16.1.08

Depois do cisma evangélico-ortodoxo (5)

Para gáudio do Obrigadosápinto, enquanto amante de uma língua que se quer dinâmica como uma transição ofensiva do Rodríguez, há sempre a cíclica insinuação de certas palavras (aviventadas ou não) no domínio público. Há uns anos atrás, o Obrigadosápinto festejou as “valências”, depois as “incidências”, e ainda o “direccionar” (em termos de modalidades desportivas, há ainda e sempre o “apronto” para o arrepiar de prazer). Hoje por hoje, a ai-jesus (ou menina-prodígio) do seu plantel vocabular é “bondade”. A bondade de fazer isto ou aquilo, a bondade de uma decisão, a bondade da lei, a bondade da opinião de alguém. Depois de ver a partida que o Luisão cumpriu no sábado, onde o esforço por si despendido não esteve à altura (ficou-se assim pelos joelhos) dos seus pergaminhos de líder do sector mais recuado da equipa, o Obrigadosápinto ficou sem perceber a bondade da bitola adoptada pela Direcção da SAD e pelo corpo técnico de o tratar ao nível dos paninhos quentes e confirmou a bondade da ideia que há pouco expressou de que não teria sido mau de todo se tivessem feito com que ele tirasse uns jogos para reflectir sobre a brevidade da existência humana e do estrelato no desporto-rei. Há mesmo demasiada bondade no SLB para com os jogadores com os melhores lobbys. Hannibal ad portas, de facto.

14.1.08

Fodidos

Se esta época viesse a figurar na história Gloriosa, o Leixões seria uma figura de destaque. Na primeira volta, serviu de desculpa para despedir Fernando Santos. 15 jogos depois, o mesmo Leixões serviu para vermos que nossa equipa não joga uma beata (a analogia não é famosa, mas o facto de ter passado a fumar na rua impele-me para a gíria tabagista).

No sábado, a equipa de Matosinhos nem propriamente se agigantou, como é costume em equipas de bacalhau (recorrendo agora a Manuel Machadês). Jogou o futebolzinho do costume em equipas do Carlos Brito, fiel discípulo de Henrique Calisto, com aquelas trocas curtas de bola a meio-campo que fizeram da Académica dos anos 80 um contínuo candidato à segunda divisão.
E não fosse o árbitro ter um (correcto, mas irritante) arrependimento e o fiscal de linha um momento de miopia e o Porto não gritaria, nesta altura, o hino de campeão. Estaria, apenas, a cantá-lo em voz muito alta.

Que o Porto vai ser campeão, é assunto que não interessa minimamente. O Algarve costuma ser quente no Verão, e isso nunca é assunto de discussão. Quanto chove no Algarve, isso sim, merece comentário. O Benfica não ser campeão, também, infelizmente, não abre a boca a ninguém. Agora, o que se viu no sábado, ou o que se tem visto inclusivamente no sábado, merece umas palavras.

O Camacho fez parte daquela equipa do Real Madrid que transformou, por momentos, o futebol numa completa manifestação de aleatoriedade. Levava 4 na pá duma equipa jeitosa qualquer e 15 dias depois espetava-lhe com 5. Era a fúria espanhola, dizia-se. E essa é claramente a escola do espanhol vivo mais parecido com o Chefe Silva.

Segundo consta, Camacho quer que a sua equipa conquiste o primeiro canto e faça o primeiro remate. A fúria, lá está. E a equipa responde, porque fúria é o que não falta por ali. Viu-se isso bem contra o Setúbal e no fim do jogo com o Leixões.


Camacho é, então, um Anger Manager, não no sentido tradicional do termo, porque ao invés de a querer controlar, ele fomenta-a.

Mas não é Manager de mais nada. O homem escolhe 11, mete-os no tabuleiro – 4 lá atrás, 2 mais à frente, 2 nas alas e 2 na frente ou só um na frente e um mais atrás – e quanto ao resto desenrasquem-se.
Troca de posições, compensações, umas jogadas ensaiadas, umas simples tabelinhas, nada disto se vê numa equipa de Camacho. Nem na outra que ele treinou há uns anos, melhor do que esta, mas apenas porque tinha melhores jogadores (Simão, Moreira, Miguel e Tiago), porque a interacção entre os jogadores era a mesma. Nenhuma.

Calhou há uns 15 dias passar os olhos pelo Real Madrid-Saragoça. Os jogadores do Saragoça jogavam uns com os outros, tinham dinâmica, criavam oportunidades. Casillas ia defendendo golos enquanto o resto da sua equipa lá andava. Entretanto, Robinho lá recebeu uma bola redonda, desmanchou um defesa e mandou o Nistelrooy contar mais um. Passados uns minutos, o brasileiro repetiu a cena, mas desta vez dispensando o holandês.

Ora, é para isto que Camacho está sempre a exigir melhores jogadores: para disfarçar, com o génio de alguns, a incúria de todos, quando juntos.
E como nunca teremos Robinhos, nem tão cedo sequer um Simão, passamos a citar o Camacho: estamos fodidos.

(SLB, 0 - Leixões 0)

13.1.08

Deve ser da relva

Daqui a uns anos haverá um doutoramento em «Secretariologia» na FMH, ou mesmo no ISCTE. Durante anos a fio, seminários e conferências serão organizados tentando explicar o «mistério» da presença do Secretário na selecção nacional e no Real Madrid. Note-se que não tenho nada contra esse «mistério»; até porque é um «mistério» que me dá mucha ilusión. Se o Secretário pode ser jogador da selecção, eu seguramente que posso chegar a Secretário-Geral da ONU.

Mais tarde, quando o Papa morrer (o verdadeiro, não o que está no Vaticano), depois de se ter salgado o corpo, espetado uma estaca no coração e um balázio de prata na nuca (não vá o Diabo tecê-las) poder-se-á estudar o fenómeno que leva as equipas portuguesas da 1ª divisão jogarem ao nível dos distritais sempre que jogam com o fcp. É uma maravilha. Contra o glorioso (e até contra os desgraçados de verde) esfalfam-se de tal modo que até mete dó. Contra as criaturas do Tinhoso parecem uns putos de doze anos. Mistério....

12.1.08

Depois do cisma evangélico-ortodoxo (4)

Katsouranis: Diz lá outra vez que não há um grande filósofo grego desde o século III, diz, palhaço! Diz-me na cara, se tiveres coragem! Então e o Proclo?

Luisão: O Proclo? Estás doido. A única coisa que ele fez foi requentar o sistema plotiniano, já de si um requentamento do platonismo, e acrescentar-lhe uns enfeites de Lógica. Só tu é que não queres ver que a regressão do pensamento clássico se acentuou de forma irreversível depois do Plotino.

Katsouranis: Eh pá, eu parto a boca a este gajo, eu mato-o. Larguem-me!

Luisão: Anda cá, então, que eu não sou só virtuosismo dialéctico; também sou capaz de cuidar de ti à espartana. Por muito que estrebuches, a verdade é que, 1800 anos depois do Plotino, a Grécia está lado a lado com Portugal em alguns indicadores da União Europeia.

Depois do cisma evangélico-ortodoxo (3)

O Obrigadosápinto sempre soube que, esta semana, os jogadores tentariam desdramatizar a situação e os jornalistas incendiá-la, mas não suspeitava de que o Katsouranis fosse de tal maneira cordeiro sacrificial na praça pública. A diferença de tratamento em relação ao Luisão chega a ser indecorosa, e não só por ser reveladora de tão pouca inteligência por parte do SLB. Ademais, obriga toda a gente no clube a meter os pés pelas mãos.

