai ao tapete e ver que este não era mais do que um velho (no caso do Milan, então, não há aqui qualquer metáfora).

Em termos simbólicos, pois, o pai estava morto, e o SLB libertou-se e fez uma exibição que não chegou para ganhar, é verdade, mas que foi empolgante. O Obrigadosápinto só pede, agora, que o SLB não se assuste com a enormidade do acto por si cometido e não reprima o que levou à sua geração, passando, como tantas vezes acontece, a identificar-se com a figura do pai. A emancipação conseguida frente a uma equipa como o Milan pode dar frutos muito doces para quem, como o Obrigadosápinto, às vezes se cansa de jogar bem e não ganhar.

Voltando ao mote, o Obrigadosápinto espera ainda que o SLB consiga continuar na UEFA, pois teme que a equipa entre em prolongado estado de depressão se tiver de voltar a fazer torneios no Dubai e a passar solitárias noites de semana em casa, em frente à televisão. A actividade física liberta endorfinas, úteis no combate a depressão, o que talvez seja melhor que o divã.

(SLB, 1 – Milan, 1)

28.11.07

Orgulho homo

Num francamente já preocupante, de um certo ponto de vista, caso de amor másculo, o Obrigadosápinto volta a querer escrever sobre o Rui Costa. Desta vez, contudo, é para manifestar a sua perplexidade pelo facto de o Rui Costa ter marcado um golo de livre. Até na sua incapacidade de marcar livres de forma minimamente decente ele se distinguia da maior parte dos grandes números 10, pelo que o Obrigadosápinto espera que o Rui Costa não se esteja a tornar demasiado mainstream. Apreciador do desdém francês, afinal, o Obrigadosápinto equivale o que é de culto a arte.

27.11.07

Sending out an SMS

O Obrigadosápinto, a quilómetros de Coimbra, de uma televisão ou de um simples rádio, viu-se forçado a recorrer a um serviço de mensagens para poder acompanhar o Académica-Benfica.

90 minutos de jogo resumidos em 5-mensagens-5: uma do golo da Académica, três dos golos do Benfica e uma assinalando o resultado final. 5 mensagens frias e absolutamente factuais. Nem um único adjectivo, nem qualquer referência ao erro do Luís Filipe, ao pontapé de "seixo" de Rui Costa, ao calcanhar de Luisão, ao poste que Adu assistiu. Nada. Apenas "Golo do Benfica. 'Fulano' aos x minutos". Valeu apenas o facto anormal de as mensagens chegarem em português e não como usualmente, tipo "Gol Bfica Lsao lol".


Tratou-se de experiência que dificilmente o Obrigadosápinto irá repetir, a não ser que alguma operadora móvel reforce os seus serviços com mensagens que transmitam outros acontecimentos do jogo. Porque não "Saídas em falso de Quim", "Pés em riste de Binya" ou "Passes maravilhosos passe a redundância de Rui Costa"?
O Obrigadosápinto mostra-se disponível para subscrever todos os serviços que vão para além dos meros golos, com excepção do serviço "Passes falhados por Luís Filipe". É que o orçamento disponível que mal ultrapassa os 2500 euros/mês não o comportaria.

(Académica, 1 – SLB, 3)

12.11.07

Jorge Limão... Andy Garcia... Rui Águasss...

Não sem alguma tristeza e experimentando ele próprio a pungência da ingratidão, o Obrigadosápinto ouve alguns benfiquistas dizerem, volta e meia, que o Rui Costa “desaparece” dos jogos do SLB durante muito tempo. Felizmente, não são muitos, e o Obrigadosápinto, condescendente, reconhece ser assim mesmo a natureza e a memória do povo. Tal como o Salazar ganhou os Grandes Portugueses, ainda o Mourinho acabará por ganhar a eleição dos Grandes Modelos do Desportivismo Português em 2047, deixando o Sá Pinto e o Jorge Costa a alguma distância.

O interessante para o Obrigadosápinto, porém, é o que move as pessoas a fazerem essa crítica, que anda quase sempre à roda de dois pontos: por um lado, dizem que a acção em campo do Rui Costa é demasiado descontinuada, por outro que muitos dos seus passes se perdem nos pés dos adversários (ou para longe dos dos companheiros de equipa), o que emperra o jogo do SLB, já de si demasiado dependente dele.

Em relação ao primeiro, é muitas vezes atribuído à idade do Rui Costa, o que é uma completa sandice.* O Rui Costa é um corpo celeste muito brilhante, mas intermitente, desde que o Obrigadosápinto começou a vê-lo jogar nos seniores do SLB, vindo do Fafe. Desde o primeiro momento que o Obrigadosápinto percebeu que, ao vê-lo, estava perante uma experiência de intensidade, não de duração. E ainda bem, pensou na altura, como pensa agora, o Obrigadosápinto. Também devido ao seu posicionamento moral, aliás, o Obrigadosápinto não está interessado em questões de perpetuidade, até porque não consegue imaginar nada de mais entediante do que um estado inalterável: jamais o conseguirão interessar numa queda e enevoada eternidade a ouvir o trinar de uma harpa, nunca o verão com o doce sorriso que advém de um beatífico nirvana, e a repetitiva conversa com cada uma de 72 virgens fá-lo-ia suspirar pelo mundanismo com cheiro a conhaque e Gitanes de uma mulher de reputação duvidosa.

