A A5 estava completamente parada devido ao encerramento da faixa direita (que bela analogia com o estado do país poderia aqui apresentar, mas neste bloguededicamo-nos a uma causa maior).
Era essa, segundo a imprensa, a dúvida de Quique: encerrar a faixa direita (com Amorim) ou acelerar o trânsito (com Reyes). Quique escolheu Reyes e mais dois canhotos para acompanhar Aimar no ataque, num 4-4-2 de papel, porque na relva foi um 4-2-4, dada a fogosidade (há também quem lhe chame indisciplina táctica) dos dois extremos.
Eu gosto de dois tipos de futebol: – Aquele comummente apelidado de científico, mecanizado, cínico, ou outro qualquer insulto mascarado de adjectivo, que resulta de muita pestana queimada e voz enrouquecida para colocar em prática muito estudo, numa actividade cuja arte e precisão encontra apenas paralelo no que sai das mãos de um ancião relojoeiro suíço. Estou-me a referir ao futebol de qualquer equipa de Capello ou de qualquer equipa alemã (selecção, naturalmente, incluída) dos anos 80 e princípios dos 90. – E o seu directo inverso, o futebol desbragado, inconsciente, inconsistente, louco, frenético e normalmente ineficaz, extraordinariamente exemplificado no Everton dos anos 80 ou no Benfica 93/94 e que o nosso imortal Ângelo – exemplo acabado do jogador à Benfica – apelidava, simplesmente, de “ir para cima deles”.
E no sábado “fomos para cima deles”. Mesmo depois do abraço de Katso a Lucho (merecido, pelo sempre maravilhoso futebol deste argentino), continuámos a “ir para cima deles”. Com cruzamentos, remates e cantos. O Porto, esse, jogava em contra-ataque, como há muito na Luz não jogava. O golo apareceu, numa cavalgada à Futre do Fernando Aguiar com pés, porque “eles não saíam de baixo de nós”. Depois, o meio cérebro do grego deixou de funcionar e fez o que a todos de vermelho no estádio apetecia fazer: arriou uma vistosa sarrafada no Rodríguez e o jogo acabou. O Porto, o favorito (porque manteve o Lucho), o estruturado (porque manteve o Lucho), o campeão em título (porque teve o Lucho) não conseguiu marcar um golo a uma equipa que alinhava com 6 jogadores (se considerarmos apenas os jogadores com um mínimo de 30% da sua capacidade física inicial).
Em resumo: talvez inspirados pela presença de Vanessa Fernandes, os nossos ladsapostaram no triatlo: primeiro meteram água, depois fartaram-se de pedalar e depois arrastaram-se penosamente até à meta.
Excelentes indicações vi eu naquele Inferno (que, desta vez, até contou com a presença de um Demo de carne e osso e tudo):
– Uma equipa irresponsavelmente empolgante, que tanta excitação e maus resultados nos vai dar;
– O Quim a sair da baliza e a agarrar ou socar as bolas (pareceu mesmo um guarda-redes);
– Um Porto com mais respeitinho e com um Lisandro que já saiu da fase Acosta (se não perceberem esta, escrevam que eu explico).
E se isto (ainda) não for suficiente para animar as hostes benfiquistas, pensem nisto: segunda jornada e estamos apenas a 2 pontos do Porto. Temos ou não o título ao nosso alcance?
As equipas fazem o pior jogo da temporada (ou segundo pior) contra a equipa do Demo.
A equipa vestida com o uniforme dos residentes do linhó põe em campo um bando de putos que joga bem à bola e ganha a equipas vindas da Trofa, Sarilhos Grandes ou Gáfete.
O glorioso joga malzito, empata com equipas que foram esmagadas pelo Gafetense, e os jogadores parecem as baratas de Beni-Melal. Tontas e a importunar o Tó Portela.
Dirija Santos, Koeman ou Quique, organize Iliev, Rui Costa ou Aimar, tente marcar Pringle, Nuno Gomes ou Cardoso, A Angústia do Benfiquista Antes da Primeira Jornada apenas se compara com A Angústia do Benfiquista Depois da Primeira Jornada. Nem tudo foi mau, o Quique, ainda pouco habituado às tradições portuguesas, ignorou o árbitro, a equipa jogou malzito mas não horrivelmente e o Nuno Gomes marcou o seu golo anual.
Se as coisas continuam assim ainda ficamos acima do 4º lugar. Mau, querem ver que o espanhol ainda nos deixa mal habituados!?
Três semanas e meia ausente, tanto que se perde, porque o devir benfiquista é ininterrupto. Contudo, há no OSP perspicácia pós-estival suficiente para apregoar que, como um homem que se passeia de sobretudo pelo jardim do Campo Grande em pleno mês de Agosto, o OSP pretende escrever sobre o abandono do João Pinto de forma escandalosamente exibicionista, no caso mostrando o seu conhecimento enciclopédico dos Cahiers du Cinéma. Afinal, só alguém com tal erudição ousaria relacionar o Godard e o João Pinto – e o OSP vai fazê-lo. Afinal, como o professor Von Braun lembra no Alphaville, é possível alguém tornar-se algo pior do que morto, que é alguém tornar-se uma lenda.