O Obrigadosápinto teme agora que, como aconteceu no caso do Simão, o SLB acabe por ter de vender o passe do Katsouranis mais barato. Que saudades tem o Obrigadosápinto, por momentos, de quando todos os jornais falavam em tons reverenciosos da “grande capacidade negocial” do Vale e Azevedo.

Depois do cisma evangélico-ortodoxo (2)

Por outro lado, o Luisão e o Katsouranis contribuíram e muito (a jogada do golo do Setúbal nasceu e foi concluída pelo meio, porra!) para que não houvesse vindita pela boca suja do Carvalhal. E isso fez o Obrigadosápinto ficar fodido.

Depois do cisma evangélico-ortodoxo (1)

Ah, e os benfiquistas que não venham dizer ao Obrigadosápinto, como ele já ouviu dizer esta semana, que no Porto isto nunca aconteceria. Quando se ganha (e como eles ganham agora...), tudo corre bem, e o Jesualdo desculpa o Bosingwa as vezes que forem precisas, mas na época a seguir ao Mourinho ir para o Chelsea, quando pelo Porto até andou o Couceiro a passear a sua combinação blazer-camisola de gola alta e a fazer passar-se por treinador, o Luís Fabiano não andou propriamente a ser um companheiro-modelo.

Spin doctor


Um dos mantras do Camacho é que a equipa do SLB tem de aprender a circular bem a bola e a não a perder, sendo segura no passe. Isto, meus senhores, é uma mentira pegada, e o Obrigadosápinto nunca deixa de se espantar com o facto de nenhum jornalista perguntar ao Camacho, se é esse o caso, que raio faz o plantel do SLB nos treinos durante toda a semana?

No SLB, "manter a bola" é sinónimo de "passá-la ao Rui Costa quando estivermos quase sem ela para ele decidir o que fazer", e é talvez por isso que o SLB empatou em Setúbal, por ter recuado caninamente depois do golo do Mantorras (quando ainda faltavam 20 minutos para o jogo acabar) e por ser incapaz de, ao fazê-lo, esconder a bola do Setúbal. Uma equipa cuja ambição é passar a bola de pé para pé e mantê-la em seu poder não pode ter como estratégia pôr o Quim, o David Luiz, o Luisão e o Petit a chutarem bolas longas para os avançados, não pode encarar o jogo como o Preston North End circa 1927.

Os cristãos evangélicos fazem os melhores companheiros de equipa

"Most people go through life dreading they'll have a traumatic experience. Freaks were born with their trauma. They've already passed their test in life. They're aristocrats." Diane Arbus

Para despachar os prolegómenos e explicar a sempre pomposa acção de usar epígrafes, o Obrigadosápinto tem desde já de dizer que o faz porque lhe estão a faltar termos para descrever o vazio que sente e porque já não se acha capaz de aguentar muitos mais traumas relacionados com o SLB. O Obrigadosápinto viu o Toni ser despedido depois de ser campeão; viu a camisola dez do Rui Costa, entretanto vendido à Fiorentina, passar a ser usada pelo Nelo na época imediatamente a seguir; aguentou não um, mas dois interinados do Mário Wilson; sentado na primeira fila no Estádio da Luz, num derby com o Sporting, viu puro terror nos olhos do Rojas sempre que lhe passavam a bola; ficou eufórico por ter sido campeão há três anos depois de uma temporada em que o único jogo do campeonato de que se lembra é o SLB-Marítimo – mas o descambação actual está a ser demais, sobretudo porque surge depois de uma vera recuperação (financeira e de credibilidade) do clube, numa altura em que as coisas pareciam estar a melhorar.

Contudo, o principal efeito do “incidente” ocorrido no jogo com o Setúbal foi o de fazer com que o Obrigadosápinto se sentisse velho. Não por achar, como os idosos e os monárquicos, que antigamente havia mais respeito e valores autênticos, mas sobretudo por o “incidente” o ter feito lembrar-se do Elzo (um trinco monofíntico que o Obrigadosápinto, por ver nele o homem raçudo que ele próprio é, apreciava sobremaneira), que passou pelo SLB no fim da década de 1980 e nunca mais jogou pelo clube depois de, num jogo em que foi substituído – contra uma equipa não grande e estando o SLB a jogar horrivelmente nesse dia, se a memória não atraiçoa o Obrigadosápinto –, ter mandado a camisola do SLB ao chão, já no túnel, depois de ser substituído.

Exagero? Talvez se possa dizer que sim. Extremo? Sem dúvida (até porque o Obrigadosápinto, profano, rejeita a exaltação de símbolos e a glorificação de ídolos, além de, humanista, acreditar na possibilidade de alguém ter um acto impensado, cometer uma falha, ou até um delito, e se poder regenerar), mas uma punição era devida: o Elzo prevaricou em privado, é certo, mas quem quer que tenha decidido vender o seu passe achou que o SLB tinha valores que faziam parte da res publica e que era importante defendê-los. Que valia a pena defendê-los. E o Obrigadosápinto, um libertário envergonhado, acha o mesmo.

O Obrigadosápinto não quer, naturalmente, dar mais importância ao “incidente” do que ele realmente teve/tem, mas não deixou de se sentir um pouco envergonhado pelo que se passou, por o lado público do SLB ter sido desconsiderado de forma tão evidente. O resto, os bastidores que tantos jornais vendem, nunca interessou ao Obrigadosápinto. Se desse demasiada importância ao “incidente”, o Obrigadosápinto sabe que pareceria velho e uncool, no que significaria a sua morte social, mas também não o pode fazer porque, e até atendendo à sua relação com o treinador Artur Jorge Braga Melo Teixeira, tem noção de que as desinteligências fazem parte das relações laborais. Porém, hipócrita (ou bem-criado, de acordo com o código monárquico), prefere que estas sejam resolvidas em privado, com decoro.

Ciclicamente, foi em Setúbal que o Obrigadosápinto, anteriormente desapontado com o Camacho, se reconciliou de alguma forma com o enrubescido treinador do SLB, que, no seguimento do “incidente”, substituiu o Luisão e o Katsouranis, provando uma vez mais que, quanto mais verdadeiro e menos sofisticado for o seu comportamento, melhor é para o SLB. Agiu bem, agiu obrigadosápinticamente.

Quanto ao “incidente” em si, o Obrigadosápinto, apesar de desconfiar de Atletas de Cristo que se sentam ao volante com 1,44 g/l, tem, como todos os benfiquistas, uma dívida de gratidão para com o Luisão que jamais poderá ser paga de forma adequada, mas sabe que ser companheiro de equipa de um jogador como ele é absolutamente insuportável. Há muitos jogadores assim, que reclamam por tudo e por nada com os companheiros de equipa, com e sem razão – o Liedson será o caso mais próximo, temporal e geograficamente, o Schmeichel o mais conhecido –, e o Obrigadosápinto lembra-se, por exemplo, de ver o Moreira, quando começou a jogar na primeira equipa do SLB, quase em lágrimas porque o Luisão estava a gritar com ele antes de um pontapé de canto. E depois o Luisão é daqueles que, quando são eles a fazerem porcaria, ficam com ar de quem foi apanhado a roubar dinheiro da carteira do pai. O Obrigadosápinto já jogou com muitos assim. Já respondeu à letra a muitos assim.

O Schmeichel não era nenhum Preud’homme, mas foi tão importante e carismático para as equipas pelas quais passou que ganhou o direito a obrigar os companheiros de equipa a terem de o aturar; o Liedson, apesar de ser intolerável, há cinco anos que não faz mais nada senão safar o Sporting (e a intolerabilidade dele é, de alguma forma, deleitante, porque permite regularmente ver como o Sporting dobra a espinha e contorce os seus nobres princípios de “clube diferente” para não o antagonizar); já o Messi, se algum dia quiser jogar no SLB, pode espancar, em campo, qualquer companheiro de equipa à sua escolha que não haverá problema, podendo até ser o Obrigadosápinto a fornecer-lhe o objecto contundente que ele mais deseje ou considere mais apropriado para o tipo de sevícia em questão.