O absurdo de pedir ao Rui Costa que faça mais é o mesmo de chegar ao pé do Leonardo Da Vinci e dizer-lhe: “De facto, és um grande pintor, mas acho que pintas pouco. Tens o quê... 30 quadros?” A experiência intensa de ver um passe singular do Rui Costa, o que acontece duas, com sorte três vezes por jogo, tem um efeito que dura não só esse jogo todo, mas que permanece enquanto a memória tiver alcance. No seu carácter não duplicável estão guardadas a transitoriedade e a violência da epifania ou do satori, infinitamente mais elevados do que qualquer estado permanente.

Quando o desassossego humano dá lugar a uma estranha acalmia, esse instante instintivo de claridade é, sobretudo, consolo, um vislumbre de algo mais, mas, pela sua própria natureza breve, não nega a condição humana do sujeito. E o Rui Costa dá-lo a quem estiver preparado para o receber nas bancadas ou em casa. Hoje, por exemplo, pouco depois do começo da segunda parte, um passe de contra-ataque para o Nuno Gomes pelo meio de três defesas do Boavista (com um deles a contorcer o seu corpo num ângulo impossível para tentar chegar à bola, que passava ali tão perto, e ela a parecer ter volição para fugir do alcance dele) foi uma dessas dádivas.

Já em relação ao segundo, dizer que o Rui Costa perde muitos passes não é mais do que reconhecer o risco que ele abraça para criar algo que pode nunca mais ser visto. Numa palavra, é um encómio. Como os grandes artistas fazem, aliás, pelo menos aqueles que arriscam reputação, família e fome para criarem o novo, mesmo que tal vá contra o gosto reinante e o mercado. O Makelele não falha um passe desde 1991 e saiu do Real Madrid por se achar injustiçado no meio de grandes jogadores (e do Figo), mas só o mais fervoroso discípulo do Luís Freitas Lobo se lembrará de alguma coisa de único que ele tenha feito num dos seus passes laterais daqui por 30 anos.

Em todas as actividades, é débil o argumento de quem tenta encontrar falha no génio. Desde sempre que o raciocínio é o mesmo, e o Obrigadosápinto consegue aperceber-se da sua origem. Por tudo isso, saúda o improviso do Rui Costa, a coragem do empreendedor. Não se trata aqui, atenção, do obtuso improviso, o em-cima-do-joelho, tão louvado em Portugal, mas sim a resposta inovadora e criativa que o indivíduo dá, quando se vê perante uma situação com a qual nunca se deparou. Essa resposta envolve uma solução inesperada e muitas vezes impensável ou incompreensível para o vulgo. É o génio do génio.

Apesar de tudo, o Obrigadosápinto não deixa de lamentar a sua própria insistência temática no Rui Costa, mas garante que não irá nascer de novo como Obrigadoruicosta, o que seria uma transgressão ética grave. Tão-pouco irá transformar os seus textos em púlpito para enaltecer a superioridade deste culto sobre as outras religiões monoteístas, mas não só o Rui Costa está a forçá-lo a falar da sua pessoa repetidas vezes, como também, e se este for mesmo o seu último ano de jogador, o Obrigadosápinto tem de aproveitar cada oportunidade para inflacionar a sua arte, antes que os que hoje o criticam o façam postumamente na época que vem.



* Quem o faz são provavelmente os mesmos que julgam que o Rui Costa remata bem por ter marcado um golo à Austrália em 1991 no qual a bola deixou o seu pé direito a 30 extasiantes metros da baliza. Porém, se assim fosse, e o Obrigadosápinto não se cansa de o lembrar a quem o quiser ouvir, o Rui Costa estaria agora a ser celebrado como o maior número 10 da sua geração em todo o mundo, com o Zidane reduzido à condição de mera foca amestrada. O Obrigadosápinto sabe, porém, que uma média de cinco golos por época jamais o poderia permitir. Em compensação, ao menos o Rui Costa é visto como o maior número dez de várias gerações pelo Obrigadosápinto, o que é, em si, uma coroa de glória.

(SLB, 6 – Boavista, 1)

11.11.07

O campeonato mais violento do mundo


"Na Argélia, além de ter sido capitão de equipa e um modelo para os colegas, [o Binya] viu apenas dois cartões amarelos durante toda a época passada.”