Dias tristes para o OSP eram quando o João Pinto, o Menino de Ouro – que é de facto o que ele foi para o OSP e para muitos benfiquistas decentes e com memória –, voltava ao Estádio da Luz e era assobiado, enxovalhado, odiado, como se de um qualquer Vale e Azevedo se tratasse. Isso faria algum sentido, supõe o OSP, quando o João Pinto jogava no Sporting, por razões históricas e essas cenas, mas tornou-se uma infâmia, quando ele veio jogar à Luz pelo Boavista e pelo Braga.
À geração do OSP, o João Pinto proporcionou a melhor exibição de um jogador de futebol que ela já viu (e verá – o OSP crê que se pode dizer isso, também, com toda a presciência) na sua vida. Para quem daqui a muitas décadas leia sobre esse jogo ou veja as imagens do mesmo, o que o João Pinto fez naquela tarde de chuva parecerá uma coisa, mais do que inacreditável, absolutamente irreal, o equivalente ao que hoje se sente quando se vêem imagens de um jogo do princípio do século XX. Naquele dia em que marcou três golos, qual deles o melhor, e deu dois a marcar, o João Pinto transcendeu a arte que então praticava e tornou-se parte, durante 79 minutos, de uma realidade que a maior parte das pessoas nunca conseguirá habitar.
Como o Bacon no estudo sobre o Inocêncio X (ou, para usar um exemplo lowbrow próximo, como o Neo no fim do primeiro Matrix), o João Pinto levantou o véu da maya, conseguiu ver o jogo de futebol para além do aparente. O OSP aposta que, nesse dia, pareceria ao João Pinto que todos os jogadores adversários jogavam, de facto, de tamancos. Foi uma actuação inesquecível, superior, e não apenas para benfiquistas, mas para todos os que gostam realmente de futebol. Estes últimos dirão até morrerem que, na década de 1990, tudo o que era preciso para haver um jogo de futebol em Portugal era o João Pinto e uma bola.
E, nessa breve viagem de impossível repetição, daí o carácter trágico que acabou por assumir a carreira dele no SLB, o João Pinto levou consigo, durante 79 minutos, milhões de benfiquistas, alguns dos quais o terão assobiado, quando ele voltou à Luz vestido de outra cor. Só que quem o fez não se lembrou de que ele não saiu porque quis; não se lembrou da dor que sentiu quando ele, poucas semanas depois de ser corrido do SLB, marcou aquele golo de cabeça à Inglaterra; não se lembrou de que ele foi corrido para o Heynckes ficar; não se lembrou do comunicado que ele foi forçado a ler a seguir a Vigo; não se lembrou de todos aqueles anos a fazer dupla no ataque com o Hassan e o Marcelo e o Mauro Airez e o Cadete e o Pringle; e não se lembrou de que, em meio à Idade das Trevas do futebol português e num SLB desacreditado, ele, que era tantas vezes o único jogador relevante na equipa, levou, à frente de árbitros eminentemente contemplativos, mais porrada do que qualquer outro jogador em toda a história do futebol.
Para o OSP, não há nada mais importante do que a memória, e é por isso que lembrará sempre, mesmo que não o queiram ouvir (o que é mais frequente do que possa parecer, incrivelmente), o grande serviço que o João Pinto prestou ao SLB. Ele era a verdade, e era-o várias vezes por jogo. Inebriado agora pelo mais poderoso dos narcóticos, a sensação de superioridade moral, o OSP censura os benfiquistas que esqueceram tudo isso, contudo mostra-se aberto a reconhecer que o facto de o João Pinto ter andado aos pulos com a Juve Leo, a cantar o “E quem não salta é lampião”, logo na porra do dia em que foi apresentado em Alvalade é bem capaz de ter contribuído para a diminuição da força da paixão wertheriana expressa nos quatro parágrafos anteriores.
Três semanas e meia ausente, tanto que se perde, porque o devir benfiquista é ininterrupto. Contudo, há no OSP perspicácia pós-estival suficiente para o OSP admitir, até ao âmago dos seus terminais nervosos, que as entrevistas televisivas do Luís Filipe Vieira são, na verdade, excruciantes e quase insuportáveis comédias de embaraço, que superam tudo o que o Ricky Gervais alguma vez conseguiu sequer imaginar. E o facto de, a meio de Julho, a Judite de Sousa o ter convidado para uma conversa a dois no ambiente intimista da Grande Entrevista (ao OSP, parece que o Vieira se sentiria mais à vontade se se visse envolto pelo ambiente semitaberneiro que só uma Fátima Campos Ferreira consegue gerar) não é mais do que a prova de que o Fernando Seara está a arquitectar um sórdido plano secreto para vir a ser presidente do SLB.
Na entrevista em questão, mais desconfortável de ver do que um programa de “humor” de hora e meia do Marco Horácio, houve, em resumo, dezenas de silêncios desconfortáveis, bastantes trocas de olhares vazios ou de mero e incrédulo estupor, demasiados paradoxos argumentativos, semânticos e sintáctico-gramaticais, muito terror cénico – e ainda o facto de a Judite de Sousa não perceber nadinha de bola (aí, pensando bem, retrospectivamente o OSP pode dizer que ela estava bem para o Vieira), o que demonstra bem que era de facto o Seara que escrevia as crónicas dela no Record durante o Europeu, em vez de estar a trabalhar, como devia, para resolver os problemas do IC-19.