No que toca ao Luisão, nesta fase do seu percurso no SLB, não tem legitimidade para reclamar com quem quer que seja. O Obrigadosápinto sempre o apreciou como jogador, mas tem bem noção de que a sua carreira alteou com o Koeman, que não tinha verecúndia nenhuma de pôr o SLB a jogar com quatro centrais e dois trincos (como com o Lille, em Paris) se achasse que isso era necessário para alcançar o seu objectivo, pelo que o centro da defesa ficava bem mais resguardado. A partir daí, o Luisão tem vindo a decair de forma progressiva – e bem pronunciada desde que, em Março passado, se magoou no primeiro jogo da Taça UEFA com o Paris Saint-Germain, uma lesão nunca muito bem explicada e cuja recuperação demorou para aí três vezes mais do que o previsto. E ele nunca mais foi o mesmo.

Também o Katsouranis, a única pessoa no código postal 1501-805 que tem saudades do Fernando Santos, devia, nesta altura, guardar para si a iracúndia que, bem no íntimo, lhe provocam os seus companheiros do SLB; lhe provoca o facto de, no SLB, já não estar o Karagounis para lhe fazer companhia; lhe provoca a indesmentível decadência da civilização helénica depois do século IV a. E.C. Esta época, o Katsouranis está muito, mas mesmo muito abaixo do que mostrou na época passada, e a sua falta de dinâmica e, se calhar, de vontade de andar por Lisboa é evidente.

Deve, pois, ter-se em mente que o “incidente” teve como protagonistas dois jogadores que estão em baixa e que fazem parte de uma equipa em baixa. Ganhar, como se sabe, é o melhor desodorizante, e o Luisão e o Katsouranis estariam a abraçar-se, como se tresandassem a Rexona, se o SLB andasse a ter sucesso em campo. Todos os casos mais conhecidos de tentativas de peleja in vivo entre companheiros, afinal, envolveram jogadores de equipas desorientadas, e o Obrigadosápinto não tem dúvidas de que chegar a este ponto significa que há gangrena no balneário no SLB.

Saber de quem é a culpa dificilmente é o mais importante aqui, mas é indiscutível que há toda uma cultura no SLB que está errada: quando um jogador que chega atrasado das férias, como o Katsouranis, joga, como se nada se tivesse passado, no jogo seguinte (quando ao Léo, um über-profissional cujo pai ia ser operado ao coração, foi dito para voltar de imediato para Portugal), alguma coisa não está bem. E o Obrigadosápinto até aposta que, com o Leixões, o Luisão vai jogar sem questões nenhumas. Há hoje, no SLB, uma certa decadência fin de siècle.

Estudioso atento de fenómenos de realpolitik, o Obrigadosápinto não é ingénuo a ponto de querer que todos os jogadores se dêem bem, almocem juntos, com as respectivas famílias, duas vezes por mês e entoem, em cânone à oitava, o Ser Benfiquista; não, ao Obrigadosápinto basta-lhe que os jogadores joguem de forma decidida e que dêem tudo o que puderem dentro de campo, o que se faz jogando com e para os colegas. No balneário, podem nem se falar, mas à vista de todos, no campo, aí têm de correr uns pelos outros, têm de sofrer pela equipa (e, no fim, pelo clube). Se se recusarem a correr para emendarem a falha do companheiro do lado, se lhe apontarem o dedo em vez de lhe assegurarem que, se ele falhar novamente, ali estarão para tentar corrigir o erro dele, então o espírito do que é uma equipa já está corrompido. Ah, e quem se recusar a fazê-lo podia, não sei, tipo não jogar na jornada seguinte.

O Obrigadosápinto lembra-se de um caso, no Manchester United, há uns anos, de companheiros de equipa que nem se podiam ver, no caso porque um acusou o outro de ser culpado de um golo da equipa adversária. Aconteceu em 1997; em 1999, porém, o Cole e o Sheringham ajudaram a equipa a ganhar tudo o que havia para ganhar. O Luisão e o Katsouranis, em Setúbal, não fizeram mais do que revelar a putrefacção que, sem qualquer dúvida, alastra hoje em dia entre o plantel do SLB. E, no caso deles, o que é o pior, não fizeram mais do que ajudar a um empate em Setúbal.

(Setúbal, 1 – SLB, 1)

5.1.08

Manual de utilização do OQEQOAJFNS

Os destinos do Obrigadosápinto e do treinador de futebol Artur Jorge Braga Melo Teixeira estão ligados por mais do que um mero passado histórico-desportivo partilhado; não, entre eles existe algo maior, que, de forma paradoxal, entra no domínio do infracutâneo, do celular, do intuitivo. Como se fossem Eternos, parecem partilhar uma unimente (nesta alegoria muito pessoal, o Obrigadosápinto é o Ikaris, o Artur Jorge o Druig), ou então é como se a sua ligação fizesse parte da própria estrutura do ADN de ambos.

Pensa-se, afinal, que o genoma humano tenha entre 30 e 40 000 genes, e toda a humanidade é, em termos genéticos, 99% idêntica. No caso do Obrigadosápinto e do Artur Jorge, há ali um 0,0000000000001% adicional que só eles partilham em todo o universo. Prová-lo? Seria difícil convocar o Artur Jorge para uma colheita de sangue para posterior comparação com uma do Obrigadosápinto (se a colheita fosse feita em simultâneo, na mesma sala, o Obrigadosápinto nem sabe como reagiria), mas este último pode pelo menos demonstrá-lo empiricamente, uma vez que, alertado por premonitória dor no joelho, um fruto de uma lesão antiga, simplesmente soube esta semana que algo se iria passar na vida do Artur Jorge. E passou-se mesmo.

Estes francamente entediantes prolegómenos servem tão-somente para introduzir uma nova rubrica neste blogue. Para concluir os prolegómenos (o Obrigadosápinto, como amante da palavra escrita, garante que, daqui por diante, irá escrever tantas vezes quanto lhe for possível “prolegómenos”, devido ao prazer que lhe dá fazê-lo), o que se passa é que o despertar de memória provocado pela tal pontada no joelho, aliado à actual míngua de avançados no SLB, fez com que o Obrigadosápinto decidisse divulgar uma prática que ele adoptou há anos e que, julga, neste caso poderia ter ajudado, há poucos dias, o próprio Camacho.

Com as lesões do Nuno Gomes e do Cardozo e a dispensa de um atleta argentino que, no Verão, veio jogar futebol para o SLB, falou-se na hipótese de o Mantorras poder ter de ser o ponta-de-lança da equipa em Setúbal. O Camacho, mestre do matter-of-factly, limitou-se a dar uma resposta com a sensaboria de quem fala do tempo: “Espero que [o Mantorras] possa ser importante no Benfica esta temporada.” Claro que o Camacho mais facilmente adaptaria o seu fétiche Maxi Pereira a ponta-de-lança do que poria o Mantorras a jogar de início, mas isso não interessa para o caso: o que importa aqui é a oportunidade que o Camacho perdeu de sofrer uma ascensão espiritual do tipo arturjorgiano. (Em vez disso, continuará num vulgar nível vocabular, intelectual, retórico e sofístico.)