Eurico Gomes, O Jogo, 11.11.07

7.11.07

À la recherche

Pela primeira vez em muito tempo, o Obrigadosápinto não foi capaz de escrever a seguir ao jogo. Também dormiu mal. Quando se joga melhor futebol, de facto custa perder. O Obrigadosápinto não discute, atenção, se o SLB merecia ou não perder, mas sente, esta época como na época passada, que perder com uma equipa da qualidade do Celtic, mesmo na Escócia, é razão para tormento. O Obrigadosápinto espera, ainda, que os jogadores do SLB se sintam atormentados e que reajam em breve de forma obrigadosápíntica (menos que isso é inadmissível), pois não se pode desaproveitar uma ocasião como esta de provar que se é melhor do que alguém em alguma coisa e não amaldiçoar amargamente os deuses, a pátria, os ricos e a condição humana pela oportunidade perdida.

Em dias assim, o Obrigadosápinto não se consegue libertar de pensamentos relacionados com o carácter implacável da experiência humana, intimamente ligado à passagem do tempo. Afinal, quando se deixa passar a altura indicada para fazer algo, o único vazão possível é o remorso, causado pela natureza ininterrupta do continuum temporal. Quantas potenciais namoradas não terá o Obrigadosápinto perdido graças à sua incapacidade de agir no momento justo? As intenções do Obrigadosápinto eram quase sempre nobres, pois relacionavam-se com frequência com a busca da palavra justa para dizer à miúda em causa, mas isso não impedia que ela acabasse a festa com outro e que o Obrigadosápinto chegasse a casa de madrugada para mais uma sessão de binge. Esta última parte, o Obrigadosápinto recorda-a com saudade como tempo bem empregue (mas ainda hoje, como então, encontra dificuldades em conciliar a reflexão com a acção).

O Dasein do Celtic-SLB incluiu, claro, tanto uma dimensão espacial (da), como uma temporal (sein). O sein, o Obrigadosápinto sentiu-o, no jogo de Glasgow, como angústia proustiana, a cada oportunidade de golo que o SLB perdia; de cada vez que o Cardozo aparecia em grande plano no ecrã da televisão com o rosto torturado do homem que não consegue acordar do sonho recorrente no qual está nu do meio da multidão; a cada corrida que acabaria por precipitar o aparecimento dos 35 anos do Rui Costa. Depois do golo do Celtic um nada antes do intervalo, o Obrigadosápinto não duvida de que os jogadores do SLB tenham experimentado a segunda parte da mesma forma, num estado de impotência causado tanto pela ânsia de quererem parar o relógio, como pela vontade doentia de reviverem os momentos em que podiam ter marcado golo antes. Alguns terão tentado, até, regatear com o divino.

Quanto ao da, porém, o Obrigadosápinto confessa-se perplexo e forçado a concluir pela existência factual de genii loci, pois esta é a única maneira de explicar que o Celtic não perca em casa, para a Liga dos Campeões, desde Setembro de 2004. Essa inexpugnabilidade do Celtic Park não se pode dever: aos generosos e duros (o Obrigadosápinto inveja, sobretudo, a consistência óssea do Scott Brown), mas muito limitados, jogadores do Celtic; em exclusivo aos alcoolizados e entusiastas adeptos do Celtic e às suas (francamente já) entediantes entonações do “You’ll never walk alone”; ou à total inépcia dos adversários, já que não só não há nenhuma equipa no mundo composta por 11 Luíses Filipes, como, nestes três anos, equipas como o Milan, o Manchester ou o Barcelona não ganharam em Glasgow.

O Obrigadosápinto reconhece o perigo de poder estar a cair numa hipérbole ossiânica, mas é de facto o espírito do Celtic Park que protege a equipa da casa, como um Francis Begbie arquitectonicamente recriado. O Obrigadosápinto penitencia-se ainda por abandonar o pensamento racional que se tornou um predicado seu depois dos excessos da juventude, mas esta é a única explicação possível para ninguém conseguir ganhar ao McGeady, ao Caldwell, ao McManus e ao Naylor, quando eles lá jogam.

O Obrigadosápinto recorda-se, por fim, que começou esta recensão do jogo com o Celtic falando de questões temporais, e a analogia recusa-se a desaparecer, lateja na prisão do corpo. É que o jogo de ontem também lembrou, ao Obrigadosápinto, um tema predilecto da ficção científica: ao ver o jogo, o Obrigadosápinto sentiu-se, em boa verdade, como se tivesse viajado no tempo e estivesse a ver o ataque de uma equipa portuguesa na década de 1970 ou 80. Como o ataque do SLB é composto, quase na totalidade, por jogadores estrangeiros, o Obrigadosápinto volta a concluir pela existência factual de genii loci, aqui a uma maior escala geográfica. Afinal, não há nature nem nurture que expliquem este estado de coisas inalterado.