Seja como for, houve, contudo, uma pérola no meio daqueles três quartos de hora de entrevista (que, se fossem um som, seriam a mistura do guincho de uma chave de fendas enferrujada a riscar um quadro negro e do silvo de uma rebarbadora a raspar numa placa de alumínio) que permitiu que o OSP ficasse a saber, e se sentisse confiante para o anunciar desde já (em primeira mão e tudo), que o Vieira vai ser o segundo maior escritor português da era Gonçalo M. Tavares. É um conhecido adágio literário, afinal, que a história é escrita pelos vencedores, e a literatura, pelos perdedores. Ora, tomando isto em consideração, se o Vieira nunca vier a ser julgado pela história como um vencedor enquanto presidente do SLB, ao menos o OSP vai comprar, sozinho, toda a primeira tiragem da sua autobiografia, quando ele honrar o País com a sua publicação.
Afinal, um homem que é capaz de dizer o que o Vieira disse viu ao que respondem as engrenagens da máquina do destino humano – percebeu algo sobre a natureza das coisas, sobre as pulsões do homem e do mundo, o homo homini lupus em que se sustenta a ilusão chamada sociedade, que o revela como tendo um olhar clínico e frio sobre a realidade que decerto o qualificará como futuro grande romancista. Talvez o naturalista que a literatura portuguesa nunca teve verdadeiramente, à imagem de um Zola, porém pós-moderno, como é óbvio.
E o que disse Vieira? Disse Vieira: "Para ter razão em Portugal, temos de ganhar."Touché, caro presidente, touché. E se é verdade que a verdade de Vieira (e o que é a literatura senão a busca de uma verdade?) não se limita ao que acontece em Portugal, o OSP tem absoluta certeza de que, daqui por 30 anos, as obras do Vieira tardio não deixarão de espelhar isso mesmo.
Três semanas e meia ausente, tanto que se perde, porque o devir benfiquista é ininterrupto. Contudo, há no OSP perspicácia pós-estival suficiente para perceber que duas das coisas mais importantes que aconteceram entretanto foram as contratações do Aimar e do Reyes. E, só pela visão que ambas revelam, o Rui Costa está prestes a demonstrar que ainda agora começou e já é o Michael Phelps do dirigismo desportivo português (e não pelas razões que o vulgo costuma associar ao Phelps). Pouco importa se o Aimar vem para cá cheio de caruncho e se contratar o Reyes implica contratar também, ao que parece, toda a família do gajo, porque o que o Rui Costa fez foi confirmar que é, pelo menos, um vendedor de futuros (tal qual o Phelps). E pouco importa que, no fim de tudo, o Rui Costa se venha, afinal, a revelar como mero vendedor de ilusões (a confirmar, tal qual o Phelps), porque o que ele fez foi provar uma vez mais que é, ao mesmo tempo, gerador e parte do inconsciente colectivo benfiquista, cujo excesso absoluto e por vezes grotesco compreende como ninguém.
Pelo menos o OSP já está cheio de vontade de ir à Luz só para ver o Aimar e o Reyes, e imagina que assim estarão todos os benfiquistas. A expectativa em relação a mais este começo, à dor de mais este renascer, tornou-se, como uma coxa trabalhada pelo Pako Ayestarán, eminentemente palpável. E é isso que o Rui Costa está a anunciar aos benfiquistas – se bem que por outras palavras, como é natural. Desta vez, contudo, é importante notar que não se trata de uma expectativa como a do ano passado em relação ao Adu, que chegou cá coberto de hype sobretudo por ser o melhor e mais regular jogador da história do Championship Manager, ou como a de há sete anos em relação ao Zahovic, então o ápex absoluto da equipa-maravilha (o OSP sente-se compelido a confessar que experimentou um não-tão-pequeno-quanto-isso episódio de refluxo gastroesofágico ao escrever sobre o Zahovic); não, desta vez o Aimar vem como antigo titular da selecção argentina, como antigo 10 da selecção argentina, e o Reyes como um gajo por quem o Wenger, um conhecido forreta com algum jeito para ver talento futebolístico jovem, pagou 35 milhões de euros, quando ele tinha 21 anos.
Depois de tudo o que leu e ouviu, contudo, o OSP 1) espera agora que acabem, antes de irem mais longe, as comparações entre o Aimar e o Rui Costa, já que o Aimar é um jogador de último terço, e pura e simplesmente nem parece ao OSP que tenha força para fazer um passe longo à Rui Costa (aliás, é melhor nem o tentar, porque, com o físico que o Aimar tem, decerto a rotura muscular espreita, ansiosa, a toda a hora); 2) e jubila por aquele remate ao poste do Reyes, com o Feyenoord, a primeira vez que ele tocou na bola como jogador do SLB, não ter entrado, porque se teria tornado algo que ele nunca poderia superar, e o notoriamente irracional Terceiro Anel jamais se aperceberia disto e ficaria para sempre insatisfeito com tudo o que ele viesse a fazer daqui em diante. (Por outro lado, até porque veio de um cruzamento perfeito do tão injustiçado Makukula, o OSP tem de admitir que teria sido o melhor golo da história do novo Estádio da Luz. Como é que a merda da bola não entrou...?)
