No fim deste texto, algumas das pessoas que aguentarem até lá chegar poderão ter vontade de perguntar ao OSP: “Ó OSP, então mas tu não estás só interessado em coisas que digam respeito ao SLB? E agora metes-te aqui a escrever sobre temáticas de outra ordem?” Ambas as perguntas, válidas, sem dúvida, partem, contudo, de variadas premissas falsas, e o OSP até pode decompô-las em alíneas (e com que prazer o OSP decompõe argumentação em alíneas), uma vez que o texto em questão:
a) na realidade era para ser sobre o germinar da dupla Sidnei-Miguel Vítor (ah, que belos são o viço da juventude e a audácia de assumir os 19 anos em frente a 60 000 pessoas…), que no mínimo vai ser tão boa como a dupla Mozer-Dito, assim o Luisão seja vendido;
b) embora possa não o parecer, diz respeito ao SLB, mesmo que para tal seja necessário fazer um simples exercício de compare and contrast;
c) recorda que, no seu panteísmo, o SLB transpassa toda a matéria, pelo que absolutamente nada no cosmos é sem SLB. Mesmo que a melhor maneira de descrever o Sporting, por exemplo, fosse “ausência de SLB” (já o Porto seria “ausência de desportivismo, autocrítica, dignidade e de qualquer resquício de higiene íntima”), tal não deixaria de implicar que, afinal, o que define o Sporting como clube é a existência do SLB;
d) faz parte de um esconjuro que eu, Tó Portela, devia ter feito logo no Verão de 1994, quando, escondido algures entre o Nelo e o Tavares, o Paulo Bento apareceu a jogar no SLB;
e) prova que o OSP ama e defende o jogo de futebol acima de tudo, pois, no fim de contas, sem futebol não haveria SLB (se bem que não deixaria de haver OSP). Tendo isso em consideração, e tal como o Gabriel Alves antes dele, o OSP não admite que lhe sirvam porcaria num derby e fica lixado com a pessoa responsável por isso (foi num 1-3 com o Sporting, por exemplo, que o OSP cortou de vez com o Koeman);
f) dispensa a leitura do folheto.
É sabido que acontecimentos de grande emoção geram por vezes respostas que parecem contrárias à seriedade daquilo que se está a viver. Não é infrequente, assim, ver-se pessoas a contarem histórias em tom ligeiro, como forma de aliviar a tensão, à porta de uma igreja onde está a haver um velório. E toca a todos, até a gente eminente: o Wagner, por exemplo, nos seus momentos de penúria mais desesperados, acalmava-se vestindo lingerie; o Kennedy precisava de ir acompanhado para os bastidores durante cinco minutos só para ver se lhe paravam as enxaquecas; e o OSP tem tendência para se rir nervosamente, como uma adolescente a ganir num concerto dos D’zrt, quando lhe acontece algo e não sabe como reagir.
Quando o SLB perdeu 5-3 com o Sporting para a Taça, na época passada, foi desse modo que o OSP reagiu (passadas aquelas primeiras 24 horas de absoluto estupor, claro está, que o OSP não é um monstro sem sentimentos benfiquistas). Só que o riso do OSP, então, não ficou histérico por muito tempo: às tantas, transformou-se mesmo num vigoroso gargalhadear. Para esta mudança de estado de espírito contribuiu, sem dúvida, e em exclusivo, a notícia que foi então posta a circular na imprensa de que o volta-face que aconteceu nesse jogo, no qual o SLB estava a ganhar 2-0 aos 31 minutos de jogo, se tinha devido a um discurso inspirador do Paulo Bento ao intervalo, aliás comparado pelos seus jogadores ao do William Wallace no Braveheart.
