8.11.09

Orgulho e preconceito

Se Jane Austen fosse uma jovem portuguesa contemporânea, um dos seus livros mais afamados teria um título mais curto - Preconceito - ou mais enigmático - Preconceito peculiar.
Isto porque em Portugal orgulho é sentimento que raramente se encontra. Explicações podem haver muitas. Uma das teses que defendo - a par de o declínio do SLB moderno ter começado com Valdo, tese que um destes dias (ou anos, para dizer a verdade) terei o prazer de apresentar - tem a ver com o nosso ambiente infantil. Passo a explicar: numa daquelas cadeiras para encher uma licenciatura de 5 anos, levei com um bicho chamado Psicologia Económica. Um dos temas abordados tinha a ver com o impacto económico das histórias infantis, o que, à partida, parece tema para entrar directamente numa lista dos prémios Ig Nobel. Mas olhem que não: a tese passava pela diferença entre as histórias contadas às crianças americanas e às europeias. Às primeiras, eram histórias de heróis, pessoas maiores do que a vida, personagens reais como a maior parte dos presidentes americanos. Não me lembro dos exemplos das histórias europeias, mas se pensarmos cá no nosso canto e, em particular, na minha geração, toda e qualquer personagem era para mandar abaixo: tudo o que era monarquia era fascista, pois se era glorificado por Salazar; sobravam o Soares que queria vender o país aos americanos, o Sá Carneiro que também era fascista e o Cunhal que comia criancinhas ao pequeno-almoço, se bem que, neste ultimo caso, eu ainda acredito nisso. E até as nossas gloriosas descobertas, deixaram de ser o que deu novos mundos ao mundo, para ser o que deu novos escravos ao mundo.
Em suma, aos putos americanos apontaram-lhes a estrada da glória e a nós a porta do psiquiatra.

Já quanto ao preconceito, eu, sinceramente, não me parece que haja um traço assim tão mais forte nos portugueses do que noutro povo qualquer, quer quanto a estrangeiros, negros, gays, ou outra minoria qualquer. Isto porque o preconceito dos portugueses incide, não sobre uma minoria, mas sobre uma maioria: os portugueses. É verdade, os portugueses odeiam-se. É o self-bulying, uma actividade que os portugueses adoptam continua e metodicamente.

Quero com isto dizer que os portugueses não têm orgulho em absolutamente nada? Não, por Toutatis. Há também por cá uma pequena aldeia de orgulho no meio do império Romano do auto-preconceito: o SLB. Não se confunda este orgulho, que é do verdadeiro, com aquele esporádico com a selecção. Para começar, a maior parte dos papalvos, e papalvas, que se excitam com qualquer vitória de Portugal, tipo 2 a 0 a Angola, não percebem um boi de futebol e apenas se servem disso para terem um pretexto para virem para a rua buzinar e molhar o cu em fontes publicas. Isso não é uma demonstração de orgulho, é hooliganismo consentido. E mais: esta malta, se alguma coisa correr mal, dirá tanto mal da selecção como da ministra da educação.
O orgulho é outra coisa, é um sentimento enraizado, sólido e desprovido da necessidade de explicação, que não soçobra perante adversidades. Pode, quanto as tais adversidades têm maior constância, ser bastante discreto, mas está lá.

Mas há ocasiões em que ele salta mais cá para fora e em Goodison Park foi uma delas. Não propriamente pelo resultado ou exibição - que foram ambos bons, note-se - mas pela recepção ao Eusébio. Orgulho é ver que o maior símbolo do SLB se encontra plantado nos genes de qualquer ser que se digne a perceber um bocadinho de bola e que lhe prestam a merecida homenagem.
E aos politicamente correctos - a.k.a. esquerdalhos - que andam para aí a bater nos Descobrimentos, lembrem-se só do seguinte: sem eles não teríamos Eusébio. E por termos Eusébio, toda e qualquer atrocidade cometida lá pelos séculos quinzes e dezasseis fica liminarmente perdoada e esquecida.

O Kunta Kinte que me perdoe.

Everton, 0 - SLB, 2

6 comentários:

doneri disse...

Grande post...self bulying é perfeito pa definir o tuga, a selecção do queiroz só serve para não poder ver o slb, e o nosso orgulho é o que faz tanta confusão aos anti.

Tiago disse...

Padinha, se continuas a escrever assim, arriscas-te... a ter uma estátua ao lado do King.

M. disse...

Grande post. Deve ser o único blog de direitosos a que acho piada. Mas com o Benfica em primeiro tendo a diminuir o limiar do meu sentido de humor. Mas o blog é mesmo bom.
Um abraço de esquerda, à Benfica

mago disse...

M., deixa-te lá de coisas. O blog é bom seja como for, mas assim ainda fica melhor.
Um abraço às direitas, assim tipo à Maxi.

PS - só para relembrar que há quem continue à espera do post sobre "Os génios que não marcaram golos".

Padinha disse...

M., que fique registado que o osp não é um blogue de "direitosos" mas um blogue que tem um "direitoso"(que sou eu).Temos por cá "esquerdalhos" valentes. É pró menino e prá menina.

mago, um dia, um destes dias, teremos o post "os génios que não marcaram golos".

M. disse...

Ok, Padinha, fica registado.
mago: avatar do "La Marque Jaune"? Genial.
Um abraço ainda mais à esquerda, tipo Di Maria!