Todas as acções do Rui Costa no mercado têm sido, excepto o arrastar do interesse no Luis García, mas incluindo a dignidade mantida no caso do Rodríguez (e sim, até o ele ter despachado o Petit, como qualquer pessoa que tenha visto a época passada e o Europeu com olhos de ver terá de admitir), passe genial atrás de passe genial, além de que parece haver petróleo na Luz, com tanta contratação na última época (três milhões pelo Maxi fucking Pereira?!?) e nesta. (E o OSP divaga sobre quão melhor tudo poderá ser, quando finalmente acabar o contrato com a Olivedesportos, e treme de gozo só de pensar…) No fundo, confirma-se, como o OSP já disse mais do que uma vezzzzzzzzzz… que tudo que o Rui Costa fazia enquanto jogador era apenas sinal de uma natureza elevada, de uma inteligência então feita cinética, no campo, hodiernamente feita sagacidade e paciência, no gabinete.
E, se o jogador de futebol normal está muito abaixo do que ele era enquanto jogador, o Rui Costa não fica ressentido com isso, nem busca por Espanha pelo mundo apenas jogadores que sejam geniais, como ele foi. Não, o que ele faz é mostrar que descobriu qual o segredo das equipas de sucesso em que jogou (e das que observou de fora, porque o Rui Costa não se pode reduzir ao empírico, é muito mais reflexivo do que isso). Não se trata de fazer equipas-maravilhas ano após ano, trata-se apenas de ter, numa equipa, três ou quatro foras-de-série, e arranjar oito ou sete tipos para olharem por eles. Pela primeira vez em década e meia, parece haver um plano para o SLB, percebe-se que há ali uma ideia. E, no fim de contas, é sempre daí que tudo parte (tal como com o Phelps).
O Rúben Amorim, o Yebda, o Jorge Ribeiro, o Balboa, o Sidnei, o Fellipe Bastos – parecem sólidos, e é só isso que é necessário. Agora protejam o Aimar, o Di María, o Carlos Martins e o Reyes. E, se necessário, podem fazê-lo obrigadosápinticamente, ou seja, com excesso de agressividade.
Os mais atentos dos três ferrenhos visitantes frequentes do OSP terão já percebido qual a lógica por detrás da produção plumitiva do blogue. Ela consiste, sobretudo, em divagar todas as semanas sobre os jogos do SLB, visto que, com a excepção do Padinha, perene e sonhador campeão do defeso, o que interessa ao OSP é o que se passa dentro de campo, sobre a relva. O cheiro a relva é muito importante para o OSP, se bem que não seja tão importante como o cheiro a linimento no balneário.
Ora, nesse compromisso relativo ao relato de jogos do SLB estabelecido entre os membros do OSP, fui eu, Tó Portela, o responsável por quebrar a cadeia narrativa. A cisão ocorreu no último jogo em casa com o Belenenses; era eu que devia ter escrito sobre ele, e não o fiz, mas tenho uma boa desculpa: foi devido a várias ordens de razões. Agora o tempo de escrever sobre o SLB-Belenenses de 26.04.2008 já passou, como é natural, tanto porque a relevância não mais existe, como também porque só o mais autocastigador dos benfiquistas se lembrará do que se passou nesse jogo (o SLB ganhou 2-0, com dois grandes golos, um do Luisão e outro do Cardozo, de livre).
Num medonho insight dos seus processos mentais, contudo, o OSP está preparado para revelar quais os dois temas que teria abordado (de forma absolutamente hilariante, como, aliás, é seu timbre) no ensaio sobre o jogo com o Belenenses. O título do post, cheio de afectação literária, seria dickensiano – “Uma história de dois avançados” –, e depois o OSP encarregar-se-ia de:
1) ridicularizar todos aqueles que dizem que o Cardozo é lento notando que não só ele não é mais lento do que o Magnusson, como, quando corre para marcar um livre junto à área adversária, é tão-só o homem mais rápido em campo (este paradoxo, apesar de remeter quer para questões respeitantes à relatividade da velocidade, tão caras à astrofísica actual, quer para o eterno debate futebolístico velocidade de corrida vs. velocidade de execução (ou do gesto técnico), encerra tal hilaridade que é tão espirituoso agora, três meses depois do jogo, como parecia na altura);
2) fazer um paralelo entre a carreira do Stanic e a do Makukula, que andaram a destruir defesas inteiras nos seus anteriores clubes só para chegarem à Luz e verem o seu jogo ofensivo contrair clamídia (como se fosse hoje, o OSP lembra-se de ter passado o jogo com o Belenenses mais atento ao banco do SLB do que propriamente ao campo, à espera de ver se o abatimento do Makukula teria consistência suficiente para se poder ver pela televisão).
Enterrada, pois, a época passada, que, prenhe como esteve de máriowilsonianismo, foi de facto difícil de viver, resta lembrá-la pelo consolo único (em todos os sentidos da palavra) que proporcionou aos benfiquistas: foi aquela em que, pela última vez, se viu em competição o grande Rui Costa. Este texto pretende, assim, evocar um jogador que, pela sua unicidade, imaginação e inteligência futebolísticas, pelo espírito ao mesmo tempo sublevador e reaccionário do seu jogo, pelo triunfo da subjectividade que foram, afinal, os 18 anos da sua carreira profissional, é a própria essência do que o OSP busca sempre, nem que seja de forma fugidia, quando vê um jogo de futebol. É até bem possível que, sem o Rui Costa, não houvesse OSP (isto tendo presente, como é óbvio, que o Rui Costa não simboliza senão o lado apolíneo do OSP).