O Obrigadosápinto não se recorda das palavras exactas, mas há muitos anos, quando o Artur Jorge era seleccionador nacional, perguntaram-lhe, antes de um jogo (contra o Azerbaijão, ou a Irlanda do Norte, talvez a Arménia… no fundo, era um adversário acessível), quem é que ele iria pôr a jogar a ponta-de-lança. O tema da falta de avançados em Portugal é clássico, e a resposta também o foi: "Vamos jogar com o Figo a ponta-de-lança, com o João Pinto a ponta-de-lança, com o Rui Costa a ponta-de-lança…”

Magnifico, Arture Giorgio, e, se o Obrigadosápinto fosse, à época, jornalista e estivesse presente na conferência de imprensa, ter-se-ia levantado, batido palmas de forma enérgica, mas afectada, e gritado “Bravô” (assim à francesa, como na ópera ou no teatro) repetidas vezes. O silêncio e os olhares alheios não incomodariam, aliás, o Obrigadosápinto, figura independente da opinião de outrem que, no final, arriscaria, inclusive, levar um grande e grosso ramo de flores ao balneário com cheiro a linimento do treinador.

Esta réplica, aliás, está perto do cume no que toca às citações do Artur Jorge de que o Obrigadosápinto se lembra, Obrigadosápinto que vai agora revelar o que o Camacho deveria ter dito – e, ao mesmo tempo, inaugurar a rubrica OQEQOAJFNS neste blogue. Isso mesmo: O Que É Que O Artur Jorge Faria Nesta Situação?

Já bastas vezes na sua vida o Obrigadosápinto recorreu a esta acrónimo-mnemónica em situações de desespero e/ou de mero desconforto – e nunca se deu mal. O Obrigadosápinto numa situação de estar numa estática bicha nas Finanças? OQEQOAJFNS: ouvia música clássica no walkman (hoje em dia, num iPod). O Obrigadosápinto numa situação potencialmente íntima com uma rapariga? OQEQOAJFNS: declamava um verso romântico do Novalis ou, se a ocasião a isso fosse propícia, um mais lúbrico do Goethe (convém lembrar aos mais novos que o Artur Jorge é licenciado em Filologia Germânica). O Obrigadosápinto numa situação de ser treinador de uma equipa de futebol acabada de ser campeã? OQEQOAJFNS: punha seis trincos a jogar, abdicava dos extremos, dispensava os melhores e mais representativos jogadores do plantel, contratava o professor Neca e o Filipovic para adjuntos e dava o seu aval às contratações de Nelo, Tavares, King e Paredão, entre outros.

Por isso, numa próxima ocasião, à pergunta: “Camacho, com as lesões do Nuno Gomes e do Cardozo, o Mantorras pode jogar a ponta-de-lança em Setúbal?”, a resposta é só uma: recorrer ao OQEQOAJFNS. Ergo: “Vai jogar o Rodríguez a ponta-de-lança, o Petit a ponta-de-lança, o Katsouranis a ponta-de-lança…” Poderá seguir-se um "Bravô".

P.S. Amante, também, da palavra falada, o Obrigadosápinto admite que a única justificação para esta perfeitamente dispensável nova rubrica é, na verdade, a oportunidade de ele poder dizer “OQEQOAJFNS” em voz alta. Tem qualquer coisa de homo ergaster, de primal scream, e é bastante libertadora.

31.12.07

O Senhor Ferreira Queimado

Talvez já com os pés no novo século, preparava-se uma nova e aparentemente decisiva Assembleia Geral do Benfica. Nela, Vale e Azevedo iria propor a possibilidade de alienar a maioria do capital da SAD benfiquista.
Até lá, a ascensão dessa personagem tão terrífica, como burlesca, era encarada, por quem ainda mantinha uma réstia de bom senso, como um visitante indesejado para jantar, que, finda a refeição, sairia para sempre da nossa vista. Caso a sua proposta vingasse, ele, mais do que passar a viver na nossa casa, passaria a assumi-la como sua.

Nas vésperas desse acontecimento, chegavam-nos notícias de que rufias faziam fila no escritório de Vale e Azevedo, para serem contratados para um determinado papel na Assembleia.
“Vis atoardas de inimigos do Benfica” (como era comum da linguagem utilizada nesses tristes tempos) ou não, o que é certo é que no Pavilhão da Luz se assistiu às novas invasões bárbaras, com personagens com as mesmas barbas, mas com armaduras trocadas por fatos de treino da feira.

E urravam, e insultavam e ameaçavam quem simplesmente parecesse que não apoiava os ideais do seu Messias.
Um dos Vândalos dirigiu-se a um idoso, pequeno, atarracado, que tinha tentado, sem êxito, dirigir-se à enraivecida plateia. Entre a chuva de perdigotos, desfiou insultos e ameaças a um homem que teria pelo menos o triplo da sua idade.
O senhor, amparado num homem bastante mais novo que o tentava arrastar para fora daquele cenário dantesco, encheu o peito encolhido, cresceu 20 centímetros, acendeu os olhos e perguntou ao rufia: “Você é mais benfiquista que eu?” Perante o linguajar estéril, mas com convicção em perda, do outro, insistiu: “Você é mais benfiquista que eu?” O silêncio furioso deu-lhe espaço para o remate final: “Então cale-se!”
E o senhor saiu, agora parecendo que era ele que amparava o homem mais novo.

A sua atitude mostrou que o benfiquismo é bastante mais do que colocar cachecóis ao pescoço e entoar cânticos importados. Benfiquismo é um conjunto de valores centenários que passam pela honra, integridade e liberdade, e cuja defesa não dispensa coragem moral – e, por vezes, física.

Aquele Senhor que relembrou (e a alguns ensinou) o que é o Benfiquismo era o Senhor Ferreira Queimado.
Que descanse em paz.

24.12.07

Golpes de pancrácio obrigadosápínticos (MCMIV)

"E sem Quaresma, o FCP é quase tão mau como o Benfica com o Nuno Assis."

FNV in Mar Salgado

22.12.07

Leonardo Lourenço Bastos

Qualquer adepto de um clube de futebol está sujeito a emoções extremas. Esperança, raiva, paixão, ódio, desilusão, saudade, euforia, são-nos injectadas à vez em curtas, mas intensas doses, durante aquela volta e meia de relógio que gastamos semanalmente a admirar milionários em calções.
Para os adeptos do Benfica, tempos houve em que a dose teve um único e contínuo fármaco: o desespero.

A Idade das Trevas benfiquista teve início em 1994 e durou 10 curtos anos de história, mas 10 intermináveis épocas futebolísticas. Primeiro, e de forma marcada, Artur Jorge, mas depois Wilson, Manuel José, Autuori, Heynckes, empurraram o fundo para profundezas inimagináveis até para fantasistas como Tolkien, de tal forma que o Benfica prosseguia em queda livre sem encontrar em que bater.
Os nossos olhos, toldados pela desgraça, até já conseguiam ver potencial em almas futebolisticamente perdidas como Paredão, King, Nelo, Tavares ou Marcelo.
E foi com este Marcelo que, para simplificação de linguagem, vamos classificar como “jogador”, que o Obrigadosápinto se apercebeu da situação desesperante da então moribunda águia.
Recordemos: em Abril de 96, o Benfica jogou em casa a meia-final da Taça de Portugal com um União de Leiria pré-Mourinho (ou seja, banal). O jogo estendeu-se para prolongamento e foi então que o tal “jogador” marcou dois golos. Um deles um hino ao ridículo, com um remate a um linear metro da baliza que ainda acertou na trave antes de se transformar em dado estatístico.
À saída, adeptos houve que foram apitando pela cidade. Já se comemorava uma presença numa final da Taça de Portugal, após bater uma equipa medíocre, devido aos esforços de um “jogador” que só por militante sadomasoquismo se deixava vestir de encarnado.
Mas a humilhação subsistia: no final da época, uns já doentes terminais de desespero abriram uma conta para recolher donativos para um movimento “Fica Marcelo”.