(Celtic, 1 – SLB, 0)

4.11.07

"É, sem dúvida, o tendão de aquiles do Nuno Assis"

Um dos momentos mais entusiasmantes da época desportiva para o Obrigadosápinto é sempre a possibilidade de ver um jogo nocturno em Paços de Ferreira. O enquadramento da filmagem, a cor do relvado, a névoa que parece flutuar sobre o estádio e filtrar a luz artificial das torres, o próprio espaço do terreno de jogo, tudo isto lembra, ao Obrigadosápinto, uma transmissão de um jogo europeu feita na antiga URSS. A própria maneira de vestir do José Mota e a sua calvície putiniana pouco fazem para remover, da cabeça do Obrigadosápinto, a ideia de que este treinador não destoaria como figurante em “O Mistério de Gorky Park”.

Claro que esta fantasia fica algo desmaiada sempre que o José Mota dá a sua entrevista rápida à Sport TV, enquanto ajeita o boné de beisebol do patrocinador do Paços, e relembra ao Obrigadosápinto quem ganhou a Guerra Fria, mas são sem dúvida bons momentos de nostalgia televisiva para o Obrigadosápinto.

Enfeitiçado pelo pormenor, como se sabe, o Obrigadosápinto não está preocupado em discutir questões relacionadas com o jogo de hoje, a justiça do placard ou se o Bruno Paixão ultrapassou de vez as suas folionas e inócuas tendências misógino-varonis. É em virtude do seu interesse pelo aspecto marginal, por tudo o que é excêntrico, que o Obrigadosápinto está mais interessado em divagar sobre o que viu acontecer aos 19 minutos da primeira parte, quando o Rui Costa descobriu mais um trilho escondido debaixo da relva e meteu a bola à frente do Nuno Assis, isolado no flanco esquerdo e a correr a caminho da área do Paços. Em breve alcançado pelos defesas, o Tom Hulce do plantel do SLB já não tinha hipóteses de rematar, por isso fintou para o meio, como faz sempre, e passou a bola ao Léo, que se desmarcava atrás de si em direcção à baliza, já dentro da área.

O Léo (ai, ganda Léo, tu…) rematou, o Peçanha defendeu, foi canto. Tudo normal. O mais admirável neste lance, contudo, foi que o passe do Nuno Assis para o Léo, que podia ter sido feito com a parte de dentro do pé (o mais normal em termos dos movimentos que o pé executa durante um jogo de futebol) direito, excepcionalmente até com o peito do pé esquerdo, já que o Nuno Assis estava virado para o meio, foi feito com o calcanhar.

Dois pontos prévios:

1.º O facto de o passe ter saído do calcanhar não impediu que tivesse sido muito bem feito, com a qualidade e inércia necessárias para ficar mesmo a jeito do remate do Léo;

2.º Ao contrário da maioria dos adeptos do SLB que conhece, o Obrigadosápinto considera que o Nuno Assis tem qualidade para ser jogador do SLB. Apesar de o Obrigadosápinto ser pouco confiável no que toca a percentagens ou a qualquer actividade que envolva um pouco-que-seja de cálculo, ele julga, partindo do facto de que 80% da época do SLB consiste em jogos contra a Académica, o Belenenses, a Naval, etc., que um jogador que veio para o SLB como o melhor jogador do Guimarães pode jogar de forma útil e por vezes vistosa contra equipas desse nível e ser melhor do que 95% dos jogadores que as compõem. O Obrigadosápinto crê, pois, que o Nuno Assis pode ser da segunda linha do SLB, mas que nunca destoará. (Se, em vez de o usarem para tapar quaisquer buracos que surjam, o metessem a jogar na posição dele, atrás do[s] avançado[s], nos 30, 40 m² circundantes à zona do campo onde o seu futebol muito curto e nervoso, sem dúvida uma consequência das suas sucintas pernas, pode fazer a diferença, as coisas ainda seriam melhores, mas só a infinita sabedoria do Trapattoni o percebeu.)

O que fascina o Obrigadosápinto é, de facto, o fascínio que o seu calcanhar exerce sobre o próprio Nuno Assis, que o usa para quase tudo, até quando isso se revela pouco natural, como uma pessoa que agarrasse um lápis para escrever e pegasse nele com os nós dos dedos, ou outra que rodasse uma maçaneta de porta pegando-lhe entre o polegar e o mindinho. O Obrigadosápinto já viu o Nuno Assis fazer passes com esta parte da sua anatomia, quando tinha a opção de fazer um passe mais simples e lógico, em inúmeros jogos do SLB, mas este ano ainda não os tinha visto surgir de forma tão evidente, algo que até já atribuíra à melancolia causada pela venda do passe do Simão que o Nuno Assis sentiu cair sobre si este Verão.