O OSP confessa, porém, que os tons celebrantes, de festa, que acompanharam as últimas semanas do Rui Costa o transtornaram bastante, pois não sentia qualquer vontade de festejar. É que é bem possível, afinal, que tenhamos visto um jogador como ele pela última vez. Por isso, por um lado ainda bem que a época do SLB foi de tal maneira má, porque a soturnidade que trouxe consigo é a única resposta possível ao abandono do Rui Costa. Profundamente enraizado na tradição católica portuguesa em que foi educado, o OSP, fatalista, só aceita despedidas trágicas, lutos, não admite que se celebre o que se finou, o que não volta mais. Crê, por isso, que a única maneira de celebrar o Rui Costa no último jogo dele teria sido os benfiquistas irem para o estádio vestidos de nojo, para lhe mostrar o quanto ele significou e o quanto a sua partida não tem remédio.
Para celebrá-lo, temos vídeos, o YouTube, recordações, mas no abandono dele nada havia para celebrar.
E é com recordações dele que o OSP vai glosar a época 2007/08, que será sempre, mais do que dez meses de horrível futebol, a última época do Rui Costa. Agora sim, e para evocar o que ficou para trás na carreira dele, o OSP decidiu publicar uma antiga – e autêntica – troca de ideias no Messenger entre Padinha e Tó Portela (os nomes verdadeiros de ambos foram obviamente alterados para protecção da privacidade e por questões de segurança).
A cena passa-se no princípio de Setembro de 2006, e Padinha procura decidir que prenda de aniversário oferecer a Tó Portela. Em breve o tema degenera para abranger postulações sobre números de camisolas, questões de identidade na sociedade moderna, a intensidade da experiência religiosa, permanentes, depilação masculina, a dicotomia Bem-Mal (ou Rui Costa-Figo) e a unicidade da criação artística. Tudo porque o Rui é grande, contém multidões.
(sobe o pano)
Padinha says:
já agora: a tua wish list de camisolas da bola está completamente desactualizada
Tó Portela says:
o quê?
Padinha says:
as referências da Toffs mudaram, e há camisolas que os gajos não têm (Bayern, Flamengo...)
Tó Portela says:
confio no teu bom gosto. não, espera!
Padinha says:
ena, man
Tó Portela says:
afinal não confio
Padinha says:
espanto, horror!
Tó Portela says:
não, não é isso: é que eu só gosto de camisolas com numeração. tenho de ser eu a ver
Padinha says:
não, não. agora vou-te surpreender
Tó Portela says:
não! sem números, não quero. sem número, fico sem identidade
Padinha says:
como é óbvio: uma camisola sem número não faz sentido. vou ver se há do Benfica com o número do Jorge Soares ou do Garrido
Tó Portela says:
o Garrido, man... quem diria que, depois do Tahar, do Bermúdez, do Paredão, o Garrido havia de ser um dos melhores centrais do SLB dos últimos 20 anos...
Padinha says:
o tempora…
Tó Portela says:
das duas, uma: escolhe tu uma com número, mas que tenha relevância histórica (tipo aquela do Ajax que eu comprei há uns meses, que, sendo dos anos 80, tinha obviamente o 9 do Van Basten); ou então vês as que estão na minha lista que ainda existem e escolhe-las com os números que eu indico
Padinha says:
ok
Tó Portela says:
ainda há bastantes, decerto. ah, e prefiro manga curta, ok?
Padinha says:
ok. e estás-me tu a dizer que a camisa do Ajax anos 80 tinha obviamente de ter o 9?
Tó Portela says:
sim
Padinha says:
olha, pardon my french, mas foda-se! achas que sou um jornalista estagiário de O Jogo, ou quê?
Tó Portela says:
pronto, pronto, não te queria ofender. mas, já que falas nisso, a 3 do Danny Blind…
Padinha says:
só pelo cabelo, vale a pena evocá-lo com uma camiseta. mas a permanente do Blind lembra-me mais camisas de alças. não te posso dar uma camisa de alças
Tó Portela says:
olha, se calhar a do Blind é só dos anos 90
Padinha says:
lá está, metes-te nestes assuntos de especialista, e depois metes água... (mas deixa tudo comigo, caro Tó Portela: vais ter camisolas que farão as gajas virar a cabeça)
Tó Portela says:
obrigado. mas meter água o quê?
Padinha says:
Blind... anos 80...
Tó Portela says:
o Blind, salvo erro, começou como defesa-direito na década de 80. era suplente do Silooy. agora obrigaste-me a ter de ir verificar
Padinha says:
estava eu a dizer, e o meu amigo pelos vistos não percebeu, que dizer a um gajo como eu que a camisa 9 do Ajax nos anos 80 era a mais significativa é quase ofensivo. era tipo pedir a camisa 10 da selecção italiana dos anos 80 – não faz sentido: tem de ser ou a 9 (que seria a minha preferência) ou a 16
Tó Portela says:
vejo-me forçado a revelar, após uma exaustiva busca na confiável Wikipedia, que o Blind chegou ao Ajax em 1986. a tua memória… enfim, a idade não perdoa
Padinha says:
ainda me lembro de quando o Espírito Santo jogava no Benfica
Tó Portela says:
a 9 do Ajax era a mais significativa para mim porque o Van Basten é o melhor avançado-centro, o melhor 9, que já vi. o facto de ter o número dele acaba por ser mais importante do que a camisola. há monges que transcendem o hábito.
Padinha says:
o quê?