Dificilmente se encontraria personagem menos indicado que Marcelo para uma causa desse tipo. Mas fosse o Obrigadosápinto adepto de outras cadernetas que não de cromos da bola e até iria à Caixa Geral de Depósitos abrir uma poupança para investir na permanência daquele a quem apelidaram de Léo.

Há quem, erradamente, classifique Léo como um jogador “à Benfica”. Jogadores “à Benfica” são os Ângelos, Álvaros e Petits desta vida, que, à falta de um pingo de talento para tocar com os pés em objectos esféricos, se dedicam a produzir suor com intensidade fabril. E, no meio de toda a pele (deles e dos adversários) que deixam em campo, lá aprendem a fazer um ou outro passe em condições. Mas, não nos interpretem mal, são eles os baluartes da cultura benfiquista, os “self made men”, símbolos da superação humana, os Davids que uma vez por outra lá derrubam um Golias.
Léo não é, como dissemos, um jogador “à Benfica”. É também um jogador “à Benfica”. Porque além do suor que ele não regateia, exala aromas perfumados com as mais sublimes fragrâncias do saber jogar à bola. Léo sabe quando correr ou parar, passar curto, sempre rasteiro, ou longo, sempre certeiro, driblar, com qualquer pé, ou cruzar, para a área ou para trás.

Perante a certeza da imprensa da saída de Léo, confessamos que o Benfica-Amadora não nos mereceu grande atenção. 3-0 num jogo cuja importância, por uma vez, foi largamente ultrapassada pela flash-interview em que Léo nos disse que falou com o Presidente e que, afinal, há hipóteses de ficar.

No Obrigadosápinto esperamos que assim seja. Até porque, hoje em dia, abrir conta num banco é uma grande maçada.

(SLB, 3 - Estrela da Amadora, 0)

16.12.07

La mala educación

Os resultados de uma sondagem indicaram que os pais contemporâneos incluíram “jogador de futebol” entre as profissões que queriam que os seus filhos adoptassem. É fácil de compreender: os clássicos “médico” ou “advogado” implicam muito estudo, inteligência q.b. e, acima de tudo, demasiado tempo até se ver a cor do dinheiro. Com sorte, um futebolista tem o primeiro ordenado aos 16 anos e a independência financeira (dele e da restante família) aos 20.
Um filho no futebol e todos os sonhos familiares se cumprem: a carreira de empresário do pai, a casa à beira-mar da mãe e a loja de roupa (perdão, de moda) da irmã.
É, por isso, cada vez mais fácil aos clubes de futebol “raptarem” adolescentes habilidosos à sua família, integrando-os nas suas auto-denominadas escolas.
Os clubes passam a tratar da saúde, higiene, alimentação e educação dos petizes. Se pensarmos bem, trata-se de algo que as conservadoras famílias britânicas praticam há séculos: o envio dos seus filhos para colégios internos, só para rapazes, com disciplina rígida, campos de relva com fartura e visitas à família apenas nas épocas festivas. Troquemos Ascot por Alcochete ou Oxford pelo Seixal e ficamos com uma analogia completa.

Não havendo rankings publicados deste tipo de escolas, há, contudo, resultados que poderemos analisar, nomeadamente as carreiras dos antigos alunos.

O Sporting criou o segundo melhor jogador português de sempre (Futre), o mais regularmente competitivo da época de 90 e princípio deste século (Figo) e o segundo melhor jogador actual (Ronaldo). Mas todos eles saíram do seu clube de nascimento antes da consagração. Ou, numa versão mais cínica, todos eles tiveram que sair para alcançar a consagração. O que isto nos diz sobre o tipo de educação da Academia Sportinguista? Educação escandinava, claramente. Cedo são “atirados às feras”, para aprenderem a viver longe da asa materna. Futre, Figo e Ronaldo estrearam-se cedo, todos por volta dos 18 anos na equipa sénior. Depois, são motivados pelos pais a sair de casa e ir à vida deles. Ou ameaçando-os com castigos (empréstimo à Académica), cortando-lhes na mesada (baixo salário) ou por outro pretexto qualquer (primeira proposta de 7 dígitos).
Como qualquer descendente de uma família escandinava, os jogadores de matriz sportinguista guardam pouco afecto à sua casa, não se coibindo de comemorar os seus desaires, ou de se aliarem a famílias rivais.

No Porto a educação é diferente. É educação à “bairro da lata”, onde os miúdos não vão à escola porque têm que ajudar a sustentar a família. Aprendem a contar com o avô diabético, a escrever meia dúzia de palavras com o tio, quando este está em liberdade condicional, e aprendem, sobretudo, a sobreviver, durante o dia enquanto fogem dos putos mais velhos e à noite do pai alcoólico. Naturalmente, são personagens de Ettore Scola. Tipos raivosos que devolvem na idade adulta as agressões sofridas na infância, especialmente aos afortunados “betinhos” (Bruno Alves a agredir o Nuno Gomes o ano passado, ring a bell?).
João Pinto, Fernando Couto, Jorge Costa, Paulinho Santos, Ricardo Costa, Bruno Alves… um pelotão impressionante de Feios, Porcos e Maus. E Vítor Baia, poderão perguntar, onde é que encaixa nisto? Simples. É o puto esperto, o caso de sucesso do bairro da lata que todas as mães apontam aos filhos que acabam de se iniciar na droga, a excepção que confirma a regra.

Para tristeza do Obrigadosápinto, é no Benfica que se encontra a pior educação. É a do pai frustrado, que estoirou a fortuna dos avós em negócios inviáveis, que descarrega toda a sua fúria no seu filho primogénito. Quer que o seu filho seja tudo aquilo que ele não foi mas, para isso, coloca-lhe todos os obstáculos possíveis e tenta humilhá-lo sempre que pode, porque é assim que ele se fará homem. Quando lhe dá uma hipótese e o filho se safa, lá vai ele para o banco, para ganhar humildade (como o Moreira). E se ele, apesar disso, continua a querer jogar, vamos castigá-lo, enviando-o para a equipa B (como o Maniche). A maior parte dos filhos do Benfica tornam-se nuns indigentes futebolísticos, perdidos nas ruelas das divisões secundárias. Bizarro, Abel, Valido, Resende, Edgar, Bruno Caíres… nem esperanças os deixaram ser. Casos de sucesso, nos últimos 20 anos, apenas dois: o Rui e o fdp.
Mas apenas tiveram sucesso porque, quando meninos e moços, no Benfica estava Eriksson. Um escandinavo, lá está.

Promessa ou ameaça?

"Não vamos ficar por aqui"

Luis Filipe Vieira, in Mística

O cosme é dantas

Basta pum basta!!!

Baste de escrever quando o Glorioso perde, que é só o que o Cosme faz!

Um blogue que consente deixar-se representar por um Cosme não é benfiquista

Abaixo o Cosme!

Morra o Cosme, morra! Pim! (epá, morrer não, que se aleije, pronto)

Um blogue com um Cosme a cavalo é um burro impotente!

Um blogue com um Cosme ao leme é uma canoa em seco!

O Cosme é um cigano! (mas se fosse o Quaresma não havia problema, até para lhe partir aquele pézinho de merda, que marca golos ao Glorioso)

O Cosme saberá gramática, saberá sintaxe, saberá de futebol, saberá de hóquei em patins, saberá tudo menos escrever quando o Glorioso ganha que o único que ele faz!

O Cosme pesca tanto de vitórias que até faz posts quando o Glorioso não ganha, o que é contra-natura!