É pública a amizade entre os casais Assis e Sabrosa, tal como era notória a tendência de 80% dos passes do Nuno Assis (dos quais 90% feitos de calcanhar) serem para o Simão. Para o Nuno Assis, a tabelinha perfeita era sempre com o Simão. O Obrigadosápinto não se atreve a especular sobre quais as causas da dependência do Nuno Assis do seu osso calcâneo (apesar de julgar que uma leitura psicoterápica da infância dele a situaria algures nos seus primeiros treinos nos iniciados), mas pressente que, nos seus momentos mais íntimos, o Nuno Assis sonha consigo a fazer passes de calcanhar de 40 metros para o Simão. No mundo real, o que o Obrigadosápinto mais deseja ao Nuno Assis é que ele um dia consiga respirar a disodia rarefeita onde reina, absoluto, o calcanhar do Zlatan.

Por reconhecer essas qualidades em si, o Obrigadosápinto saúda, pois, a pertinácia e a paixão do Nuno Assis por um gesto que já é tanto dele como do Madjer, mesmo que tantas vezes pareça, a toda a gente, ser contranatura. O próprio Obrigadosápinto não as percebe, porém, ao contrário do senso comum, não se agarra a constructos de normalidade reaccionários e aprecia a determinação estóica do homem que defende uma ideia contra todos os moinhos de vento. O Obrigadosápinto aceita a complexidade da vida e não equivale, de forma maniqueísta, o normal ao que é bom e o anormal ao que é mau, porque natural, afinal, era a posição das mãos do Abel Xavier no Euro 2000. O que era desnatural era a sua cabeleira, mas não foi por causa dela que ele foi punido.

(Paços de Ferreira, 1 – SLB, 2)

3.11.07

Ce l'hanno tutti con me perchè sono piccolo

Hoje, dia do jogo com o Paços de Ferreira, o Obrigadosápinto leu ao acaso, via “Record”, esta declaração (de profundo teor antiobrigadosápíntico) do Quim ao jornal “O Benfica”. É dirigida aos adeptos do SLB: “Será que acham que é assobiando quando algo sai mal que estão a ajudar a equipa e o Benfica? É precisamente quando as coisas não nos saem bem que têm de nos apoiar...” Ah, Quim, meão Quim, arquétipo do tipo que chega a chefe de secção sem nenhuma qualidade discernível, só porque nunca pôs um problema ao patrão e tem um ar simpático (e que destrói a vontade de trabalhar e de viver de toda a equipa que de si depende), arquimtipo do fiscal de obras de câmara municipal que usa o seu pequeno poder para se aproveitar dos que da função dele dependem, achas que é com esta pequena chantagenzinha emocional, exemplo pobre, até para ti, de psicologia invertida, que pões pressão sobre um adepto do SLB como o Obrigadosápinto? Assobiar quando não se gosta é um direito do espectador de futebol; a ti, o Obrigadosápinto assobiava-te (de máscula forma não galanteadora) se te visse passar na rua. Sabes porquê? Por isto: na lista de guarda-redes que foram de facto titulares indiscutíveis do SLB nos últimos 20 anos, como tu és agora, Quim, constam os nomes de, entre outros, Bento, Preud’homme e Enke. Agora apareces tu. O Obrigadosápinto conhece o Silvino, Quim, e tu nem sequer és o Silvino. Nem o raio do Neno.


1.11.07

Zorofilia

Afectado por demorada avaria nos serviços da TV Cabo, mal e parcamente o Obrigadosápinto viu apenas um pouco da segunda parte do Setúbal-SLB, a tempo, contudo, de testemunhar os dois golos do Setúbal. Durante a primeira parte, ouviu rádio de forma continuada pela primeira vez em muitos anos, enquanto se recordava de todas as vezes em que, ao ver futebol na televisão, o ecrã ficava sem imagem e uma mensagem aparecia de imediato a informar que o canal que transmitia o jogo lamentava esse facto, ao mesmo tempo que assegurava que era “naturalmente alheio” ao mesmo.

O Obrigadosápinto ponderou, durante mais de uma hora, intervalo incluído, quem seria o culpado de cada vez que isto acontecia, visto que jamais ouviu um canal que fosse admitir ter culpa de uma falha na transmissão, mas foi acordado do seu torpor meditativo pelo futebol inteligente e obrigadosápinto jogado pelo Setúbal. A equipa que mais quis fazê-lo ganhou, mas o Obrigadosápinto, apesar de seguro da sua masculinidade, não deixou de ficar incomodado com a vulgaridade oral do treinador do Setúbal, que se revelou o Michel Houellebecq do futebol português.