Tó Portela says:
por exemplo, quando estive em Florença, vi a túnica do S. Francisco de Assis e, mesmo sendo ateu, senti-me um bocadinho zonzo. o significado histórico daquilo tudo, a relevância mística daquela merda… foda-se, foi esmagador. e, como que a provar que não é a camisola em si, mas aquilo que ela conota, descobri mais tarde que parece que a túnica data de umas décadas a seguir à morte do gajo
Padinha says:
portanto, daqui por uns séculos haverá quem se sinta perturbado e à beira do desmaio quando se vir ao pé da roupa outrora suada do Van Basten
Tó Portela says:
é possível. eu sei que é absurdo (se bem que, se eu fosse religioso, seria um obstinado franciscano), mas é esse o poder das relíquias. quando estive em Weimar, também toquei na escrivaninha do Goethe para ver se passava alguma coisa para mim. sem resultados até agora…
Padinha says:
não custa tentar
Tó Portela says:
entretanto, informo-te de que o Blind se chamava “Dirk Franciscus Blind”. começo a achar que devia ter era pedido a camisola do Blind. sem número, mas a dizer “Dirk Franciscus” atrás
Padinha says:
não sei se as gajas…
Tó Portela says:
mas eu sei que também eras um admirador do Van Basten
Padinha says:
o melhor número 9 de sempre! (o Puskas que me perdoe, e que Deus tenha a alma dele em descanso.) e que eu vi com os meus próprios olhos, meu filho
Tó Portela says:
e não era só por o Van Basten ser bom (e como o era), era sobretudo por ter um estilo de jogar que, quase 20 anos depois, eu ainda não vi outro avançado ter. acho que é isso que faz os grandes grandes: para mim, é 95% uma questão de estilo de jogar. nem que isso implique perder e, mesmo assim, ser lembrado, como dizia o Cruyff
Padinha says:
eu sei, eu sei
Tó Portela says:
o Shevchenko, o Van Nistelrooy, o Shearer? bons, sem dúvida, só que houve e haverá outros iguais ou parecidos
Padinha says:
mas estás errado
Tó Portela says:
ora, porquê?
Padinha says:
a grandeza do Van Basten é que tomava sempre a opção mais certa e eficaz: só driblava, quando era mesmo preciso; só rematava "artisticamente", quando não era possível de outra forma
Tó Portela says:
tu e a eficácia… mas, que eu tenha visto, o Van Basten foi o jogador alto que mais confortável estava com a bola quando a tinha. lembras-te dos vídeos do Jordan, no YouTube, de que te falei?
Padinha says:
sim?
Tó Portela says:
o que me impressiona não é o gajo ser de longe o melhor jogador dos últimos 50 e dos próximos 500 anos; era como ele estava a jogar um jogo diferente do resto dos jogadores. aquilo não era propriamente básquete, era outra coisa qualquer; era outro jogo, eram outras regras, outro espaço e outro tempo – outra física
Padinha says:
bonito. continua
Tó Portela says:
o Figo? sim, muito bom, mas, dez anos depois, aparece o Cristiano Ronaldo, parecido com o Figo, mais apurado, é certo, potencialmente bastante mais completo (também porque têm físicos completamente diferentes), mas, repito, semelhante ao Figo aos 18/19 anos, sobretudo naquela maneira como vão para cima dos laterais da outra equipa. o molde é o mesmo
Padinha says:
o Ronaldo também tem consideravelmente mais acne e muito menos pêlos nas pernas
Tó Portela says:
eh pá, não interrompas a minha flow…
Padinha says:
peço perdão
Tó Portela says:
o Rui Costa? sim, muito bom, mas com uma vantagem: é único. quando voltar a aparecer no futebol português (não, mundial!) um jogador que jogue com a cabeça levantada – não levantada antes de passar a bola, atenção, mas levantada quando a pede, quando a recebe, quando anda e quando corre com ela –, é bem possível que eu já seja velhinho e tenha tido um AVC. é quase certo, aliás
Padinha says: eh pá Tó Portela says:
e porque é que digo futebol mundial? olha, o Zidane pode ser muito bom (e é-o, pois dominou os últimos 7/8 anos da história dos jogadores que vão ficar como referências históricas, se bem que compará-lo com o Maradona, como tantas vezes se lê, seja mais que sacrílego e devesse implicar despejar um cartuchame nas rótulas do gajo que escrevesse isso), mas joga como um touro a investir, cabeça baixa. não consigo achá-lo elegante, não há estilo naquele jogar, apesar de ele fazer o que quer com a bola. ah, e não me venham falar da finta rodopiante à Zidane; já vi gajos no Distrital a fazerem disso (havia um bem jeitoso no Águias de Camarate). e é por tudo isto que o Van Basten é quem é para mim: por ser único. 20 anos depois, ainda não vi um como ele, aquele estilo de jogar é irrepetível. e vai acontecer o mesmo com o Rui Costa. aquela inteligência… foda-se, o Rui não perdeu nada com a idade; quase que me apetece dizer que ele dá esperança a todos os putos que querem jogar à bola e não são os mais rápidos, os mais fortes, pois mostra que a inteligência permite ir longe. o Rui Costa rebela-se contra a ditadura dos fortes – é uma força para a democracia
Padinha says:
estou quase a chorar, man. aposto que nunca ninguém lhe chamou “força para a democracia”. e lembra-te que ele jogou dez anos em Itália sem ter uma finta (tirando a ratada): o Rui Costa não conseguia driblar a minha avó
Tó Portela says:
sábias palavras. entretanto, lembrei-me de uma discussão que tive com o meu pai no Euro 88, pois ele, velha guarda, achava que o Van Basten era macio, e o Bosman uma melhor solucão
Padinha says:
o Rinus Michels também começou por achar. argh! eu, nessa altura, tive uma discussão similar com o meu: ele defendia que o Jêpêpê era melhor do que o Van Basten. até rangi os dentes de raiva, man
Tó Portela says:
lindo, man, lindo!