A partir daí, e até hoje, sem falha, quando tudo lhe parece negro no sentido Lisboa-Almada às sete e meia da tarde, quando vê a esperança e o amor pelo próximo murcharem nos olhos vítreos de um funcionário do Centro Regional de Segurança Social de Lisboa e Vale do Tejo, quando sente a Margarida Rebelo Pinto a mirá-lo de forma sensual a partir da capa da Ler, o OSP pensa nessa notícia relativa aos dotes oratórios do Paulo Bento para se animar. Também a usa com grande sucesso para animar os outros em velórios. Seja como for, na ressaca dessa noite lisboeta de carpido, foi essa a notícia que ajudou o OSP a chegar a um sentimento de closure.
Agora, o OSP está perfeitamente ciente de que a fugacidade com que o Paulo Bento fala e a sua entoação absolutamente impossível de determinar (é preciso lembrar que ele já falava assim antes de ir para Oviedo, pelo que o seu acento de sempre só se pode dever a um desvio não-culto da norma-padrão com o qual ele foi contaminado algures na sua Pontinha natal) fazem por vezes parecer que ele é natural de John O’Groats; que metade do plantel do Sporting (o Moutinho, o Veloso, o Vukcevic, o Stojkovic, etc.) odeia-o e nem sequer ouve bem o que ele diz antes (tanto na academia, como no autocarro, e acabando no estádio), ao intervalo ou depois do jogo; e que a ideia que o Miguel Veloso tem de uma exortação inspiradora passa mais por um conselho de cariz beautéano do que por retórica de tipo churchilliano (uma vergonha, sendo filho de quem é), pelo que o miúdo podia estar a inventar quando falou com os jornalistas. O OSP tem noção de tudo isto, todavia, porque vem acompanhando a carreira e o verbo do Paulo Bento desde que ele, imberbe e suburbano, marcou um golo na finalíssima da Taça entre o Estrela e o Farense, tem muita dificuldade em acreditar que o call to arms do Paulo Bento no intervalo desses 5-3 tenha sido:
Paulo Bento: Filhos do Sporting, eu sou o Paulo Bento.
João Moutinho: O Paulo Bento tem mais de dois metros de altura.
Paulo Bento: Sim, já ouvi dizer isso. Ganha jogos às centenas e, se aqui estivesse, reduzia o Benfica a cinzas com bolas de fogo saídas dos olhos e relâmpagos saídos do cu. Eu sou o Paulo Bento! E vejo aqui um exército inteiro de jogadores meus, a desafiar a tirania. Vós viestes lutar como homens vitoriosos, e homens vitoriosos sois. O que faríeis sem a vitória? Lutaríeis?
Polga: Lutar? Contra aquilo? Não, vamos fugir – e vamos viver.
Paulo Bento: Sim, lutai e podereis morrer. Fugi e vivereis – pelo menos durante algum tempo. E, quando estiverdes a morrer nas vossas camas, daqui por muitos anos, estaríeis dispostos a trocar todos os dias, deste dia até esse, por uma só oportunidade de voltardes aqui para dizerdes ao Benfica que ele nos pode tirar as vidas, mas que nunca nos tirará a vitória neste jogo?
Paulo Bento e jogadores: Sporting gu bra!
Quer parecer ao OSP que não, de facto parece-lhe que não; aquilo que aconteceu não deve ter sido nada parecido com isto. Perceber como se passou de 0-2 para 5-3 é possível recorrendo à seguinte operação quase-aritmética: orgulho ferido do Sporting + jogo em Alvalade + o Chalana e o Rui Águas no banco do SLB (note to self: se possível lembrar que o Rui Águas foi adjunto do Jesualdo) + o Petit estar a dormir encostado ao Vukcevic (ainda há algum benfiquista que pergunte porque é que o deixaram ir para o Colónia?) no golo do Djaló que fez o 2-1 e deu esperança ao Sporting + o traidor do cabrão do palhaço dessa merda de homem do Rodríguez (já então infiltrado, com certeza) deve ter minado o balneário de alguma maneira.