O Cosme é um habilidoso! (mais de 300 toques!)

O Cosme usa ceroulas de malha! (mas só quando faz frio)

O Cosme especula e inocula os concubinos! (concubinas, "nas"!)

O Cosme é Cosme!

O Cosme é Cosme!

Aleije-se o Cosme, aleije-se! Pim!



P.S. O Homem-Aranha agarrava aquela!

(Belenenses, 1 – SLB, 0)

10.12.07

Causas primeiras

O segundo golo do SLB contra a Académica agitou e emocionou o Obrigadosápinto, fazendo-o, inclusive, saltar do sofá de forma ligeira. (No que diz respeito à sua vida interior, porém, foi o tumulto.) Léo, Binya, Petit, Léo, Nuno Gomes, Léo, Cardozo – sete passes, tudo ao primeiro toque (aliás, quase; diabos te carreguem, Petit, por precisares quase sempre de ajeitar antes de passar), golo.

A jogada ao primeiro toque é quando é mais belo ver futebol: não há tempo para pensar no que pode acontecer a seguir, a informação visual, não filtrada, entra como uma bala no córtex de quem vê, a reflexão é coisa de milissegundos e não chega a tornar-se consciente, o desfrute do prazer é imediato. Na jogada ao primeiro toque, os jogadores envolvidos provam a viabilidade da telepatia, estão a ajudar a materializar um devir que os transcende, no seu harmonioso trabalho em conjunto realizam a utopia socialista, ultrapassam a dualidade corpo-alma, são todos eles instinto. (E como o Obrigadosápinto aprecia voltar à megahipérbole, como se sente confortável no seu regaço.)

Por muito que se queira negá-lo, as preocupações da humanidade relacionam-se sobretudo com as causas primeiras, com o ur, e daí o fascínio pela jogada ao primeiro toque.

Que é, também, como a resposta pronta que se dá a quem nos manda uma boca: nada nos faz sentir melhor connosco próprios, pouco nos faz sentir pior do que quando não nos lembramos do que dizer e somos forçados a retirar-nos, com o orgulho ferido, sentindo os olhares de todos sobre nós e levando o desaforo para casa. O Obrigadosápinto, por exemplo, é um verdadeiro especialista em saber qual a resposta perfeita a dar em todas as situações possíveis; infelizmente, só a imagina seis horas depois de lhe mandarem a boca, e normalmente já aninhado nos lençóis, no conforto e segurança da sua própria casa.

A jogada ao primeiro toque, porém, é não só a reificação instantânea da possibilidade da espontaneidade, a boca mandada na altura certa, como também é tão criativa que quase não se acredita que não seja ensaiada. No fundo, aponta para uma realidade a priori fundamentalmente sadia, para a bondade instintiva que nos ficou do Pays de Cocagne. Contudo, é precisamente o seu desrespeito pela intermediação racional que faz o Obrigadosápinto preferir, quando joga à bola, dar dois ou três ou quatro toques na bola antes de a passar a um companheiro. A bola nem sempre lhe sai com boa conta.

O terno retorno

Durante muito anos, pelo menos parte do Obrigadosápinto perdia tempo, volta e meia, a defender o Nuno Gomes, um dos maiores jogadores amor-ódio que se lembra de ver passar pelo SLB. Maria Alice, Maria Amélia e muitos outros nomes reveladores da imaginação do homem português já foram chamados ao Nuno Gomes, mas há muito quem o considere um símbolo do SLB moderno. O que, de facto, terá o seu quê de responsabilidade no estado do SLB moderno.

Em 2005, parte do Obrigadosápinto viu a final da Taça na bancada central (consequência do conhecido sangue azul do Obrigadosápinto), tendo assistido, por isso, à subida de uma equipa para receber as medalhas (o SLB, que fez, nesse dia, uma exibição patética, igual a tantas outras desse ano em que ganhou o campeonato) e de outra para levantar a taça (o Setúbal de Rachão, camisa aberta a revelar o fio de ouro com crucifixo pendente que decerto lhe foi oferecido pelo padrinho, a pior equipa que o Obrigadosápinto já viu ganhar a Taça, que, inclusive, levaria cinco ou seis do Estrela de 1990).

Quando a equipa do SLB descia para o relvado, o Nuno Gomes envolveu-se numa discussão com um espectador, ficando furioso e tendo mesmo de ser levado para longe dali pelos companheiros de equipa. A parte do Obrigadosápinto que foi ao Jamor estava longe demais para perceber o que se passou, mas consegue especular, mesmo assim, sobre qual a bottom line que levou ao desaguisado: o espectador que (sem dúvida) ofendeu o Nuno Gomes fê-lo questionando a sua masculinidade (de certeza).

E é este, no fundo, o problema do Nuno Gomes: é demasiado bonito para alguma vez ser consensual ou sequer aceite pela maioria dos benfiquistas. A pele dele é demasiado esfoliada, e os traços do seu rosto, que até podem ser descritos como ligeiramente femininos, são tudo aquilo de que o benfiquista médio se lembra, quando chega a hora de atribuir culpas depois de uma derrota ou empate.

Este axioma está metaforicamente contido no facto de o Nuno Gomes ser, juntamente com a Sandra Cóias, “embaixador” do perfume Unum, a fragrância do SLB. Parte do Obrigadosápinto não usa perfume, mas consegue adivinhar que o Unum terá um odor moderno, leve, fresco – e é por coisas deste género que o Nuno Gomes também não se ajuda a si próprio: usasse ele Old Spice depois de fazer a barba ou espalhasse um Brut, talvez até um Jovan Musk Oil, no peito e nos punhos, os benfiquistas perdoar-lhe-iam tudo mais facilmente.

“O futebol não é para meninas”, gritavam, no báratro asfaltado do recreio ou no terrulento de um pelado, a parte do Obrigadosápinto (enquanto esta se contorcia com dores após sofrer uma entrada com o pé à altura do pente), e é precisamente a feminilidade aparente do Nuno Gomes que é o problema, não o facto de ele jogar melhor com outro ponta-de-lança, mais à frente ou mais atrás, com flanqueadores ou sem flanqueadores, de ter ou não saudades do Brian Deane. Que benfiquista – talvez sem o prazer com que o fazem sportinguistas e portistas – não fez já, afinal, uma imitação do Nuno Gomes a pôr o cabelo atrás das orelhas?

Um homem de 1,81 metros e 76 quilos que foge do contacto, um avançado que pensa como um médio de ataque, que tabela melhor do que chuta, que usa a cabeça sobretudo para pensar futebol e não para cabecear – como é que o benfiquista médio o poderia aceitar como um dos seus avançados míticos? Ao Obrigadosápinto, apetece-lhe invocar, por momentos, o espírito futebolístico do Nené, que sofria da mesma falta de agressão masculina e, sendo muito melhor do que o Nuno Gomes, o mesmo abuso por parte dos adeptos.

O futebol não é para meninas, relembra parte do Obrigadosápinto com alguma tristeza, não só esperando que o SLB um dia abrace o futebol feminino, mas também que os benfiquistas evoluam o suficiente para perceberem que a ulterioridade dos motivos que os levam a falar mal do Nuno Gomes diz mais sobre eles do que sobre o Nuno Gomes. A afirmação da masculinidade é, bem vistas as coisas, tão importante para o adepto médio do futebol como o não-tão-ocasional comentário racista, e a maledicência e o boato em Portugal, vejam-se os casos do Mourinho, do Calado ou do Sócrates, são sempre feitos pondo em causa a assumida orientação sexual do visado.