Padinha says:
o Jêpêpê, man! aquele caralho só sabia correr
Tó Portela says:
aliás, o Samuel secou o Papin na Luz, se bem me lembro. o Van Basten jamais o permitiria
Padinha says:
temos é de fazer aquele blogue sobre futebol
Tó Portela says:
parece-me boa ideia. e aviso-te desde já que o meu post inaugural vai ser, claro, sobre o Rui Costa. como sabes, eu, homem adulto, à época com 26 anos, já pedi ao Rui Costa para tirar uma fotografia com ele, isto enquanto lhe mostrava a miniatura dele que levava na mão. fiquei mais agitado dessa vez, posso garantir-to, do que quando estive ao pé da túnica do S. Francisco de Assis. a minha adoração pelo Rui Costa vai para lá do estilo de jogo dele: é quase mística. ele é o maior homem vivo desde o Gandhi (e como a naturalidade dele contrasta com o pesetero do Figo, que se comporta, tal como o Cristiano Ronaldo, aliás, como se estivesse sempre num anúncio publicitário. há ali demasiado plástico para mim)*
Padinha says:
é a escola lagarta… o Ronaldo pode ser insuportável, mas também é insuportavelmente bom jogador
Tó Portela says:
não, espera, o que é que eu disse? o Gandhi era um racista do caraças, logo o Rui Costa é o maior homem vivo de sempre. e a Rute será sempre a nossa Primeira Dama
Padinha says:
a nossa Rute... pois eu, da minha parte, farei um paralelo entre o Rui e o Chalana: os génios que não marcam golos
Tó Portela says:
estivemos aqui a fazer poesia futebolística, caro Padinha. quem me dera ter o Valdano no Messenger. olha, vou salvar esta nossa conversa.
Padinha says:
ok
* Note-se que esta troca de ideias decorreu antes da mãe e avó de todas as Schadenfreuden.
Pinto da Costa tem um longo historial de roubos despudorados de jogadores ao SLB (com muitos barretes pelo meio mas com Deco e Jardel a dourar a borla) e só uma vez, uma única vez, teve que tragar um sapo em matéria de tráfico de profissionais da bola.
Corria um ano próximo da década de 90, quando o candidato a presidiário se afirmou preocupado com o SLB, dadas as contratações firmadas de Vítor Paneira e Vata. Permitam-me que refresque a memória a quem a tem mais acalorada: Vata militava no Varzim e Paneira no Vizela, então na 2ª divisão. Esta afirmação, como, aliás, todas as que Pinto da Costa profere, maravilharam a imprensa, que implicitamente comparava estes jogadores sem cartel com os tiros mais recentes do Porto na embarcação encarnada : Dito e Rui Águas. Pois bem, Vata concedeu-nos uma Bola de Prata e uma mão de ouro e Paneira afirmou-se como um médio muito respeitável.
Rui Costa anda por esses céus fora em busca de meia equipa. Gabe-se o esforço, saliente-se os milhões dispendidos e anseie-se por pontaria certeira.
Mas para o ano, não gostaria de ter jogadores que dão respostas em 3 semanas, ou que têm que pressionar o seu clube para sair por menos, ou a negociar contratos durante meses, e muito menos roedores de cordas. Ou se tem dinheiro e se bate com ele para empurrar a caneta para o contrato (o que não parece que venha a conhecer) ou contratamos Vatas e Paneiras. Porque com Paneiras e Vatas, ficamos com a contabilidade mais bonita (e eu aprecio um bom relatório e contas) e até perdoamos um ou outro Beto, ou Fernando Aguiar, que venha no pacote.
Somos um povo (ou uma raça, numa concepção cavaquista) que nunca deixou de ser uma criança, com o misto de insegurança, dependência de orientação paternal e felicidade histriónica que esta personificação acarreta.
Procuramos quem nos guie, mas, acima de tudo, quem faça acontecer as coisas que queremos para nós mesmos. E exigimos o que queremos aos “pais” que pela vida nos vão aparecendo (o último foi Sócrates, que já deserdámos), com a nossa particular melancolia enraivecida, que nos leva ao Fado, a Fátima e ao Futebol. Os famosos três efes, que não foram criados por Salazar, mas, simplesmente, aproveitados para mais facilmente nos embalar nos seus braços duros mas tristemente reconfortantes durante 40 anos.
E no futebol, o cada vez maior efe, também precisamos de um patriarca, “um”, alguém. Não um projecto, uma estrutura, ou uma equipa, mas sim um messias que nos conduza com velocidade pela estrada da vitória.
O acaso faz-nos a vontade de 20 em 20 anos. Deu-nos Guttman, Eriksson e Mourinho (embora este último, estupidamente, sem o aproveitarmos). Todos eles mudaram tácticas, melhoraram jogadores e alcançaram vitórias. Foram uns pais para nós e enquanto os tivemos fomos felizes, recebendo generosas mesadas em golos. Se a história mantiver esta série aritmética, vamos ficar órfãos durante mais 15 anos. Temos, por isso, que nos contentar com aquele Tio que não é brilhante mas até é porreiro, que não deslumbra mas cumpre, que não nos dá, de caras, 20 euros, mas arranja 10.