Outra coisa que incomodou o Obrigadosápinto foi a atitude do Camacho em relação a toda esta Taça da Liga. Tudo bem que possa ser uma competição menor, tudo bem que possa atrapalhar a “periodização táctica” idealizada pelo Pepe Carcelén, mas o SLB tem obrigação de, sempre que joga, no mínimo honrar o jogo. Em qualquer modalidade. Não é preciso ganhar, ou agradar aos adeptos, mas o SLB tem sempre de honrar o jogo. É uma obrigação histórica. O Camacho, que a televisão mostra sempre arrebatado no banco, mexeu-se menos em Setúbal do que se estivesse em pleno zazen. Mais: toda a sua atitude pública (entrevistas, conferências de imprensa, etc.) em relação à Taça da Liga só pode ter acabado por verter para os jogadores, e a verdade é que o Camacho tratou esta prova como um furúnculo.

Porém, em vez de tratar do furúnculo com o cuidado e a higiene que se recomendam em cirurgias deste género, decidiu que o iria remover num dermatologista com curso tirado na Regent University ou no consultório onde a Rita Vaz está a estagiar. O resultado incluiu, obviamente, a expressão “complicações com pus”, que resume de forma mundificada a participação do SLB na Taça da Liga.

O Camacho, que nunca se cansa de falar do clube de que é adepto, certamente não trataria o Real Madrid da forma como tratou o SLB na Taça da Liga. E já devia saber que o SLB é mais do que ganhar e perder jogos; também é atitude, conduta e respeito. Ao longo dos três jogos que o SLB teve na Taça da Liga, a coisa que mais se viu (e que o Adu perdoe o Obrigadosápinto) foi o enfado do treinador do SLB no banco. O Obrigadosápinto quase que apostaria que as axilas do Camacho nem no desempate por penalties com o Estrela se orvalharam, o que nele é sinal da mais absoluta indiferença.

Alguma afeição pelo Camacho morreu, assim, no íntimo do Obrigadosápinto (ou pelo menos deslocou-se para uma secção do sistema digestivo), e agora terá de ser o treinador do SLB a trazê-la de volta à luz. Mesmo que o Camacho estivesse a fazer política e a enviar mensagens para fora do balneário, como se diz no jornalismo desportivo, isso não o desculpa. E o Obrigadosápinto sabe que a lei do karma acabará por apanhar o Camacho, pelo que teme pelo SLB.

O Obrigadosápinto queria ainda saudar, porém, o central do SLB que se tornou no verdadeiro herói existencialista da campanha da equipa na Taça da Liga. Em tempos, o Obrigadosápinto chegou a pensar que o Zoro e o Binya poderiam, por jogarem os dois pelo centro, funcionar como um autêntico Eixo da Dor para os adversários do SLB. A consequência seria que qualquer atacante que conseguisse chegar perto do guarda-redes do SLB já estaria de tal modo zupado que lhe faltariam forças para chutar à baliza (e, mesmo que conseguisse chegar perto, o som ofegante da respiração do Zoro e/ou do Binya nas suas costas seria o suficiente para o desassossegar com a mera possibilidade de dor).

Em Setúbal, porém, o Zoro confirmou algo de que o Obrigadosápinto já suspeitava: é um falso Obrigadosápinto. Sempre foi observável, mas só agora se vê, que o Zoro tem um coração de galinha num corpo de pterodáctilo, que personifica o puto que, aproveitando da melhor forma o seu tamanho, aterroriza todos os outros miúdos na escola, até ao dia em que é exposto (talvez não pelo Obrigadosápinto, que era amiúde uma criança previdente) como uma fraude, como um falso duro, como um bruto mole. Nesse dia, a imagem construída em que ele já acreditava dá lugar a um profundo vazio existencial, o desespero de ter de ser em vez de parecer.

Quando se deixou cair de joelhos depois do seu próprio amortecimento para o primeiro golo do Setúbal, o Zoro, no desespero das suas próprias limitações, ocupou, ao humanar-se, um espaço que ficara livre no íntimo do Obrigadosápinto.

(Setúbal, 2 – SLB, 1)

29.10.07

De rerum natura

Se o jogo com o Celtic tinha acabado de forma a forçar o Obrigadosápinto, ateu confesso, a usar terminologia que quase o fez passar por beato, o com o Marítimo, em vez de contrariar esse pendor e fazer o Obrigadosápinto voltar a ver o futebol de maneira naturalista, teve e-x-a-c-t-a-m-e-n-t-e o mesmo efeito. É que a vitória do SLB não se pode explicar, efectivamente, estando o sujeito sujeito ao domínio das leis naturais. No “National Geographic”, afinal, numa caçada na savana, nunca o antílope coxo consegue fugir à chita, mas, hoje, o antílope coxo não só fugiu, como ganhou o jogo. Como é que se diz no jornalismo desportivo? Ah sim, a vitória caiu do céu.