No SLB, a competência ou o mérito acabam por ser relativos, com algumas excepções, se o jogador não é um exemplo de virilidade a jogar, não faz carrinhos capazes de fracturarem os ossos de vários jogadores da equipa contrária em simultâneo e não corre atrás de bolas que, 20 metros à sua frente, estão a um metro de saírem de campo pela linha lateral. (Isto não é de somenos: o Petit, por exemplo, tem crédito ilimitado à conta disto, mesmo se, quando chegou ao SLB, desequilibrava constantemente a equipa com correrias sem sentido.) Se, além de não fazer isto, tiver uma carinha laroca, soam as trombetas.

Na Luz, então, é como uma doença – o que mais uma vez se provou esta época: o Cardozo, apesar de alto, é macio como algodão doce, e não o avançado grande, bruto e desdentado por que sempre anseiam os adeptos do SLB, esperançados em verem no relvado o tal avançado que ganha todas as bolas de cabeça, que obriga todas as equipas a terem de jogar com três centrais só para o pararem (o que nunca acontece), que se limita a sacudir o pó dos ombros após cada entrada assassina, que, se encontra o Pedro Emanuel perto de si na marcação de um canto, o faz desandar com a mera frieza metálica do seu olhar.

Que me lembre, aliás, ele nunca existiu no SLB ou em qualquer sítio que não nas divisões inferiores do País de Gales.

Já o adepto que quer um homem-homem para o ataque do SLB povoa Portugal: pode ser visto a cuspir para o chão nas ruas de Gondomar; a chamar nomes no trânsito na rotunda de Algés; a fumar com um bebé ao colo em Santarém; a comover-se, no recato da sua casa em Peso da Régua, com um filme em que o Chuck Norris salva uma criança que perdeu os pais; a voltar bêbado para casa em Valongo; ou a dizer “um homem é um homem, um bicho é um bicho”, em Canas de Senhorim, enquanto vê o José Castelo Branco na televisão de canto no café. Na verdade, o Obrigadosápinto crê que, para muitos homens assim, o Nuno Gomes inspira medo por ser uma sublimação de desejos profundos, uma ameaça de que algo latente saia do armário.

No jogo com a Académica, o Nuno Gomes esteve nos três golos: obstruiu o guarda-redes no primeiro, criou o espaço para a jogada do Léo no segundo (mercê de uma tabela, arte na qual é o melhor avançado português dos últimos 25 anos) e fez um cruzamento para o terceiro que o Luís Filipe apenas consegue ver em fantasias que terminam com a correcção do seu estrabismo por um oftalmologista renomado.

Como tantas vezes, claro, o Nuno Gomes não marcou, demonstrando sempre mais vontade de passar a bola do que de falhar mais um golo (como, de forma indigna, fez logo no primeiro minuto do jogo com o Porto). E é por isso que ele nunca chegará lá, é por isso que tudo o que ele faça nunca será o suficiente, é por isso que nunca será o tal. Será como sempre foi: médio, às vezes médio-alto, não o símbolo que dele os dirigentes querem fazer, mas longe de ser a razão de todos os males do SLB.

Apesar de apreciar as suas qualidades de futebolista – e menos as suas de avançado –, esta parte do Obrigadosápinto tem de admitir que já não defende o Nuno Gomes como dantes. O facto indesmentível, afinal, é que ele joga futebol de forma cada vez mais amaricada e cada época foge mais da mera possibilidade de encontro físico com um qualquer rude central adversário. Esta parte do Obrigadosápinto atribui a culpa ao seu segundo casamento: agora matrimoniado com uma advogada de boas famílias que decerto lhe contra-indica que meta o pé, o Nuno Gomes terá decerto perdido a bravura que nascia do temor do que lhe aconteceria se não marcasse um golo para dedicar, beijando a aliança, à Isméria. Esta parte do Obrigadosápinto compreende esse temor.

(SLB, 3 – Académica, 1)

9.12.07

"Luís Filipe foi noticiado como estando referenciado no Vélodrome"

Na Luz, Luís Filipe já está completamente "referenciado".


6.12.07

É preciso ter laca

Octávio Machado inundou os nossos indefesos ouvidos com denúncias de um sistema Matrixiano que dominava o futebol. E nós, insistia ele, sabíamos do que ele estava a falar.

Na verdade não sabíamos, não sabemos e, no Obrigadosápinto, não queremos saber.

Para nós o futebol é a actividade que consiste em alinhar 11 jogadores em cada metade de um grande rectângulo relvado, tentando-se acertar com uma bola numa rede segura por uns paus.

Tudo o que se passe em balneários vaporosos, escritórios escuros, hotéis movimentados e restaurantes à beira-mar é tema para quem não utiliza o tempo para desfrutar do futebol.
Não nos interessa, por isso, o grau de veracidade do que José Veiga veio agora afirmar. O que poderemos adiantar é que José Veiga continua a ter falta de lata e excesso de laca.

Vocês sabem do que estamos a falar.

4.12.07

Uma vitória infantil

O lado infantil dos adultos merece aclamações, sonetos, refrões, prosas, pinturas quando não hossanas. Desde a rebeldia infantil de James Dean até à visão de criança de Spielberg, passando pelo erotismo lactente de Dali, ser miúdo é uma bênção em qualquer actividade que possa merecer o epíteto de arte.
Mas não no futebol. No futebol ser criança é pecado. "Infantil" é insulto e precede sempre o "erro". A intensidade desta forma socialmente aceite de pedofobia é de tal ordem, que os jogadores mais jovens são apenas dignos de elogios quando lhes são reconhecidos sinais de maturidade.
O que é considerado como uma bênção para qualquer arte, não pode encontrar excepção no futebol. E, obviamente, não encontra.
O abençoado Benfica 2007 é um conjunto de crianças que poderiam trocar um campo de futebol por um parque infantil sem qualquer esforço de adaptação. As correrias frenéticas de Nélson, os dribles excessivos de Di María, a desfaçatez das finalizações de Cardozo ou o egoísmo de Rui Costa, podem ver-se em qualquer brincadeira de qualquer pátio de qualquer escola primária.

E foi com correrias frenéticas, dribles excessivos e finalizações com desfaçatez que o Benfica ganhou em Donetsk (ou "Dounéte", na versão Pedro Gomes da TSF).

Ao ver os jogos deste Benfica, o Obrigadosápinto sente-se como um pai da Opus Dei, vendo os seus 11 filhos a brincar num qualquer jardim. "Não corras para longe, Nelson!"; "Empresta a bola aos outros meninos, Rui"; "Não empurres a menina, David."
E, apesar do cansaço provocado pelos constantes alertas, aflora um sorriso paternal na nossa face. Porque ser pai, mesmo de miúdos tão mal comportados, acaba sempre por ser recompensador.

(Shakhtar Donetsk, 1 – SLB, 2)

3.12.07

O Homem-Aranha para guarda-redes do Benfica

Não se passou nada.

Sábado foi um não dia marcado por um não jogo, que não foi jogado por ninguém de encarnado. Triste sina do Cosme de começar em tão nefasta não data.

Sábado, o Cosme andou a ver elefantes cor-de-rosa a voar e uma equipa à nandinho no relvado.

Se realmente tivesse existido um jogo, teria sido palco da habitual segurança do Joaquim Silva que defende o alvo dos adversários do glorioso. Tem aquele costume irritante de estar sempre no caminho da bola, sinal de que sabe do seu mester. Outros dizem que se limitou a ter sorte nos últimos 20 anos, mas que qualquer dia isso desaparece. Os mesmos que dizem: “Epá, outro guarda-redes qualquer tem uma impulsão de 3,5m. E em repouso!”

Deve ser o único gajo que é criticado por não ter poderes sobrenaturais.