O 5-3 aconteceu, como aconteceu o 6-3, e coisas assim não acontecem muitas vezes. Não se deve a uma só causa, nunca se deve, aliás, porque só a vontade de compartimentar, de categorizar, pode reduzir as coisas, o mundo, a essa expressão demasiado simples. Do que o OSP tem certeza é de que ele não se deveu ao facto de o Paulo Bento poder vir a ter um verbete só para ele na História da Oratória Portuguesa. Esse ponto de vista deve-se, crê o OSP, mais aos jornalistas desportivos portugueses, que nunca se depararam com uma realidade que não pudessem fabricar.
Também é sabido que a doença é a cola que mantém a sociedade portuguesa unida. Basta ir à sala de espera de qualquer centro de saúde, de Vila Nova de Cerveira a Castro Marim, para ver que assim é. Se se tirasse a oportunidade aos idosos portugueses de se queixarem dos seus joanetes, afrontamentos ou palpitações a perfeitos desconhecidos, irromperia a guerra civil nas ruas do País, milícias geriátricas levariam tudo à sua frente.
O futebol em Portugal tem igualmente uma doença, que alguns treinadores insistem em perpetuar, com ou sem variações, e essa doença chama-se “futebol apoiado”. É o futebol pedrotiano, de passe mais ou menos curto, mas sempre controlado, de segurança (porque os jogadores portugueses, agora como em 1970, são baixos, têm todos bigode, são morfologicamente menos formidáveis do que os demais europeus e têm de jogar de maneira contida para não serem atropelados), cuja escola ainda hoje é o maior obstáculo a um desenvolvimento pleno do futebol português, que desde os anos 60 até hoje consegue criar, como que sem querer, dos melhores jogadores do mundo. É o futebol da posse (e não só da bola, trata-se da posse como conceito), como se o jogo, que pertence a todos, se pudesse possuir, se pudesse coagular em unidades discretas infinitamente padronizáveis – como se o fluxo que o futebol é se pudesse parar pela propriedade.
Desta forma, não é de estranhar que as últimas duas equipas portuguesas que jogaram um futebol de verdadeira dimensão europeia tenham sido o SLB do primeiro Eriksson e o Porto do Mourinho (aqui também pertenceria, nunca ninguém tirará esta da cabeça do OSP, o SLB do Toni em 1993/94), que faziam anything but. Aproveitando o melhor que o futebol de cá tem – que é, na verdade, a técnica individual, que é a base do futebol apoiado –, jogavam, no entanto, com um dinamismo que é raro ver em Portugal, onde se acha que ver as equipas a passarem para o lado, em “toadas de estudo mútuo”, e a “organizarem a partir da retaguarda” são aplicações acabadas da técnica refinada do jogador português.
E, se não é sabido, vai passar a ser: o OSP não é, nem nunca foi, grande admirador do Paulo Bento, nem como jogador, nem como treinador. Quando ele veio do Guimarães para o SLB como grande contratação do Artur Jorge, o OSP ficou logo desconfiado (ou não estivesse contido nesta frase, para o OSP, um beijo da morte instantâneo). Afinal, como antigo jogador do Palmense e do Futebol Benfica, o Paulo Bento deve ter ido mais do que uma vez a treinos de captação no SLB, deve ter tentado, como outros miúdos de Lisboa, viver o sonho no pelado que havia ao lado do pavilhão Borges Coutinho, mas a verdade é que nunca ficou na Luz. Só chegou lá em 1994, e logo para ser o patrão do meio-campo. Os anos do Paulo Bento no SLB que se seguiram nada fizeram para apagar esta primeira ideia no espírito do OSP, como não o fizeram os anos subsequentes da carreira dele.