A responsabilidade maior, claro, cabe ao Obrigadosápinto concentrado em 1,69 m de defesa-esquerdo que se chama Léo (porque ele acredita sempre que, enquanto continuar a correr, a esforçar-se, a chocar contra a parede da fadiga e da lógica, coisas boas lhe vão acontecer), mas não foi isso que chamou a atenção do Obrigadosápinto, sempre atento ao detalhe que escapa às câmaras de televisão, no jogo do ontem. (Na verdade, no instante do golo, lágrimas de alívio correram de tal forma pelo espírito do Obrigadosápinto que a própria recordação do instante lhe parece embaciada.)

Tendo passado por instantes místicos em anos mais jovens (apesar do seu feitio conflituoso, o Obrigadosápinto fez grandes leituras de Mestre Eckhart), o Obrigadosápinto acredita na ligação invisível entre acontecimentos e pessoas, sabe que nada acontece no vácuo. Assim, no jogo com o Celtic, o momento mais belo do jogo tinha sido uma cueca do Rui Costa a um tipo chamado Caldwell na esquerda do ataque, que, previsivelmente, e conhecendo a biografia do Rui Costa, acabou num remate que quase saiu pela linha lateral.

O belo criado jogo após jogo pelo Rui Costa é, de facto, extraordinário, até na sua imperfeição, e é porventura por isso que ele é, hoje em dia, um caso único de devoção por parte dos adeptos de um clube. O Rui Costa é mais consensual entre os adeptos do SLB do que Jesus entre os cristãos, não admite cismas. Quando ele cria algo que não está ao alcance dos demais, algo que até os confunde e apequena, lembra-lhes no instante seguinte que é igual a eles, humano como eles. No fundo, nessa aliança ele assemelha-se a Ele, só que nunca, mas nunca, é abandonado.

No jogo com o Marítimo, o Obrigadosápinto teve a sorte de ver a linha incorpórea que une todos os jogos do SLB, ao mesmo tempo que se apercebeu, pela primeira vez em mais de duas dezenas de anos a ver futebol, de que há quem esteja numa plana mais alta (mesmo que não em termos de posição no estádio), alguém que, desse lugar, vê algo que os outros nunca tinham visto, algo que nem sequer conseguem ver. Sentado na bancada, o Obrigadosápinto sempre acreditou (e por isso se irava e assobiava) que via mais do que se passava em campo do que os jogadores viam. Cada vez que um jogador tinha um companheiro a correr sozinho pela esquerda e passava para o extremo-direito, cada vez que se agarrava à bola quando tinha um companheiro esbracejante isolado na área, o Obrigadosápinto irritava-se, mas percebia que ele, na bancada, tinha uma visão dos 7000 m² do campo que esse jogador não tinha.

Hoje, o Rui Costa ensinou ao Obrigadosápinto o significado da humildade (os paralelismos messiânicos sucedem-se, mas a culpa não é do Obrigadosápinto): por duas vezes fez passes para jogadores isolados, no caso o Léo e o Rodríguez, que o Obrigadosápinto, sentado bem acima no anfiteatro, só viu quando a bola chegou aos pés deles.

O belo criado por Rui Costa é, pois, o fio condutor que une todos os jogos do SLB, e é a sua criação que dá sentido teleológico aos jogos do SLB. Golos, vitórias, são importantes, claro, mas reduzir a experiência de ser tocado pelo sortilégio futebolístico-cinético do Rui Costa a um fim utilitarista está perto da heresia. Ao experimentá-lo, o Obrigadosápinto sente, como suas, as ideias de Walter Pater.

Nunca haverá outro jogador como ele, tal como não haverá outro Bergkamp ou outro Laudrup (e como, daqui por dez anos, se dirá que não haverá outro Hleb), jogadores que não se limitam à banalidade de sair para qualquer lado com a bola jogável, antes se preocupam, isso sim, com a jogabilidade da própria bola. O Obrigadosápinto sempre se perguntou se os companheiros de equipa destes jogadores sentem o privilégio que é fazer exercício com bola junto a eles.

O Léo deve senti-lo, mas não é por ter contribuído de forma pontual para uma vitória do SLB que merecerá, um dia, um ensaio no Obrigadosápinto; quando isso acontecer (e vai), será antes porque o Léo é Obrigadosápinto. O Rui Costa não o é, em nada, mas o Obrigadosápinto está ciente do seu próprio lugar no cosmos.

Para um confesso ateu, é de facto um facto que o Obrigadosápinto força demasiado a ligação ao transcendente, algo que ele imputa à sua formação nas humanidades. Na verdade, porém, o que o Obrigadosápinto mais desejaria era conseguir explicar a circunvolução do 2-0 com a Naval recorrendo à física.


(SLB, 2 – Marítimo, 1)

25.10.07

Bairro semiproblemático

O Obrigadosápinto é um projecto ideado e reflectido há algum tempo, mas o início da época apanhou-o de férias e, desde então, ele tem vivido com uma sensação de persistente e profundo desânimo, perante o que o SLB tem feito até agora. Depois de um ano do pesadelo santiano de Fernando, mais dinâmico como militante do movimento antiaborto do que alguma vez o foi no banco do SLB (o pescoço espasmódico, por involuntário, não pode contar como actividade psicomotora consciente), a euforia preambular da era Camacho tinha dado lugar, na mente combativa do Obrigadosápinto, a uma letargia sem fim, a um receio de falhar, a uma incapacidade de afirmação.