O Cosme vai iniciar uma petição:
O Homem-Aranha para guarda-redes do Benfica!


(SLB, 0 – Porto, 1)

2.12.07

A necessidade de o Camacho ser 99% perspiração

O Obrigadosápinto pôde confirmar duas coisas durante o jogo de ontem: a) o facto de o Porto ser a única equipa no universo capaz de o fazer ficar indisposto; b) o seu desejo ardente de que o treinador do SLB deixe de-uma-vez-por-todas-por-amor-de-Deus-coño de se armar em Almodóvar e volte a ser Manolo.

O Obrigadosápinto está bem ciente de que elaborar esta visão redutora, tipo yin-yang, de todo um país apenas para fazer uma graçola é algo de fundamentalmente errado e pode até ser visto como ligeiramente xenófobo, mas quer afirmar, em sua defesa, que o Camacho podia perfeitamente ser um taberneiro beirão. Ou transmontano. Ou ribatejano.

Porque é que não ponho o Jesus a jogar? Para ponta-de-lança, acho-o muito defensivo.

O Obrigadosápinto admira os jogadores que são diferentes dos outros (mesmo quando não são melhores do que os outros) e é tão apreciador dos grandes craques como qualquer pessoa. Porém, nos tempos em que seguia o Milan, já depois de ter seguido a Fiorentina, sempre nutriu um ódio secreto pelo Kaká por ele ter tirado a indiscutibilidade ao Rui Costa (e por ser um fundamentalista religioso, também). Depois do jogo de quarta-feira, porém, o Obrigadosápinto confessa que ficou chocado com a capacidade de acelerar com a bola no pé do Kaká (já conhecia a sua inteligência a passar e a mover-se em campo e a sua capacidade de remate) e percebe que foi essa a razão por que ele passou a ser titular em vez do Rui Costa. Por enquanto, o Obrigadosápinto consola-se em imaginar como será o Kaká quando tiver 35 anos, e a sua velocidade o abandonar. Aí, o Obrigadosápinto verá se Jesus o salva.


Psicologia metaforense (questões de sexo e não de sexismo fazem com que este ensaio aborde a relação pai-filho e não pai-filha)

Carregando o lastro de ser agora, ao mesmo tempo, uno e trino, o Obrigadosápinto, também por causa deste peso extra, só hoje conseguiu escrever sobre o jogo com o Milan. Sendo três pessoas distintas que, afinal, são uma só e uma pessoa que se divide em três, a confusão ontológica que lhe foi criada por esse facto ajudou, também, à morosidade do Obrigadosápinto.

Pegando neste seu novo estatuto, o Obrigadosápinto poderia, inclusive, fundar uma seita, mas o jogo com o Milan fez antes os seus pensamentos encalharem por completo noutro tipo de sacerdócio. Não sendo, naturalmente, um freudiano (até porque aceita o Rui Costa como fazendo parte de estruturas da psique que são partilhadas por toda a humanidade e encontra a figura dele, por exemplo, em diversos mitos e lendas, formadores ou não), o Obrigadosápinto não deixou de ver o jogo do SLB com o Milan pensando na interpretação psicanalítica do Oἰδίπoυς τύραννoς.

O Obrigadosápinto, a quem incomodam as manifestações forçadas de fair play, confessa que não gosta de ver as equipas entrarem juntas em campo. Sendo uma pessoa pacífica, embora com garra, de alguma forma sente falta do elemento tribal do futebol do passado, quando as equipas entravam em campo sozinhas e se ouvia o tipo de assobiadela que hoje desapareceu dos estádios. É compreensível, uma vez que, naquele momento em que se subiam as escadas ou se saía do túnel, as atenções de toda a gente estavam viradas para um único objecto, ou a equipa da casa ou a equipa de fora, e não havia cá ambiguidades. (Os árbitros, esses, esses sempre sofreram.)

Com o Milan, não foi tanto que o SLB tivesse entrado em campo lado a lado com o adversário – foi mais tê-lo feito de mão dada, como um filho que passeia com o pai. E é aqui que se vai basear o regresso do Obrigadosápinto a geniais, mas entediantes, metáforas.

Nos primeiros 15 minutos do jogo, aquilo a que se assistiu foi, na verdade, à completa infantilização do SLB, que, como um filho demasiado respeitoso, foi incapaz de dizer ao pai que quer viver a vida (jogar o jogo) nos seus próprios termos. Imagens de incontinência SLBiana causada por temor ao pai entravam e saíam da mente do Obrigadosápinto.

O desenrolar do jogo até ao golo do Pirlo foi espinhoso para o Obrigadosápinto, que via o SLB assumir-se de forma voluntária como uma equipa da II Divisão, talvez mesmo da II B, europeia, tal era a quantidade de éter que parecia separá-la da do Milan. Voltando ao mote, era como quando uma criança joga à bola com o pai e lhe tenta tirar a bola, e ele nunca deixa, fazendo a criança – que, por sê-lo, só tem olhos para a bola – correr atrás dela em círculos fracassados. (O que o pai não sabe, claro, é que a raiva e a frustração, que tantas vezes acabam em lágrimas e ranho, sentidas pelo filho se acumulam, se misturam com o medo e dão origem a uma vontade de poder, ao desejo de suplantar o pai – de lhe tirar aquela bola. O pai é, afinal, um obstáculo à concretização do desejo do filho.)

A naturalidade com que surgiu o 0-1 foi uma ofensa a tudo o que o Obrigadosápinto representa, já que o Milan estava a tratar o SLB como uma equipa de juvenis trata uma de infantis. Um momento, porém, serviu para mudar o jogo todo, o momento em que o SLB matou o pai. Metaforicamente, claro.

Claro que todos os jornais o identificaram como sendo o do golo do Maxi Pereira, mas faltou-lhes subtileza analítica; o momento em que o SLB ultrapassou o medo da castração pelo Milan foi um choque do Gattuso com o Petit em que quem ficou no chão foi o Gattuso. Na colisão, tão arrepiante como o nanosegundo de silêncio que se segue a uma travagem brusca de um carro, mesmo antes do impacto, quem teve de cerrar os dentes para se pôr de pé não foi o filho, mas sim o pai.

O Petit e o Gattuso são, claro, dois duros do futebol moderno (a ênfase, aqui, deve ser colocada em “moderno”, pois aqueles que acusam o Petit de ser açougueiro não se lembram do André, do Rui Filipe, do Paulinho Santos ou, no SLB, do Nunes), mas o facto de o primeiro ter sido mais duro que o segundo empolgou toda a equipa do SLB, fê-la concretizar a aspiração de infância de mandar o pai ao tapete e ver que este não era mais do que um velho (no caso do Milan, então, não há aqui qualquer metáfora).

Em termos simbólicos, pois, o pai estava morto, e o SLB libertou-se e fez uma exibição que não chegou para ganhar, é verdade, mas que foi empolgante. O Obrigadosápinto só pede, agora, que o SLB não se assuste com a enormidade do acto por si cometido e não reprima o que levou à sua geração, passando, como tantas vezes acontece, a identificar-se com a figura do pai. A emancipação conseguida frente a uma equipa como o Milan pode dar frutos muito doces para quem, como o Obrigadosápinto, às vezes se cansa de jogar bem e não ganhar.

Voltando ao mote, o Obrigadosápinto espera ainda que o SLB consiga continuar na UEFA, pois teme que a equipa entre em prolongado estado de depressão se tiver de voltar a fazer torneios no Dubai e a passar solitárias noites de semana em casa, em frente à televisão. A actividade física liberta endorfinas, úteis no combate a depressão, o que talvez seja melhor que o divã.

(SLB, 1 – Milan, 1)