Não que não houvesse, no Paulo Bento-jogador, muito para o OSP admirar, porque havia-o: muitas das virtudes do Paulo Bento (a vontade, o vigor, a garra) eram, na realidade, obrigadosápínticas, sobretudo a superação, pois o Paulo Bento conseguiu, com muito pouco, fazer uma carreira de muito. Só que sempre houve ali algo que, como uma halitose persistente ou um cartão de militante do CDS-PP, nunca permitiu uma aproximação total entre o Paulo Bento e o OSP: a total ausência de rasgo, o cinzentismo na maneira de jogar futebol (e mais tarde de o ver do banco), a horizontalidade na visão do campo, o passe para o lateral que vem a subir em vez de arriscar o remate à baliza, a “falta cirúrgica” a meio-campo (vezes e vezes e vezes sem conta) para parar o contra-ataque da outra equipa, para parar o futebol. Se nem sequer se tenta o rasgo, nunca pode acontecer OSP.
E o problema é que há Paulos Bentos a mais no futebol português.
Claro que isto faz sentido, uma vez que, bem vistas as coisas, um dos treinadores que mais influenciaram o Paulo Bento foi o João Alves, cujas equipas sangravam futebol apoiado (e que bem o faziam as suas grandes equipas no Boavista), tal como fazem as do Paulo Bento-treinador. A questão aqui, contudo, é só uma: o Paulo Bento treina o Sporting, não o Estrela da Amadora ou o Boavista. Até a equipa de juniores do Paulo Bento que foi campeã (a do Miguel Veloso e do Nani e do Djaló) jogava esse futebol curto, no campo e na mentalidade, e esteve a dez minutos de perder o título para a do SLB (a do João Coimbra e do Blaze Berzovacki e do Davidson) no último jogo do campeonato. E não há Taças nem Supertaças que o Paulo Bento possa ganhar que mudem essa verdade.
Ver o Sporting do Paulo Bento a jogar é como lembrar uma equipa portuguesa a jogar nas competições europeias na década de 1980 (ou hoje em dia, curiosamente) ou as qualificações da selecção para Europeus e Mundiais nessa mesma altura; é reviver o SLB do Manuel José a jogar em contra-ataque na Luz contra qualquer adversário, mesmo que se tratasse do Espinho; é acordar a meio da noite a pensar no Rehhagel; é perceber porque é que o Sporting foi jogar a Madrid e a Barcelona neste último mês com o servilismo com que o fez. E é este o treinador que diz mal da qualidade dos Wigans da Premier League e depois põe o Sporting a jogar mais lentamente do que qualquer um deles tendo melhores jogadores do que qualquer um deles.
E depois há aquele jeito do Paulo Bento, lapalissiano, sempre tão despretensioso a louvar a sua própria “frontalidade”, a desafiar os jornalistas a fazerem perguntas ao Vukcevic (e o Sporting, ao mesmo tempo, a querer impedir o Vukcevic de falar aos jornalistas), ou tão pronto a insultar árbitros a partir do banco e a queixar-se deles no fim dos jogos (como já fazia quando jogava). Mas só em Portugal, note-se, que, quando é roubado a sério, como em Barcelona, nada diz. E, sobretudo, há o futebol fastidioso e positivista e de controlo e de solidez defensiva e de segurança no passe da sua equipa. Esta derrota gemebunda na Luz não foi senão a paga pelos três últimos anos em que o Sporting, sempre que vai à Luz ou ao Porto, nada mais tenta fazer do que empatar.
Claro que não deixa de ser sempre complicado ganhar a este Sporting (o Jesualdo que o diga), mas isto não é maneira de um grande jogar futebol. O OSP ficou lixado por o jogo de sábado ter sido fraco, e está lixado com o Paulo Bento por pôr a equipa dele a jogar assim num derby. Essa foi a principal razão para um jogo na maior parte do tempo mau, disso o OSP não tem dúvidas, mas claro que o SLB tem também muita culpa no que se passou, pois aquela primeira parte de futebol directo para a cabeça do Cardozo parecia um regresso aos piores tempos do Camacho. Só que é de facto difícil jogar contra uma equipa, como o Sporting, que, isso é verdade, nunca perderá por muitos, mas que faz da posse de bola sem finalidade a sua táctica, da contenção pela contenção um modo de matar a vontade do adversário. E do público: o silêncio que se ouviu no estádio nos primeiros 20 minutos da segunda parte, até ao golo do Reyes, foi a maior prova disso mesmo. E o silêncio também vinha dos adeptos do Sporting.