É isso que espero de Quique: que seja o Tio porreiro, com quem seja agradável passar o fim-de-semana.
Zoro, porque "costamarfinense" é indizível e eu respeito muito os relatores da rádio.
Katsouranis, porque está farto e nós estamos fartos de ele estar farto.
Nuno Assis, porque já excedeu a quota de toques de calcanhar.
Makukula, porque não se joga bem de skis e ele nasceu com uns nos pés.
Edcarlos, porque revela falta de sentido posicional, falta de sentido de corte e falta de tempo de salto. A única coisa que não lhe falta é lentidão.
Luís Filipe, porque (obviamente) sim.
Os restantes que fiquem, que eu agradeço. E, por favor, não me falem na saída de Luisão que eu ainda sou menino para deixar para trás 25 anos de ausência de confronto fisico.
Agora que já terminou a participação portuguesa na competição que está a decorrer em terras alheias, pode, enfim, começar o defeso. O defeso a sério, como nós gostamos e precisamos, com noticias várias e diárias do SLB.
Não nos podemos contentar com apenas 5 ou 6 hipóteses de transferência. Precisamos de mais.
Por isso, caros senhores da Bola, Record e Jogo, mandem lá voltar as vossas tropas da neutral e insonsa Suiça e toca a especular.
Hoje, um colega meu demonstrava alguma angústia por não conhecer nenhum dos potenciais contratados pelo Benfica. Quem é esse Djebbour?, perguntava ele, numa tentativa de sustentar o estado angustiado.
Angústia, disse-lhe eu, sentem os sportinguistas: nós não conhecemos o Djebbour, mas eles conhecem perfeitamente o Postiga.
Houve várias pessoas que se cansaram - e me cansaram – a escrever sobre o que tinha que mudar no Benfica. O LFV vinha sempre no top das mudanças mas estava sempre bem acompanhado por uma catrefada de jogadores. Apenas ficaram de fora os restantes membros do CA da SAD porque ninguém sabe o nome deles.
Não me entendam mal, o Benfica tem que mudar algumas coisas, de facto. Só que, muitas vezes, são pequenas coisas que têm que mudar, pequenos detalhes. E um desses pequenos detalhes que merece urgente alteração é a águia Vitória (ou será Victória?).
Apesar de não ser daqueles que deixaram escapar uma lágrima aquando do primeiro voo do bicho, confesso que achei alguma graça. Até à décima vez. Depois comecei a ficar impaciente. A partir da quinquagésima, fiquei frustrado por não me lembrar do local onde o meu pai guarda a caçadeira. Depois da centésima, comecei a ganhar coragem para perguntar a um Noname Boy onde é que poderia comprar uma espingarda de longo alcance a um preço módico.
O raio da águia dá galo. E uma águia que dá galo é, claramente, contra natura e tem que ser eliminada. O pior de tudo é ver o estupor do animal a esvoaçar em círculos, com a carne mesmo ali à frente do bico. Tal qual o Luís Filipe quando tem o Maxi mesmo ali à sempre e flecte para o lado e passa para o Tonel. A tal de Victória (ou será Vitória?) não é um prenúncio, é um espelho das últimas equipas do Benfica: desorientadas e com fome de carne, ao invés de fome de bola.
O bicho tem que ser substituído por algo que represente o que tem faltado ao Benfica: vigor, pujança, velocidade, força, determinação. Por isso, mandem a Águia mais o anão do seu criador embora e substituam-na por um Touro. Sim, um Touro. E em vez de termos um puto com voz fininha a gritar “Vitória, vem” teremos um forcado a gritar “Ei, Touro, Touro, Touro” e os seus ajudas, como uma verdadeira equipa, a pegar o bicho, perante o aplauso verdadeiramente emocionado da multidão (onde eu estarei) e o pasodoble ruidoso irrompendo das colunas.
É por aqui que temos que começar. Adeus Vitória, venha daí o Touro.
Só ainda não decidi como apelidar o quadrúpede. Se fosse Red Bull ainda teríamos como bónus um montante simpático de patrocinio.
Tentámos, até agora, manter um registo actualizado da carreira do Benfica, com uma sequência temporal de crónicas dos seus jogos. Mas o nosso tempo não abunda e, especialmente, aquele final de época (e que alivio poder utilizar o passado) não ajudou. Temos jogos em atraso, pois temos, mas já nem nos lembramos quais. Melhor dizendo, não nos queremos lembrar nem muito menos escrever sobre isso.
A coerência deste blogue esfumou-se. Paciência. Pior seria deixar o defeso sem qualquer nota. Porque o defeso é, simplesmente, o meu período preferido da época. É o tempo de todos os sonhos e ilusões, em que, por breves mas intensos momentos, temos uma equipa fantástica. Recordo, há muitos, muitos anos, uma notícia do Record (sempre o Record, esse formidável vendedor de ilusões) que anunciava a possibilidade de o Rummenigge ingressar no Glorioso. Que mentira descarada mas maravilhosa.
E é isso o defeso: mentiras atrás de mentiras, cada vez mais descaradas, cada vez mais maravilhosas. E eu estarei cá para as comentar. Com um sorriso infantil no rosto e a credulidade no máximo.