Nisto, o Obrigadosápinto imitava, no fundo, a atitude em campo da equipa do SLB, que, por sua vez, se assemelhava ao padrão comportamental de um desempregado de média/longa duração. Tal como este sente uma compulsão resignada que o obriga a ver dia após dia o “Você na TV” e o “Tardes da Júlia”, muitas vezes em estado semiembriagado, também o SLB passava pelos seus jogos com uma quietude deprimente e uma inacção pesada e invencível, sobretudo nas primeiras partes.

Hoje, porém, ao escrever este texto, o Obrigadosápinto fá-lo com o coração cheio de arrebatado fervor clubista, bem ao seu estilo, portanto. Afinal, foi este o dia de uma segunda parte (a primeira foi como que um desânimo pós-masturbatório de 45 minutos) frente ao Celtic que lembrou, ao Obrigadosápinto, presente no estádio após longa abstinência, a garra das noites europeias da sua infância/primeira adolescência, nos anos 1980/90. Na segunda parte, o SLB assegurou, de facto, o pleno emprego. (A verve do Obrigadosápinto faz com que ele não tenha sequer medo de esgotar metáforas e de as usar até uma dolorosa exaustão.)

Foi como se o Camacho tivesse redescoberto, ao intervalo, os “huevos” que o tornaram, há quatro anos, tão querido do Obrigadosápinto e de todos os adeptos do SLB; como se tivesse abandonado a agudeza táctica (que não é ele) que todos os treinadores julgam ter de demonstrar quando jogam no ambiente mais sofisticado que é uma competição europeia (oh, se haveria aqui material suficiente para uma análise marxista... e para outra freudiana) e decidido ir para cima deles, como se a voz do Ângelo lhe segredasse ao ouvido: “Vamos para cima deles!”; como se tivesse, em suma, decidido aceitar o seu Obrigadosápinto interior.

Aquela segunda parte foi entusiasmante, a lembrar cavalgadas dos ’80/’90, quando ninguém ganhava na Luz em jogos da UEFA; quando a tribo do Terceiro Anel empurrava aquela equipa para a frente; quando o Veloso era ultrapassado vezes sem conta por um extremo jugoslavo/russo/checoslovaco qualquer, mas agarrava-o sempre, pela camisa, pelos calções, pelas meias, até se voltar a colocar à frente dele, na defesa da baliza do SLB; quando se empatavam jogos com o Arsenal mesmo no último minuto, porque o estádio a isso obrigava.

Hoje, foi assim, apesar de o golo não ter sido no último minuto (e de o Obrigadosápinto ter lugar na equipa do Celtic). Seja como for, o SLB investiu pela segunda parte como o Rodríguez, de cabeça baixa como um touro. Devia ser assim mais vezes.

Ainda por cima, e apesar da sua garra, o Obrigadosápinto é, à boa maneira de quem lhe deu nome, naturalmente emotivo, e o facto de ter sido o Cardozo a decidir o jogo tocou-o.

Foi, num só acto, o triunfo do desafortunado; a recompensa celeste para quem acredita na transcendência; o pobre a ganhar a lotaria; o direito (porque a vitória foi mera questão de justiça) feito carne na figura de um jogador (o Obrigadosápinto e a estilística, sempre de mão dada). O golo depois de duas bolas na armação da baliza e de um pontapé na relva-ar, o golo contra todos os assobiadores e contra todos os burburinhos que se ouviam quando a bola passava sequer perto dele, mal passada por um colega de equipa, e ele não a agarrava.

Na compaixão por Cardozo, porém, o Obrigadosápinto não esteve sozinho. Num país com o quarto maior santuário católico do mundo e em que a desgraça e a contrariedade nunca andam longe do discurso público, já Cardozo tinha sido aplaudido depois de mandar a bola ao poste. Era a segunda, o público comocionou-se – e o Obrigadosápinto também. As palmas movidas pela pena soam como as outras.

E, de facto, com tanta injustiça no mundo e num país onde um processo em tribunal se pode arrastar por décadas, Cardozo foi réu, advogado, júri, juiz e executor em 90 minutos: quem vê justiça instantânea, não pode senão comover-se. E o passe do Di María, flutuando como uma pluma que só quis cair no sítio exacto, acrescentou-lhe o adjectivo “divina”.

Entretanto, pode substituir-se “desempregado de média/longa duração”, até porque o Obrigadosápinto sente muitas vezes tendências esquerdistas, por “estudante do ensino superior”.

(SLB, 1 - Celtic, 0)