A consequência disto, quando o Reyes marcou, foi que um modorrento OSP deu por si a pensar que raramente tinha assistido a uma segunda parte em que o aparecimento de um golo, para qualquer uma das equipas, fosse algo de tão estranho em relação ao que se passava em campo. Só o génio (e o golo do Reyes foi de) podia fugir à lógica do jogo, que estava a ser imposta pelo Sporting e supervisionada pelo Paulo Bento.
O OSP está lixado por o derby de sábado ter sido fraco, e sobretudo condói-se de alguns sportinguistas, porque teve ainda há bem pouco tempo um ano de Trapattoni para saber como eles se sentem. Sabe que, para o espírito de quem gosta de futebol, nada dimana do futebol de base atrás do Paulo Bento, sabe bem que desse solo nada cresce. Com o Paulo Bento, como com o Trapattoni (e o primeiro tem mais jogadores bons do que o segundo alguma vez teve no SLB), é assim: quando se ganha, tudo se esquece e se perdoa; quando se perde, a frustração da maneira como se perde é pior do que a derrota em si. A não ser que esta seja por 5-3 numa meia-final da Taça em que se esteve a ganhar 2-0; aí, talvez seja ao contrário.
E o problema é que há Quiques Flores a menos no futebol português.
* O OSP nunca apreciou a zombaria por parte do lado vencedor que sempre se segue aos jogos entre o SLB e o Sporting. (É toda uma forma de estar, no desporto e na vida, por parte do OSP.) Na escola, inclusive, a seguir a algum derby particularmente mau, o OSP ficava muitas vezes doente ou pedia à professora de Inglês, de quem era o aluno dilecto, para passar a tarde com ela na sala de professores a fazer os trabalhos de casa (na segunda-feira, 15 de Dezembro de 1986, excepcionalmente passou lá a manhã e a tarde). É por isso que o OSP pode assegurar que o propósito deste texto não é bater num cavalo morto, é antes um alerta a todos aqueles sportinguistas, e o OSP sabe que ainda os há, de cujo coração verde e branco foi arrancado um grande bocado, quando o Bobby Robson foi despedido em 1994. Já para aqueles que ficaram satisfeitos com a vitória em Braga no mês passado, para esses o OSP não tem tempo.
Depois de ver aquele golo do Reyes, o OSP chegou à conclusão de que a euforia no seu peito só pode ser acalmada por um filme de porrada no Odivelas Parque (também porque lhe dará a acção que este jogo horrível nunca teve). Então, ora bem, vamos lá ver, pois vai ter de ser o do Vin Diesel, às 0h05, que, por ser do Kassovitz, deve ter algum do tchan pseudo-intelectual francês que o OSP não dispensa. Também por isso o OSP sabe que estará acompanhado na sala por muitos benfiquistas. Ainda vai dar para chegar a tempo.
No dia em que o nome do homem-aranha volta a ser evocado (em vão, diga-se, porque nenhum Marvel deve andar nas bocas do povo por dá cá aquela palha), esta personalidade obrigadosápintiana mostra-se acontentada. Agruras da vida pessoal levam este vosso servidor a levantar-se a horas de ir acordar o galo. O galo que vive no barracão do Ti Rita de Montemor-o-Novo, pelo que toma tempo a lá chegar. Assim, as horas da noite são uma pequena tortura.
Confesso que momentos houve, ao longo da segunda parte, em que as pálpebras pesaram. Não fora os ocasionais (pouco ocasionais) golos carpinteiros, que me levavam para fora do torpor como se um desfibrilador acabasse de me acariciar o peito, e eu nem via o final do jogo. Bem-haja a tremedeira benfiquista.
