28.1.09

Palma de Ouro: Fa qual cosa di calcio

O futebol é um desporto popular. Jogo do povo, da malta simples, terra-a-terra, que só quer dar uns pontapés nalguma coisa ou agredir verbalmente, com insinuações simultaneamente do foro oftalmológico e de filiação materna, alguém invariavelmente culpado pelas nossas derrotas.


Esta bonita tradição (como todas as tradições) tem outras também graciosas (ou não fossem elas tradições) que a antecederam. Entre a perseguição dos romanos aos cristãos, a dos cristãos aos pagãos, a dos homens às mulheres, dos brancos aos pretos, dos pretos aos hispânicos, do Bush a todos os “diferentes”, a verdade é que a culpa morre mais vezes viúva do que solteira.


O futebol, como novo circo, é menosprezado pela elite intelectual (aqui, como a quero insultar, chamá-la-ei pseudo-intelectual), por ela considerado uma bacoca actividade menor; à qual jamais epitetam de arte. Pois… mas é, arte, e uma arte multifacetada, alterando entre o bailado elegante (Barcelona) e a profundidade lenta e aborrecida de um filme bergmaniano (Benfica).


A forma pausada e meditativa com que os jogadores do glorioso abordavam cada jogada, o dilacerar interior do Suazo ante as bolas lançadas à toa na sua direcção, a agorafobia entorpecedora do Reyes, a angústia paralisante de Quique ante a imperiosa necessidade de decidir, o desespero impotente do adepto ante o marasmo de Belém, o tédio dos 90 minutos, o frio sueco às vistas do Tejo; todos os condimentos de um bonito filme europeu se reuniram naquela partida.


Desafio esses (pseudo) intelectuais a menosprezarem a contribuição do Benfica para o enobrecimento da cultura portuguesa, desafio os benfiquistas a não se lançarem aos colarinhos de Quique exigindo uma jogada, uma jogadinha de jeito, uma ténue brisa de vontade de vencer, andiamo Quique, di qual cosa di sinistra, fa qual cosa di calcio, ma calcio vero, senza niente di italiano, per favore!


Mas não consegue, Quique ambiciona jogar com 4 centrais e 3 médios defensivos, mesmo que fora de posição, e fazer pontapear a bola para Suazo, Cardozo, ou Nuno Gomes, seja qual for o exilado de serviço. Para um futebol assim, não precisávamos de ti, ó Flores. Para isso ficávamos com o teu adversário de sexta-feira. É daqueles honestos como tu, mas pelo menos já conseguiu ganhar alguma coisa.


E agora, para animar, vou ver os Morangos Silvestres.


Belenenses, 0 - Benfica, 0

4 comentários:

Ricardo disse...

Proponho a imediata demissão de Quique, com a justificação plausível de que o público português não reconhece nos realizadores espanhóis capacidades suficientes para que do seu trabalho possa nascer um Benfica campeão.

Dado que, historicamente, os suecos sempre foram boa colheita, proponho para o lugar do espanhol o Dr. Borg. Não chegando, o próprio Bergman. Assimcomássim, sempre nos íamos entretendo.

Ogait disse...

Calma, hombre, Aljubarrota nunca mais!

papoila disse...

Designar o futebol praticado pelo Benfica como Bergmaniano é um elogio! Não percebo, portanto as criticas a Quique! Nunca o Glorioso teve um banco tão garboso! Quique é para ficar....

Peter of Pan disse...

Nunca o Benfica é um filme do Bergman. O máximo a que o futebol do Benfica aspira é tornar-se um filme de segundo escalão realizado pela tripla ZAZ.