Se descontarmos o facto de o Paços de Ferreira ter marcado ontem um quarto dos golos que marcará em toda a temporada, o jogo não foi desagradável. O Benfica, depois de anos e anos, joga para ganhar (e anos e anos e anos...), e confesso que a minha veia de desportista não dopado quer é ver o Benfica a jogar para ganhar, a marchar para cima deles, e o resto que se lixe (já a veia de desportista dopado quer ganhar com um penalty, mal assinalado, cobrado com a mão – mas é veia que mantenho bem garrotada)!
Claro que o Paixão tentou estragar o jogo (como é seu costume), mas nem o facto de o Bruno apitar mais que um comboio em noite de nevoeiro a atravessar as favelas de Mumbai me enervou mais do que o inevitável (we will always have Campo Maior). Até chegou ser divertido ver o Yebda a sofrer duas duras faltas de seguida e ser marcada uma falta contra o Benfica porque os amarelos caíam com o impacto. Na verdade, sinto o contentamento de uma criança que é apanhada a roubar um doce, leva uns açoites, mas ainda se ri, pois o doce já cá canta. Mais um pouco e apanhava os açoites sem ir a tempo de engolir atabalhoadamente o docito. Os 3 pontos já cá cantam, o Benfica atacou (mesmo que mal), e os carpinteiros não foram a tempo de nos açoitar. Porém, há apontamentos a reter:
O Nuno Gomes joga bem é com outro avançado ao lado, e o Benfica em Portugal deveria jogar sempre assim. Entendo que ainda não se tenha percebido isso. Afinal de contas, só faz doze anos o Nuno Gomes joga bem nessas condições.
O Reyes está para o Quique como o Maxi estava para o Camacho. Irá jogar sempre que consiga estar em pé. Isso não significa que, apesar de aliviar tão mal quanto remata bem, não estejamos perante um jogador fora de série (mauzinho de cabeça, é certo), e ouvir os "comentadores" dizer que é curto para as necessidades do Benfica é como ouvir dizer que as armas nucleares são fraquinhas.
Deviam é ir apitar para os caminhos de ferro indianos.
A despeito de ter lido o seu Abbagnano de fio a pavio, a verdade é que o pensador com quem o OSP mais se identifica não pertence ao domínio do academicamente acreditado. Tudo porque esse pensador é o Calvin – não o beato, mas o da BD –, cuja Weltanschauung contém ensinamentos abundantes, que têm, de resto, valido ao OSP em muito debate filosófico nas inúmeras tertúlias que frequenta. E, tal como o Calvin diz de si mesmo numa das suas frases mais memoriosas, também o OSP se considera um homem simples com gostos complexos.
Na sua simplicidade, o OSP vive a vida de acordo com não mais do que duas regras elementares: não comer carne de porco mal passada e não falar nunca de futebol com adeptos do Porto. E a verdade é que, até agora, e já lá vão mais de três décadas de vida, o OSP ainda nunca apanhou ténia.
Já na sua complexidade, o OSP tem de confessar que os seus jogadores preferidos do SLB desde que o Rui Costa saiu para a Fiorentina foram, por ordem cronológica, o Bruno Caires, o Roger, o Carlitos (o do Basileia) e o Fábio Coentrão. Na verdade, é difícil explicar uma complexidade desta ordem, pelo que o OSP nem sequer vai perder tempo a tentar fazê-lo.
E o que tem isto que ver com o Nápoles-SLB? Aparentemente, nada, mas o facto é que o lirismo do SLB do Quique começa sinceramente a arrebatar o OSP, e a mera ideia do Nápoles representa muito para quem, como o OSP, tem na maior parte das vezes uma visão romântica do futebol. O exagero romântico da relação do Nápoles-clube e da Nápoles-cidade com o Maradona assegura, aliás, que sempre assim será.
Ora, como já tão bem notou o Padinha, no que foi confirmado até ao osso pelo jogo de Itália, o SLB deste ano pratica um tipo de futebol inteiramente irresponsável (com extremos e tudo, Maradona seja louvado, e com um só trinco!), e a simplicidade desta abordagem é desarmante: enfrenta-se a equipa adversária olhos nos olhos, cada uma mostra os seus argumentos (os do SLB passam por ter, em 11, pelo menos quatro jogadores que não só não defendem, como consideram a defesa uma categoria vazia, sem veridicidade no século), e que ganhe a melhor. Esta atitude nada tem de complexa, faz parte da quinta-essência do próprio jogo. Entende o futebol, na verdade, como sendo ainda um jogo.
O lado complexo, claro, é o que ainda falta ao SLB do Quique. Mesmo atendendo a que este foi só o terceiro jogo oficial da época, a equipa não faz a mínima ideia de como defender em bloco, de como se articulam jogadores de diferentes sectores para, por exemplo, impedir que os laterais adversários subam quase desimpedidos até poderem cruzar (e expor horrivelmente o Quim). Ontem, aliás, bastava um jogador do Nápoles passar a linha do meio-campo para o lado do SLB para o OSP pensar que vinha aí uma clara oportunidade de golo. E assim foi até entrar o Katsouranis.
É por tudo isto que a questão simplicidade vs. complexidade é tão pertinente numa análise do Nápoles-SLB.
Voltando atrás, à tal ideia de que muito da visão romântica que o OSP tem do futebol se deve ao Maradona no Nápoles: hoje em dia, quando simplesmente falar de futebol parece ter ganho carácter científico, tanto na boca dos treinadores, como nos editoriais dos jornais desportivos e nos comentários de qualquer badameco da Sport TV, com a riqueza do vocabulário desportivo (como em A Bola de antigamente) a não partir da criatividade na combinação dos recursos da língua, mas sim do clichê e do anacoluto, o OSP gosta, volta e meia, de se imergir no futebol-diversão, o que faz muitas vezes vendo o Maradona a aquecer antes de um jogo qualquer em Itália.
Não se marcam golos, não há basculações, não há transições defesa-ataque e ataque-defesa, não há pressões altas nem processos ofensivos, não se trata de treino integrado, mas este clipe é do melhor futebol que o OSP já viu. O OSP sempre achou, aliás, que esta sensação de divertimento absolutamente descontrolado é que é o futebol. Esta euforia.
Impossível hoje, na idade do futebol-ciência, esta descontracção, esta falta de atitude, este prazer, mas isso não impediu o Maradona de ser o maior de todos (e, porra, ele é-o: o homem tinha 1,65 m e jogou em Itália, quando o calcio era calcio e o Gentile ainda jogava, e marcou 115 golos em Itália, quando o calcio era calcio e o Gentile ainda jogava) e de ganhar mesmo numa altura em que o Milan do Sacchi surgia como agouro do futebol-ciência. E, já agora, de quase ganhar o Mundial de 90 sozinho, apesar de o seu corpo se começar já então a assemelhar ao do Fernando Mendes (o do Preço Certo em Euros).*
Pois bem, o jogo de ontem em Nápoles foi o aquecimento do Maradona. O SLB deste ano é o aquecimento do Maradona, capaz de ir jogar com uma equipa italiana, assumir o jogo e a bola, atacar com oito jogadores, com abandono, sempre que há hipótese (mesmo sem saber como é que se ataca bem), e depois defender como a selecção brasileira de 82. É o Balboa a correr desgovernado e a mostrar que devem faltar para aí três jogos para ser o defesa-direito titular (ou pelo menos um Vítor-Paneira-a-lateral-direito-na-segunda-parte-à -Eriksson-para-virar-o-jogo, 20 anos depois), o Reyes a simular fintas completamente parado, o Di María a fazer sabe-se lá o quê, o Suazo a correr sozinho contra toda a defesa do Nápoles, o Yebda a fintar, e o Carlos Martins com birra dentro do campo. E quatro defesas vestidos de encarnado a sentirem-se sozinhos no mundo.
E o Nápoles, sendo italiano (só uma equipa italiana poderia ter tanta mama em ressaltos que dão golos) e jogando à espera de ver o que o SLB ia fazer para depois jogar em contra-ataque, ajudou, pois quis sempre marcar mais um. Ficou 3-2, podiam ter sido mais. Não foi nada mau para uma equipa tão genuinamente acriançada como o SLB está a mostrar ser este ano.
Repare-se que aquilo em Nápoles foi tão aquecimento do Maradona que, no fim do jogo, o Santacroce saiu do relvado de cuecas depois de mandar tudo para a bancada, o que não se vê senão quando o futebol é desporto, senão quando jogadores e adeptos sentem que estão a desfruir algo especial.
É que a complexidade no futebol acaba com este tipo de momentos, e divertir-se com o jogo não é ir para a Praça Sony ver jogos da selecção com a cara pintada. Quem desfrui verdadeiramente o futebol sabe que a beleza do jogo não pode sair do que acontece dentro daquele rectângulo, nem depende só de resultados ou de vitórias. O futebol tem de ter risco e diversão, e o OSP está satisfeito por ver que o SLB está a tentar acomodar isso no seu jogo. Agora é preciso algum tempo para que jogadores que foram programatizados para nunca o fazerem aprendam a jogar nesse risco e nessa diversão.
Ontem, o SLB perdeu, é certo, e a exibição não foi de maneira nenhuma para lembrar, mas ninguém desconvence o OSP de que, apesar de tudo, é melhor perder assim, em cima deles (o grito de guerra do Ângelo que, via Padinha, se tornou o lema oficioso do OSP esta época), do que como se perdia com o Fernando Santos e o Camacho – com os jogadores borrados de medo ou prestes a precisarem de cair no divã do psicanalista. Na vida, há muito para dizer sobre a forma como se perde, e o SLB deste ano ao menos não perde de joelhos, não perde agachando-se para fora da possibilidade do soco.
Dito isto, o OSP tem noção de que, na sua atitude de jogo pelo jogo (no triunfo do simples sobre o complexo), o SLB do Quique pode não durar muito mais tempo. Já ontem, ao ler os comentários sobre o jogo dos leitores do MaisFutebol (o que o OSP gosta de fazer quando lhe apetece perder a fé no género humano e não há nenhuma Convenção Republicana a acontecer para o ajudar nisso), o OSP desbotou ao ler alguém que afirmava – agramaticalmente, claro – que o SLB tinha feito, em Nápoles, a pior exibição que ele já tinha visto. Ou se tratava de uma criança de não mais de dois anos, ou é melhor o Quique ganhar em Paços de Ferreira para o SLB não ter de começar já a planear a próxima época.
E que bem poderia estar já a correr esta, pondera o OSP, se ao menos o SLB conseguisse acabar um jogo que fosse com 11. Mas imperturbabilidade, benfiquistas, imperturbabilidade, porque o OSP pode garantir que o SLB vai marcar cinco na segunda mão. E tem quase, quase a certeza de que o Nápoles não vai passar dos três. Mesmo com o terror que essa ideia provoca, não deixa de ser bom pensar que se vai ver um jogo assim ao vivo.
* É também por estas e por outras que o OSP preferirá sempre o Messi ao Cristiano Ronaldo: o Messi, mesmo aos 40 anos, com barriga de Quilmes, ainda conseguirá fazer uma cueca a qualquer defesa de 18; o Ronaldo, aos 40 anos, com barriga de alcopops (há aqui toda uma diferença) a levar-lhe a velocidade, não conseguirá passar por um defesa da II B que tenha duas pernas funcionais. Mas, por agora, chega de bater no Ronaldo, apesar de esse ser um dos passatempos predilectos do OSP.